Horizonte largo com dois aglomerados de telhados à direita e muitos dispersos
← artigos
mercados

cidades médias e o novo mapa da riqueza

Quase metade do patrimônio declarado do país está fora das capitais.

por Marcus Yabe · publicado em · atualizado em · leitura de 9 minutos

Cidade média é o centro urbano que organiza uma região sem ser capital de estado. O IBGE classifica 97 municípios como capital regional e 352 como centro sub-regional: são 449 cidades com função de comando territorial (IBGE, hierarquia urbana do Quadro Geográfico de Referência, 2024). Fora das 27 capitais estão 48,83% de todo o patrimônio declarado ao imposto de renda no ano-calendário 2024 (Receita Federal, Grandes Números do IRPF 2025, tabelas 11 e 12).

A frase que circula em apresentação comercial diz que a riqueza brasileira se interiorizou. É útil e imprecisa ao mesmo tempo. Útil porque aponta para um fato verificável: existe patrimônio grande em municípios que quase nenhuma marca de alto padrão visitou. Imprecisa porque sugere um movimento em curso, e o que o dado mostra é um estoque já formado que praticamente não se desloca de um ano para o outro.

O problema começa no vocabulário. "Interior" é uma categoria que junta Ribeirão Preto, com 728.400 habitantes, e Sorriso, com 120.985 (IBGE, estimativas de população, 2024). Junta uma economia de serviços consolidada há décadas e um município que ficou rico em vinte anos de soja. São dois públicos, dois ciclos e dois prazos de decisão.

O segundo problema é o indicador. Quem procura cliente de alto padrão abre a tabela de PIB municipal, e a tabela de PIB municipal mede outra coisa.

O que conta como cidade média, e por que a definição importa

Este artigo usa a hierarquia urbana do IBGE, não uma faixa de população. Capital regional e centro sub-regional somam 449 municípios que concentram gestão de território sem serem metrópole. As cidades citadas aqui vão de 116.662 a 754.954 habitantes, pelas estimativas do IBGE para 2024. A faixa está declarada porque ela muda a conclusão.

A hierarquia do IBGE tem cinco níveis: 15 metrópoles, 97 capitais regionais, 352 centros sub-regionais, 398 centros de zona e 4.037 centros locais. A classificação vem da pesquisa Regiões de Influência das Cidades, de recorte decenal, e mede fluxo de gestão e de serviços, não tamanho. É por isso que ela é mais útil do que a faixa populacional: uma cidade de 120 mil habitantes que concentra revenda de máquinas, escritório de agronomia, hospital regional e aeroporto tem comportamento de consumo diferente de uma cidade de 120 mil habitantes dormitório.

Quando alguém escreve "cidades médias" sem dizer o critério, o número seguinte vale pouco. Faixas de 100 mil a 500 mil habitantes, de 50 mil a 300 mil e de 100 mil a 1 milhão circulam simultaneamente, e cada uma produz um total diferente de cidades e de patrimônio. Declarar o recorte é a parte barata do trabalho.

Por que o PIB municipal engana quem procura cliente

PIB municipal mede produção dentro do território, não renda de quem mora nele. Uma usina, uma planta industrial ou um campo de petróleo eleva o indicador sem elevar o poder de compra local. Em 2023, Saquarema, no Rio de Janeiro, teve o maior PIB por habitante do país, R$ 722,4 mil, resultado de produção de petróleo, não de riqueza doméstica.

O caso mais didático é Sorriso, no Mato Grosso. O município teve PIB por habitante de R$ 124.271 em 2023, contra R$ 93.156 da cidade de São Paulo. Pelo indicador, Sorriso é 33% mais rica que a capital paulista. No mesmo ano, o salário médio mensal dos trabalhadores formais de Sorriso foi de 2,2 salários mínimos, contra 4,1 em São Paulo. Os dois dados são do IBGE, o primeiro do Produto Interno Bruto dos Municípios, o segundo do Cadastro Central de Empresas.

