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os US$ 125 bilhões de bem-estar do Brasil são feitos de população, câmbio e patrocínio

O número brasileiro de bem-estar é um artefato de três coisas: população, câmbio e patrocínio.

por Marcus Yabe · publicado em · atualizado em · leitura de 10 minutos

Economia de bem-estar é um agregado estatístico que soma gasto de consumidor, receita de estabelecimentos, despesa de empregadores, construção imobiliária e despesa pública e privada em saúde preventiva, e não um setor da contabilidade nacional. O GWI estima em US$ 125,40 bilhões, em 2024, a economia brasileira formada por atividades associadas ao bem-estar, o 11º maior valor entre 145 países (GWI, Country Rankings 2026).

No gasto por habitante, o mesmo levantamento coloca o Brasil em 85º. As duas posições são verdadeiras e nenhuma se explica sozinha. Três coisas produzem esse número antes de qualquer comportamento de consumidor: população, câmbio e patrocínio. População explica o 11º lugar. Câmbio explica quase toda a diferença de crescimento contra o México. Patrocínio explica quantos setores brasileiros o instituto abre.

Não existe, na estatística brasileira, um setor chamado bem-estar. Não há CNAE, conta satélite nem pesquisa pública que meça esse universo. Há a construção metodológica de uma entidade setorial internacional, que reúne onze mercados sobrepostos. Isso não desqualifica o número. Torna obrigatório dizer como ele é fabricado antes de usá-lo.

O que o GWI soma quando diz economia de bem-estar

Bem-estar não é atividade econômica classificada. É um agregado que o Global Wellness Institute monta a partir de onze setores que se cruzam e que não somam ao total: a nota da Figura 1.6 do Monitor 2025 registra que os valores não fecham, por sobreposição entre os segmentos. A diferença é de US$ 152,8 bilhões.

A natureza do que é medido muda de segmento para segmento. No apêndice de definições do Country Rankings 2026, páginas 49 e 50, wellness real estate é despesa de construção de imóveis, spas e termas são receita de estabelecimentos, workplace wellness é despesa de empregadores, e saúde pública e prevenção vem da base de gasto em saúde da Organização Mundial da Saúde. Os três que não são compra de consumidor, imóvel, trabalho e saúde preventiva, somam US$ 1.277,6 bilhões, ou 18,9% do total mundial (Monitor 2025).

No mundo, o GWI estima a economia de bem-estar em US$ 6.763,6 bilhões em 2024, ou 6,12% do PIB mundial, com alta de 7,9% sobre 2023 e média de 6,2% ao ano entre 2019 e 2024 (Monitor 2025). A soma aritmética dos onze setores dá US$ 6.916,4 bilhões: a diferença de US$ 152,8 bilhões é a sobreposição declarada.

São dois documentos, e citar o errado produz erro de escopo. O Monitor 2025 traz os setores globais e ranking de países por setor, mas não ranking de país pelo agregado. O Country Rankings 2026 traz o agregado por país e não desagrega país por setor.

População, que explica o décimo primeiro lugar

O Brasil aparece em 11º entre 145 países no tamanho da economia de bem-estar em 2024 e em 85º no gasto por habitante, com US$ 592 no ano, segundo o GWI Country Rankings 2026. A média mundial de gasto por habitante é de US$ 831. O gasto brasileiro por pessoa equivale a 71% dessa média.

As duas posições saem do mesmo documento e do mesmo ano, mas não da mesma tabela: o tamanho vem da Figura 3.1 e o gasto por habitante, da Figura 3.5. Tamanho absoluto premia população, e o relatório diz isso ao listar as "very large countries by population size" do topo do agregado, com o Brasil entre elas.

O contraste com a renda não sustenta leitura de subconsumo. O PIB por habitante brasileiro, de US$ 10.214, ocupa a 81ª posição entre os 145 países, e o gasto de bem-estar por habitante, a 85ª. Quatro posições em 145 é pouco para virar diagnóstico. E na fatia do PIB o Brasil é 78º, à frente da própria posição de renda.

