
wellness real estate, um setor redefinido, não medido
Um setor cuja série inteira se move para trás quando a definição muda não está sendo medido, está sendo redefinido.
Wellness real estate é a categoria com que o Global Wellness Institute mede o gasto de construção de imóveis que incorporam elementos de bem-estar, e não o valor do estoque nem o preço de venda desses imóveis. É o setor de maior crescimento anual da economia do bem-estar entre 2019 e 2024, e para esse mesmo ano de 2024 o instituto publicou dois tamanhos: US$ 548,4 bilhões em novembro de 2025 e US$ 711 bilhões em maio de 2026.
Dois artigos desta seção já ocuparam o terreno vizinho. Um mostrou que o prêmio de preço por bem-estar existe, mas está medido para árvore, luz e selo, nunca para a palavra. O outro abriu o balanço das incorporadoras abertas. Este texto olha para a régua: quem a fabrica, o que ela mede e por que ela mudou quase 30% em seis meses. A hipótese que abriu a apuração era de que o setor cresce rápido demais para ser verdade. O achado é outro: o que se move não é a obra, é a definição.
Dois tamanhos para o mesmo ano, com seis meses de intervalo
Entre novembro de 2025 e maio de 2026, o Global Wellness Institute publicou dois tamanhos para o wellness real estate em 2024. O segundo é 29,6% maior que o primeiro. Nenhum tijolo foi assentado a mais no intervalo, e o release que traz o valor maior imprime outra definição de setor e refaz a série desde 2017.
| Valor | Ano-base | Onde saiu | Data | O que mudou |
|---|---|---|---|---|
| US$ 548,4 bilhões | 2024 | Relatório Build Well to Live Well: The Future | Junho de 2025 | Primeiro valor publicado para 2024, com projeção de US$ 1.114,0 bilhões em 2029 |
| US$ 548,4 bilhões | 2024 | Global Wellness Economy Monitor 2025 | Novembro de 2025 | Mesmo valor do relatório de junho, sem revisão entre as duas publicações. A revisão de 2022 e 2023 da Figura 3.2 é contra a edição de 2024 do Monitor |
| US$ 711 bilhões | 2024 | Release Wellness Real Estate Market | 12 de maio de 2026 | Alta de 29,6%, com outra definição de setor e a série refeita: 2019 sai de US$ 225,2 para US$ 246 bilhões e 2017, de US$ 148,5 para US$ 151 bilhões |
| US$ 876 bilhões | 2025 | Release Wellness Real Estate Market | 12 de maio de 2026 | Primeiro valor de 2025, com a taxa de 2019 a 2025 recalculada em 23,6% ao ano |
Circula um terceiro número, e ele não é estimativa. O título do release de 17 de junho de 2025 anuncia US$ 584 bilhões, e o corpo do próprio release o desmente: escreve US$ 548 bilhões em 2024, registra crescimento de 18% sobre 2023, e a tabela regional soma 548. O relatório que ele anuncia diz US$ 548,4 bilhões. Quem cita os 584 cita uma manchete.
As duas leituras convivem em documentos vivos. O Monitor 2025 registra crescimento de 19,5% ao ano entre 2019 e 2024, a maior taxa entre os onze setores que o instituto mede, e projeta US$ 1.114,0 bilhões em 2029. O release de maio de 2026 troca a régua inteira: 23,6% ao ano entre 2019 e 2025 e US$ 1,8 trilhão em 2030.
A casa adota o US$ 548,4 bilhões quando compara os onze setores entre si, porque é a única série internamente coerente, e registra na mesma frase que o instituto já publicou US$ 711 bilhões para o mesmo ano. Quem cita um dos números sem dizer qual edição usou publica uma escolha, não uma medida.
O que o número mede é canteiro de obra, não imóvel pronto
O apêndice de definições do Country Rankings 2026 do GWI, páginas 49 e 50, é literal: wellness real estate são despesas com a construção de propriedades residenciais e comerciais que incorporam elementos intencionais de bem-estar. É gasto de obra. Não é valor de mercado, não é estoque construído e não é preço de venda.
A diferença é decisiva e quase nunca aparece nas apresentações que citam o número. Um mercado de US$ 548,4 bilhões em 2024 não descreve o patrimônio existente, descreve o que se gastou naquele ano para levantar prédios. É fluxo anual, não avaliação de carteira.