Os dois números são verdadeiros e medem coisas distintas. Sorriso produz muito valor por habitante porque tem lavoura de escala e pouca gente. Esse valor é apropriado por proprietários de terra e por sócios de empresas, não distribuído em folha de pagamento. Para quem vende automóvel premium, isso não é um problema. Para quem calcula tamanho de mercado a partir de PIB por habitante, é um erro de projeção inteiro.

48,83%
Parcela dos R$ 19,4 trilhões em bens e direitos declarados ao imposto de renda que está fora das 27 capitais estaduais. Fora delas moram 68,06% dos declarantes.
Receita Federal, Grandes Números do IRPF 2025, tabelas 11 e 12, ano-calendário 2024
R$ 124,3 mil
PIB por habitante de Sorriso, no Mato Grosso, em 2023. O da cidade de São Paulo foi de R$ 93,2 mil.
IBGE, Produto Interno Bruto dos Municípios, 2023
2,2 SM
Salário médio mensal formal em Sorriso, em salários mínimos, no mesmo ano. Em São Paulo foi de 4,1.
IBGE, Cadastro Central de Empresas, 2023

Onde o patrimônio está, segundo a própria declaração de imposto

A base municipal mais confiável sobre patrimônio no Brasil é a tabela de declarações do IRPF por município de residência. No ano-calendário 2024 ela registra R$ 19,35 trilhões em bens e direitos declarados por 41,6 milhões de contribuintes. As 27 capitais respondem por 51,36% desse patrimônio com 31,97% dos declarantes. O resto está distribuído por outras 5.544 localidades.

Convertido em média por declarante, o quadro fica menos romântico e mais operacional: R$ 746.669 nas capitais contra R$ 334.385 fora delas. A capital ainda concentra 2,23 vezes mais patrimônio por pessoa que declara. O que muda o jogo é a cauda. Entre municípios com mais de 20 mil declarantes, Luís Eduardo Magalhães, na Bahia, registrou R$ 822.909 por declarante, e Rio Verde, em Goiás, R$ 766.286. Ambos acima da cidade do Rio de Janeiro, com R$ 740.175.

Há um indicador ainda mais direto para quem vende bem de alto valor: lucros e dividendos isentos declarados por contribuinte. Sorriso registrou R$ 60.190 por declarante no ano-calendário 2024, acima de São Paulo, com R$ 46.995. Luís Eduardo Magalhães ficou em R$ 50.509. É renda de sócio, não de assalariado, e é ela que sustenta compra de ticket alto.

A dispersão dentro do próprio grupo é o que mais surpreende. Chapecó, em Santa Catarina, subiu 30,7% em patrimônio declarado por contribuinte entre os anos-calendário 2023 e 2024, e Rio Verde subiu 50,8%. No mesmo período, Sinop, no Mato Grosso, subiu 3,6%, e Ribeirão Preto, 7,8%. Praças vizinhas, ciclos opostos. Tratar o interior como um mercado único custa caro por esse motivo.

MunicípioPopulação (2024)PIB por habitante (2023)Salário médio formal (2023)Bens e direitos por declarante (2024)
Sorriso (MT)120.985R$ 124.2712,2 SMR$ 657.584
Luís Eduardo Magalhães (BA)116.662R$ 107.1182,2 SMR$ 822.909
Rio Verde (GO)238.025R$ 98.8502,3 SMR$ 766.286
Cascavel (PR)364.104R$ 55.1762,5 SMR$ 735.691
Ribeirão Preto (SP)728.400R$ 74.8692,7 SMR$ 675.716
São Paulo (SP)11.895.578R$ 93.1564,1 SMR$ 1.072.008

Fontes da tabela: IBGE, estimativas de população 2024; IBGE, Produto Interno Bruto dos Municípios 2023; IBGE, Cadastro Central de Empresas 2023; Receita Federal, Grandes Números do IRPF 2025, ano-calendário 2024.