11º
Posição do Brasil entre 145 países no tamanho da economia de bem-estar em 2024, estimada em US$ 125,40 bilhões. No gasto por habitante, de US$ 592, o país é 85º.
GWI, Country Rankings 2026, janeiro de 2026
8,57%
Crescimento médio anual da economia brasileira de bem-estar em moeda local entre 2019 e 2024. O México cresce 8,65% ao ano na mesma régua.
GWI, Country Rankings 2026, janeiro de 2026
4
Setores brasileiros com valor de 2024 publicado pelo GWI. Em 2022, quando uma incorporadora patrocinou o relatório-país, eram onze.
GWI, Monitor 2025 e release de maio de 2024

Câmbio, que explica a série de seis anos

A série brasileira do Country Rankings 2026 vai de US$ 113,58 bilhões em 2019 a US$ 125,40 bilhões em 2024, com fundo de US$ 89,85 bilhões em 2020. São 2,0% ao ano em dólares e 8,57% ao ano em moeda local, no mesmo quinquênio. A distância entre as duas taxas é o real.

AnoEconomia de bem-estar do Brasil (US$ bilhões)Variação sobre o ano anterior
2019113,58
202089,8520,9% negativos
202198,339,4%
2022111,5113,4%
2023122,259,6%
2024125,402,6%

Fonte da tabela: GWI, Country Rankings 2026. Os valores são os do instituto; as variações são calculadas sobre a mesma série.

A leitura da série é menos dramática do que a curva sugere. O tombo de 2020 foi de 20,9% em dólares. Em 2023 o país já volta a superar o patamar de 2019, com US$ 122,25 bilhões contra US$ 113,58 bilhões, e em 2024 supera em 10,4%. Em cinco anos, pouco mais de um décimo.

Parte disso é moeda, e a ressalva é do próprio instituto. A Figura 3.3 do Country Rankings 2026 põe o Brasil entre os mercados que crescem mais rápido em moeda local do que em dólares. Em reais, o agregado brasileiro cresce 8,57% ao ano, taxa que não é comparável com os 6,2% do mundo em dólares.

O que não depende de câmbio é a participação no PIB, porque numerador e denominador ficam na mesma moeda. E ela caiu: 6,06% em 2019 contra 5,78% em 2024, o que põe o Brasil na 78ª posição e abaixo dos 6,12% do PIB mundial. O relatório cita o Brasil entre os mercados que encolheram nessa medida.

O dado principal deste artigo vem do GWI Country Rankings 2026, publicado pelo Global Wellness Institute com série de 2019 a 2024 e medido em dólares correntes. Ele mistura gasto de consumidor, receita de empresas, investimento em construção e despesa pública em saúde, e não é produção, emprego ou valor adicionado. Não é estatística oficial brasileira, não passa por auditoria pública e não desagrega o país por estado, município ou faixa de renda.

O México cresce quase igual quando a moeda sai da conta

O México é o 15º mercado do mundo, com US$ 98,14 bilhões em 2024 e alta de 5,1% sobre 2023, segundo o GWI Country Rankings 2026. Medidos em dólares, ele cresce 9,8% ao ano no quinquênio e o Brasil, 2,0%. Medidos em moeda local, 8,65% e 8,57%. A diferença é quase toda câmbio.

A Figura 3.3 separa as duas coisas. O real caiu 36,6% contra o dólar entre 2019 e 2024 e o peso mexicano subiu 5,0%. O GWI põe o México entre as economias de bem-estar que crescem mais devagar em moeda local do que em dólares, por apreciação cambial, e o Brasil entre as que crescem mais rápido.

O que sobra, tirado o câmbio, é o sentido da fatia do PIB. A do México subiu de 4,72% em 2019 para 5,30% em 2024. A do Brasil caiu de 6,06% para 5,78%. As trajetórias apontam para lados opostos, e o Brasil segue à frente em nível: 78º contra 91º do México.

O relatório é literal sobre a concentração do setor: "all but two (Brazil, Mexico) of the 25 largest wellness markets are located in those regions".

Patrocínio, que explica quantos setores o Brasil tem abertos

Em maio de 2024 o GWI publicou um relatório-país brasileiro com os onze setores abertos, dados de 2022 e US$ 96 bilhões no total. O documento existiu, segundo o próprio release, graças a uma parceria com a incorporadora de imóveis de bem-estar AG7, que bancou a pesquisa. Hoje o Brasil não está na lista de parceiros.

O mecanismo está escrito no Country Rankings 2026. Nas páginas 57 a 59, sob o título "Geography of Wellness Country Partners", o instituto descreve o que a parceria compra: "Through the support of an exclusive country partnership, wellness sector data for individual countries is made available to the public for the first time". Dado setorial de país é produto de parceria exclusiva.

A lista de 2026 tem dez nomes, entre eles Aldar, Anytime Fitness, BDMS Wellness Clinic, Italcares Fedeterme, NASM e o Singapore Tourism Board. O Brasil não está nela. O release de 2024 dizia que o patrocínio da AG7 dava aos pesquisadores "the resources required to take a deep dive into all eleven sectors". Aquele relatório saiu do ar.