Isso também explica o método. O Monitor 2025 credita a fonte na própria tabela: as estimativas são construídas sobre dados de produção da construção civil das Nações Unidas. O setor representa cerca de 3,3% da produção mundial de construção em 2024, produção que cresceu 3,1% de 2023 para 2024 enquanto o recorte de bem-estar cresceu 17,9%.
E aqui está o que a diferença de 29,6% esconde. O release de maio de 2026, que traz os US$ 711 bilhões e os US$ 876 bilhões, define o setor de outro jeito: ambientes construídos projetados, edificados e operados para sustentar a saúde holística de ocupantes, visitantes e comunidade. Não é despesa de construção. Quem cita os dois números cita dois objetos.
O tamanho do wellness real estate é estimativa do Global Wellness Institute construída sobre dados de produção da construção civil das Nações Unidas, e mede despesa de construção do ano. Não mede valor de estoque, preço de metro quadrado nem número de imóveis. O GWI declara que exclui do cálculo o investimento público em calçada, praça, parque e transporte, ainda que trate esses itens como parte do conceito.
Há uma ressalva ainda maior, no capítulo metodológico do Monitor 2025: o que a economia do bem-estar mede são bens e serviços comercializados como bem-estar no mercado consumidor, e não o bem-estar da população. É medida de rótulo comercial, declarada como tal por quem a produz.
Quem paga a régua está dentro do que a régua mede
O Monitor 2025 lista dezessete patrocinadores industriais nas páginas 121 a 126, sob o título de patrocinadores industriais de pesquisa. Dois deles são incorporadoras que o próprio relatório descreve como tal, a Aldar Properties e a Eywa by R Evolution. Um terceiro, a Sable Investments, é descrito como empresa de investimento que aplica em imóvel comercial e crédito hipotecário.
O setor apontado como o de crescimento mais rápido do relatório é, portanto, o setor de patrocinadores do relatório. Dizer isso não é acusar ninguém: o dado pode estar correto e a régua ainda assim ser paga por quem é medido. O GWI publica o piso do patrocínio e as contrapartidas em página aberta. O patrocínio de pesquisa começa em US$ 19.900, e dá nome e citação em todas as cópias do estudo, além de inclusão no release.
O caso mais direto é brasileiro. O relatório-país que abriu os onze setores do Brasil, divulgado em 9 de maio de 2024 com dados de 2022, existiu, nas palavras do próprio release, graças a um acordo renovado com a AG7, descrita ali como incorporadora brasileira de wellness real estate, cujo patrocínio deu aos pesquisadores os recursos para aprofundar os onze setores.
O desenho se repete no Country Rankings 2026, que abre dados setoriais de países específicos pela via de parcerias exclusivas de país, e nomeia dez parceiros de 2026. O Brasil teve onze setores abertos no ano em que uma incorporadora patrocinou o relatório, não figura entre os dez parceiros de 2026 e não tem detalhamento novo. A casa não obteve do GWI nem da AG7 informação sobre o estado do acordo, e não atribui a nenhuma das duas partes a decisão de não renová-lo.
O Brasil aparece em 45º lugar, e depois some da série
O único valor brasileiro de wellness real estate publicado pelo Global Wellness Institute é de 2022: US$ 60 milhões, 45º lugar no mundo, com crescimento de 14,9% ao ano entre 2020 e 2022. No mesmo release, beleza e cuidados pessoais do Brasil somam US$ 39 bilhões e o 5º lugar mundial. A distância é de mais de seiscentas vezes.
Para 2024 não há valor brasileiro deste setor. O Brasil não entra na tabela dos vinte maiores mercados do Monitor 2025, cujo vigésimo é o Vietnã, com US$ 2,13 bilhões. A concentração é extrema: os Estados Unidos respondem por 41% do mercado mundial, e oito países somam 85%.
A ordem de grandeza regional repete a instabilidade. América Latina e Caribe inteiros valem US$ 1,60 bilhão em 2024 pela Figura 3.2 do Monitor, ou 0,29% do mercado mundial, ainda que a região tenha a maior taxa do período, 24,0% ao ano entre 2019 e 2024. O release de maio de 2026 dá, para a mesma região e o mesmo ano, US$ 2,8 bilhões, quase o dobro.
O dado brasileiro que existe e ninguém publicou
O International WELL Building Institute mantém um diretório público de projetos, consultável por país. Em 18 de agosto de 2026 ele devolvia 165 registros com o país Brasil, correspondentes a 120 números de projeto distintos, dentro de um universo mundial de 47.286 registros. O Brasil é 0,35% do diretório. O México tem 1.506 registros, nove vezes mais.