O motor é o agronegócio, e agronegócio tem ciclo

O patrimônio dessas praças tem uma origem identificável. O PIB do agronegócio brasileiro cresceu 12,20% em 2025 e alcançou R$ 3,20 trilhões, o equivalente a 25,13% da economia nacional, contra 22,9% em 2024, segundo Cepea/Esalq-USP e CNA. O ramo pecuário cresceu 32,55% no ano, o agrícola 3,40%.

O detalhe que quase ninguém cita está no mesmo levantamento: no quarto trimestre de 2025 o agronegócio recuou 1,11% em relação ao terceiro, num movimento que o Cepea descreve como enfraquecimento gradual do ciclo de alta de preços. Renda de commodity é volátil por construção. A decisão de abrir loja, showroom ou operação de relacionamento numa praça agrícola precisa sobreviver a dois anos ruins seguidos, não apenas a um ano recorde.

O report o retorno ao campo, da amano, documentou a outra ponta desse mesmo movimento: entre 2017 e 2022, São Paulo perdeu 825 mil moradores e recebeu 736 mil, primeiro saldo migratório negativo da série do Censo. Sai gente, sai patrimônio e sai demanda por serviço qualificado. A conclusão central daquele report continua valendo aqui: o território existe, o capital existe, e o nome ainda não foi dado.

O Centro-Oeste responde por R$ 449,8 bilhões dos R$ 8,5 trilhões aplicados por pessoas físicas no país em dezembro de 2025, com alta de 13,4% em doze meses. O Sudeste responde por R$ 5,74 trilhões, com alta de 16,9%. Fonte: Anbima.

O número que não sobrevive à checagem

A tese forte diz que a riqueza está migrando das capitais para o interior agora. O dado sustenta o estoque, não sustenta o "agora". Quase metade do patrimônio declarado está fora das capitais, mas o patrimônio médio por declarante ainda é 2,23 vezes maior dentro delas e a participação das capitais no PIB nacional voltou a crescer.

Há três outros indicadores que puxam na direção contrária. O IBGE registrou que a participação das capitais no PIB nacional subiu de 27,5% em 2022 para 28,3% em 2023, o que o instituto descreve como desaceleração do processo de desconcentração. Na Anbima, o Sudeste foi a região que mais cresceu em estoque investido por pessoa física em 2025, com 16,9%, à frente do Centro-Oeste, com 13,4%. E o Sul, região das cidades médias mais consolidadas do país, cresceu 10,7%, o menor avanço entre as cinco regiões.

Há ainda um problema de método que o mercado ignora. Média municipal de patrimônio é muito sensível a poucas declarações grandes. Magé, no Rio de Janeiro, aparece com R$ 1,4 milhão de bens e direitos por declarante e apenas R$ 2.342 de dividendos isentos por declarante, um perfil incompatível com riqueza pessoal difusa. Cidade média é base pequena, e base pequena oscila com meia dúzia de declarações.

As ressalvas honestas desta tese

Três limites precisam ficar explícitos antes de qualquer decisão de investimento. O dado de bens e direitos não mede riqueza real, o dado municipal não identifica pessoas, e o mercado imobiliário de alto padrão fora das capitais ainda não apareceu em série pública consistente.

Primeiro limite: no IRPF, bens e direitos são declarados pelo custo de aquisição, sem atualização, conforme as próprias Perguntas e Respostas da Receita Federal. Isso significa que o estoque declarado reflete o que foi comprado, não o que vale hoje. Para o argumento deste artigo isso é bom, porque isola aquisição de valorização. Para quem quiser usar o número como medida de riqueza, é errado.

Segundo limite: o report anatomia do luxo brasileiro, da amano, registra que não existe base pública brasileira de patrimônio de alta renda por município, por restrição de privacidade, e que todo número municipal de milionários que circula é estimativa por triangulação. A tabela do IRPF não resolve isso. Ela dá o agregado declarado, não a contagem de indivíduos por faixa.