O que o Brasil tinha em 2022, com patrocinador, e não tem em 2024, sem ele: personal care & beauty em 5º com US$ 39 bilhões, healthy eating em 6º com US$ 31 bilhões, saúde pública em 13º com US$ 7 bilhões, wellness tourism em 30º com US$ 3 bilhões, medicina tradicional em 32º com US$ 1 bilhão, spas em 29º com US$ 680 milhões e wellness real estate em 45º com US$ 60 milhões (GWI, release de 9 de maio de 2024).

Aquele relatório segue indexado e circulando, com ano de referência 2022, e não 2024.

Os quatro setores abertos, e dois crescem acima do mundo

Sem parceria de país, o que resta do Brasil no Monitor 2025 são quatro aparições em tabelas top 20 por setor: physical activity, mental wellness, thermal e mineral springs e workplace wellness. Juntos, esses quatro cobrem uma fração pequena do agregado de US$ 125,40 bilhões, e o instituto não publica os outros sete.

  1. Physical activity: US$ 14,0 bilhões, 14º, alta de 8,0% em 2024 e 0,7% ao ano de 2019 a 2024, contra 4,6% ao ano no mundo.
  2. Mental wellness: US$ 4,90 bilhões, 10º, alta de 12,7% em 2024 e 9,6% ao ano no quinquênio, acima dos 6,2% do agregado mundial.
  3. Thermal e mineral springs: US$ 1,30 bilhão, 8º, alta de 5,1% em 2024 e 8,0% ao ano no quinquênio, contra 1,7% ao ano no mundo.
  4. Workplace wellness: US$ 0,51 bilhão, 15º, alta de 3,4% em 2024 e 2,1% ao ano, num setor que encolheu 1,5% no mundo em 2024.

Fonte da lista: GWI, Monitor 2025, tabelas top 20 por setor. Dois dos quatro desmentem a leitura de fraqueza generalizada: mental wellness cresce 9,6% ao ano no Brasil e termas, 8,0%, ambos acima dos 6,2% ao ano do agregado mundial. O que puxa a média para baixo é physical activity, o maior dos quatro.

Do lado do hábito, a estatística pública dá contexto, sem relação de causa estabelecida. Na Pesquisa Nacional de Saúde de 2019, o IBGE registrou 30,1% dos adultos no nível recomendado de atividade física no lazer, 34,2% dos homens e 26,4% das mulheres. O indicador subiu de 22,7% em 2013.

Fora do GWI, o Brasil mede bem duas fatias vizinhas. A ANS registra 53.145.666 beneficiários de planos de assistência médica e 36.711.046 de planos exclusivamente odontológicos, na data-base de junho de 2026. A ABIHPEC reproduz ranking da Euromonitor que põe o país em terceiro no mercado mundial de beleza e cuidados pessoais, US$ 37,4 bilhões em 2024, com exportações de US$ 1,061 bilhão em 2025 contra US$ 884,0 milhões em 2024, alta de 20,1% calculada sobre a série da associação.

Nada disso se encaixa dentro dos US$ 125,40 bilhões. Beneficiário de plano é contagem de vínculo, não desembolso. E o ranking da Euromonitor que a ABIHPEC reproduz vem da mesma base comercial de onde o GWI tira personal care & beauty, segundo a metodologia do Country Rankings 2026. Não são medições independentes.

O agregado também é nacional e não desce a estado nem a município. Quem precisa localizar demanda depende de dado municipal, como em cidades médias e o novo mapa da riqueza e o consumidor de luxo fora do eixo: 48,83% dos bens e direitos declarados no imposto de renda do ano-calendário 2024 pertenciam a quem não mora em capital, segundo a Receita Federal.

As ressalvas honestas deste número

Cinco limites precisam ficar explícitos antes de qualquer uso. O denominador de 145 países é amostra filtrada. O gasto por habitante dos primeiros colocados é inflado por turismo receptivo. A queda da fatia do PIB é menor que a revisão da própria série. O valor é estimativa de entidade setorial. E gasto não é resultado.

O denominador não é o mundo. A nota das Figuras 3.7, 3.8 e 3.9 informa que os números globais do GWI cobrem 218 países, mas que essas tabelas excluem a maior parte dos países com menos de 1 milhão de habitantes, com PIB por habitante abaixo de US$ 1.000, e os que atravessam conflito. Os 73 excluídos são de renda baixa: a 85ª posição é pior do que seria no universo completo.