A composição importa mais que o total. Dos 120 projetos brasileiros distintos, 21 exibem nível concedido, sendo 11 Platinum, 8 Gold e 2 Silver. Outros 8 são pré-certificados e 17 são WELL Health-Safety Rated, selo de protocolo operacional criado na pandemia, não certificação de projeto. Os 74 restantes não exibem status algum: são cadastros abertos.
Registro é abrir processo e pagar taxa. Certificação é alguém de fora dizer sim. No Brasil, a razão entre uma coisa e outra é de quase seis para um.
A geografia é concentrada e não é a que se esperaria. São Paulo tem 63 dos 120 projetos, Paraná 21, Santa Catarina 9 e Rio de Janeiro 8. Entre os 17 projetos residenciais, apenas quatro têm nível publicado. Os quatro ficam em Curitiba e são da mesma incorporadora, a Laguna, destinatária de uma proposta comercial da amano, e por isso o nome aparece com a ressalva declarada.
Há um número do próprio GWI que não fecha com esse. A Figura 3.6 do Monitor 2025 conta 4.552 projetos certificados por WELL e Fitwel no mundo ao fim de 2024, e coloca o Brasil em nono lugar, com 72 certificações. O diretório do WELL mostra hoje 21 projetos brasileiros com nível concedido. A diferença deve estar no Fitwel, cuja página do diretório declara que ali só aparecem os projetos que optaram por ser públicos. Os dois números são do mesmo objeto e não se reconciliam com fonte aberta.
O que o mercado brasileiro mede quando não mede bem-estar
Nem a Abrainc nem a CBIC medem wellness real estate, e dizer isso é obrigatório antes de usar qualquer número delas. O que as duas medem é o mercado de incorporação: lançamento, venda, entrega, distrato e oferta. Serve de contexto para saber em que ciclo o país está quando a promessa de bem-estar entra no folder.
Pelos Indicadores Abrainc/Fipe de abril de 2026, calculados pela Fipe com dados de 20 empresas associadas, os doze meses até abril somaram 194.604 unidades lançadas e 199.015 vendidas. A oferta era de 151.519 unidades, alta de 14,4% em um ano, ou 11,7 meses de consumo. No médio e alto padrão, a oferta caiu 6,0%, para 30.768 unidades, mas o estoque dura 13,6 meses.
Os Indicadores Imobiliários Nacionais da CBIC, apresentados em 27 de maio de 2026 com 221 cidades pesquisadas e execução da Brain Inteligência Estratégica, dão o primeiro trimestre de 2026 com 97.802 unidades lançadas, queda de 4,9% em um ano, e 110.722 vendidas, alta de 4,1%. A oferta final chegou a 350.891 unidades, alta de 8,2%, com escoamento de 9,6 meses. A apresentação não traz desenho amostral.
Sobre atributo de compra, o dado é da pesquisa Abrainc com a Brain, de junho de 2024: amostra probabilística aleatória simples, 1.050 questionários aplicados in loco em 13 cidades, coleta de 27 de abril a 15 de maio de 2024, 95% de confiança e margem de erro de 3,47%. Localização privilegiada aparece em 65% e segurança condominial em 64% entre os fatores que levam a considerar valor acima da média. O recorte de áreas de lazer que circula atribuído a ela, com 62%, não existe.
Do prêmio de preço este artigo não trata, porque a amano já tratou. A evidência inteira, com amostras e limites, está em bem-estar como argumento de preço.
O que sobrevive à troca de proprietário
A instabilidade do número não desmente o fenômeno. Prédios com luz, ar, água, árvore e distância a pé estão sendo construídos, e a demanda por eles é real. O que a instabilidade desmente é a autoridade da cifra: um agregado que muda quase 30% em seis meses não é base para modelo de viabilidade nem para plano de mídia.
Vale dizer o que este artigo não alcança. A apuração não conseguiu abrir a série do Fitwel. O diretório do WELL é cadastro voluntário, e 51 dos 120 projetos brasileiros aparecem sem nome, apenas como projeto privado. Nenhuma fonte pública brasileira mede este setor.
A pergunta prática que sobra para quem incorpora é a mesma de quem escreve a marca da incorporadora, e costuma ser respondida tarde demais: o empreendimento melhora a vida de quem mora ali, ou acrescentou uma sala de yoga ao folder?
Existe um teste, e ele é critério editorial da casa, não achado de fonte: o atributo sobrevive à mudança de proprietário? Árvore, luz, orientação solar, pé direito, calçada, distância a pé até um parque e qualidade do ar sobrevivem a qualquer troca de síndico, de administradora e de dono. Programação, aula, aplicativo, concierge e assinatura não sobrevivem: dependem de alguém continuar pagando.
É por isso que o número instável e o atributo durável contam a mesma história por lados opostos. A evidência de prêmio de preço, tratada em bem-estar como argumento de preço, aparece justamente nos atributos que ficam no terreno. Wellness real estate é uma promessa que só vira ativo quando está no concreto, e não no calendário de atividades.
o que é wellness real estate
É a categoria com que o Global Wellness Institute mede o gasto de construção de imóveis residenciais e comerciais que incorporam elementos de bem-estar no projeto, nos materiais, nas amenidades e na programação. O apêndice do Country Rankings 2026 é literal: são despesas de construção. Não é valor de estoque nem preço de venda.
quanto vale o mercado mundial de wellness real estate
Depende de qual publicação do Global Wellness Institute se lê. Para 2024, o instituto divulgou US$ 548,4 bilhões no relatório de junho de 2025 e no Monitor de novembro de 2025, e depois US$ 711 bilhões no release de 12 de maio de 2026, que imprime outra definição de setor. Para 2025, US$ 876 bilhões.
quantos projetos com certificação WELL existem no Brasil
O diretório público do International WELL Building Institute, consultado em 18 de agosto de 2026, devolve 165 registros brasileiros, 120 números de projeto distintos. Desses, 21 exibem nível de certificação concedido, sendo 11 Platinum, 8 Gold e 2 Silver. Os demais aparecem sem status publicado.
existe número de wellness real estate para o Brasil
Existe um só, e é de 2022. No release do Global Wellness Institute de 9 de maio de 2024, o Brasil aparece em 45º lugar, com US$ 60 milhões. No mesmo release, beleza e cuidados pessoais somam US$ 39 bilhões. Não há valor brasileiro publicado para 2024.
imóvel com atributo de bem-estar vale mais
Existe prêmio de preço medido, mas ele nunca foi medido para a palavra bem-estar, e sim para árvore de rua, luz natural, caminhabilidade e certificação emitida por terceiro. A amano tratou a evidência inteira, com amostras e ressalvas, no artigo bem-estar como argumento de preço.

Marcus Yabe
Trabalha no encontro entre estratégia, comunicação, negócios, conteúdo e relações. Foi CEO do LIDE Paraná, diretor executivo da Paraná Business e publisher da TOPVIEW.
fontes
- Global Wellness Institute. Global Wellness Economy Monitor 2025, novembro de 2025. Figura 1.6, capítulo 3 e Figuras 3.2, 3.5 e 3.6 ↗
- Global Wellness Institute. Build Well to Live Well: The Future, junho de 2025. Sumário executivo, capítulo 3 e Figura 3.1 ↗
- Global Wellness Institute. Country Rankings 2026, janeiro de 2026. Apêndice de definições, pp. 49 e 50, e Geography of Wellness Country Partners, pp. 57 a 59 ↗
- Global Wellness Institute. Wellness Real Estate Market Reaches $876 Billion, release de 12 de maio de 2026 ↗
- Global Wellness Institute. Wellness Real Estate Market Reached $584 Billion in 2024, release de 17 de junho de 2025 ↗
- Global Wellness Institute. Brazil's Wellness Economy Ranks First in Latin America, release de 9 de maio de 2024, com dados de 2022 ↗
- Global Wellness Institute. Research Sponsor, valor de entrada e contrapartidas ↗
- International WELL Building Institute. Projects Directory, consultado em 18 de agosto de 2026 ↗
- Fitwel. Project Directory, que declara que só aparecem no diretório os projetos que optaram por ser públicos ↗
- Abrainc e Fipe. Indicadores Abrainc/Fipe, principais resultados de abril de 2026, com dados de 20 empresas associadas ↗
- Abrainc e Brain Inteligência Estratégica. Pesquisa sobre tendências e comportamentos do consumidor de imóveis, junho de 2024, 1.050 questionários em 13 cidades, coleta de 27 de abril a 15 de maio de 2024, margem de erro de 3,47% ↗
- CBIC e Brain Inteligência Estratégica. Indicadores Imobiliários Nacionais, 1º trimestre de 2026, 221 cidades pesquisadas, apresentação de 27 de maio de 2026 ↗
- amano casa criativa. Bem-estar como argumento de preço ↗
O tema não termina aqui.
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