O topo do gasto por habitante não descreve consumo local. O relatório avisa, na página 30, que em Aruba, Seychelles, Bahamas e Maldivas de 48% a 70% do gasto de bem-estar vem de turistas estrangeiros, e que o valor per capita alto reflete turismo, não desembolso do morador.

A perda de intensidade não suporta leitura fina. São 0,28 ponto em cinco anos, menos do que a revisão que o próprio GWI aplicou à série: entre maio de 2024 e o Country Rankings 2026, a estimativa brasileira de 2022 subiu 16,2%. O sentido da queda é confirmado pelo relatório; a magnitude, não.

A quarta é sobre quem paga a régua. O Monitor 2025 lista 17 patrocinadores industriais nas páginas 121 a 126, sob um título que agradece aos patrocinadores da indústria por tornarem o relatório possível, e o GWI publica a tabela de preço: o patrocínio começa em US$ 19.900 e dá nome e citação em todas as cópias do estudo. Isso não invalida a medição. Obriga a dizer de onde ela vem.

A quinta é a mais incômoda. Gasto não é resultado. Um país pode subir no ranking por encarecimento de serviço, sem que ninguém durma melhor ou adoeça menos. E parte do agregado nem é gasto de consumidor: os US$ 592 por habitante são um quociente, não um recibo.

O número brasileiro de bem-estar é um artefato de três coisas: população, câmbio e patrocínio. Quem for usar os US$ 125,40 bilhões em plano de negócio precisa saber das três, porque é com elas que o número foi feito.

perguntas frequentes

o que significa dizer que o Brasil é o 11º mercado de bem-estar do mundo

Significa que o GWI estima em US$ 125,40 bilhões, em 2024, a economia brasileira formada por atividades associadas ao bem-estar, o 11º maior valor entre 145 países no Country Rankings 2026. É posição de tamanho absoluto, puxada por população. No gasto por habitante, o mesmo documento coloca o país em 85º.

o Brasil cresce menos que o México em bem-estar

Em dólares, sim: 2,0% ao ano contra 9,8% entre 2019 e 2024, segundo o GWI Country Rankings 2026. Em moeda local, quase igual: 8,57% do Brasil contra 8,65% do México. A diferença é câmbio, porque o real caiu 36,6% no período e o peso mexicano subiu 5,0%.

por que o GWI publica tão poucos setores do Brasil

Porque dado setorial por país depende de parceria paga. O Country Rankings 2026 informa que é a parceria exclusiva de país que torna público o dado setorial, e o Brasil não está entre os dez parceiros de 2026. Em 2022, com patrocínio de uma incorporadora, o país teve os onze setores abertos.

existe um setor chamado bem-estar na estatística oficial brasileira

Não. Bem-estar não tem CNAE, conta satélite nem pesquisa oficial própria. O que existe é um agregado montado pelo GWI a partir de onze setores que se sobrepõem e cujos valores o instituto declara não somarem ao total. No Brasil, a ANS mede saúde suplementar e a ABIHPEC mede beleza, com perímetros distintos.

quanto o brasileiro gasta por ano com bem-estar

O GWI estima US$ 592 por habitante em 2024, contra média mundial de US$ 831, no Country Rankings 2026. São 71% da média mundial e a 85ª posição entre 145 países. O valor é um quociente do agregado pela população, e parte dele não é gasto de consumidor, e sim construção, receita de empresas e gasto público.

Retrato de Marcus Yabe
sobre o autor

Marcus Yabe

sócio-fundador · estratégia e criatividade

Trabalha no encontro entre estratégia, comunicação, negócios, conteúdo e relações. Foi CEO do LIDE Paraná, diretor executivo da Paraná Business e publisher da TOPVIEW.

fontes
  1. Global Wellness Institute, Country Rankings 2026, janeiro de 2026, com dados de 2019 a 2024
  2. Global Wellness Institute, Global Wellness Economy Monitor 2025
  3. Global Wellness Institute, release "Brazil's Wellness Economy Ranks #1 in Latin America-Caribbean Region", 9 de maio de 2024, com dados de 2022
  4. Global Wellness Institute, tabela de patrocínio de pesquisa
  5. ANS, dados gerais da saúde suplementar, data-base junho de 2026
  6. ABIHPEC, Panorama do Setor de Beleza e Cuidados Pessoais, edição de janeiro de 2026
  7. IBGE, Pesquisa Nacional de Saúde 2019
  8. Receita Federal, Grandes Números IRPF, ano-calendário 2024, exercício 2025
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