Terceiro limite: no acumulado de doze meses até janeiro de 2026, o segmento de médio e alto padrão lançou 11,1% mais unidades e 27% mais valor real, mas vendeu 17,6% menos unidades, segundo os Indicadores Abrainc-Fipe. Oferta de alto padrão está crescendo mais rápido que a absorção. Quem for para a praça nova encontra estoque, não fila.

O que muda para quem constrói marca de alto padrão

A leitura correta não é "mude para o interior". É "pare de tratar o país fora das capitais como um bloco". Quase metade do patrimônio declarado do Brasil está lá, distribuído por milhares de municípios com perfis de renda incompatíveis entre si, e o custo de errar a praça é o mesmo custo de abrir uma operação inteira.

O ranking de demanda por imóvel de alto padrão que o report anatomia do luxo brasileiro cita, com Brasília, São Paulo, Goiânia, Curitiba e Rio de Janeiro nas cinco primeiras posições, já diz parte disso: o eixo se ampliou antes de se interiorizar. Goiânia e Curitiba são a ponte entre capital e praça agrícola, não o destino final. É onde o arquiteto que especifica para Rio Verde tem escritório, e onde o proprietário de terra de Sorriso mantém apartamento.

Na prática, três movimentos são mais defensáveis que abrir loja. Escolher a praça pelo dado de dividendos declarados e não pelo PIB. Chegar pelo especificador, arquiteto e escritório regional, antes de chegar pelo ponto de venda. E aceitar que a relação nessas cidades se constrói em prazo de safra, não em prazo de campanha.

Há um custo silencioso em ignorar isso. Quem chega a uma praça agrícola com o mesmo repertório que usa em capital costuma ser lido como visitante, e visitante não recebe indicação. O patrimônio dessas cidades circula em rede fechada, entre poucas famílias que se conhecem, e a porta de entrada é quase sempre alguém que já está dentro.

A riqueza brasileira não se mudou para o interior. Ela sempre esteve parcialmente lá, e agora está medida.

perguntas frequentes

o que é considerado uma cidade média no Brasil

Não existe definição legal única. O IBGE classifica as cidades por hierarquia urbana: 15 metrópoles, 97 capitais regionais, 352 centros sub-regionais, 398 centros de zona e 4.037 centros locais. Capital regional e centro sub-regional somam 449 cidades que organizam uma região sem serem metrópole. É o critério mais defensável hoje.

a riqueza brasileira realmente saiu das capitais

Parcialmente. No ano-calendário 2024, 48,83% dos bens e direitos declarados ao imposto de renda estavam fora das 27 capitais, segundo a Receita Federal. Mas o patrimônio médio por declarante nas capitais ainda é 2,23 vezes o de fora delas, e a participação das capitais no PIB nacional voltou a subir no dado mais recente.

por que o PIB municipal não serve para achar cliente de alto padrão

Porque PIB mede produção no território, não renda de quem mora nele. Sorriso, no Mato Grosso, teve PIB por habitante de R$ 124.271 em 2023, acima da capital paulista, e salário médio formal de 2,2 salários mínimos, contra 4,1 em São Paulo. Ambos os dados são do IBGE.

quais cidades do interior concentram mais patrimônio declarado por pessoa

Entre municípios com mais de 20 mil declarantes, Luís Eduardo Magalhães, na Bahia, registrou R$ 822.909 de bens e direitos por declarante no ano-calendário 2024, e Rio Verde, em Goiás, R$ 766.286. São valores acima da cidade do Rio de Janeiro, que ficou em R$ 740.175. Fonte: Receita Federal.

qual o risco de apostar em cidades médias movidas pelo agronegócio

O ciclo. O PIB do agronegócio cresceu 12,20% em 2025 e chegou a 25,13% da economia brasileira, segundo Cepea e CNA, mas o próprio levantamento registra queda de 1,11% no quarto trimestre contra o terceiro. Renda de commodity sobe e desce rápido. Estrutura de marca não.

Retrato de Marcus Yabe
sobre o autor

Marcus Yabe

sócio-fundador · estratégia e criatividade

Trabalha no encontro entre estratégia, comunicação, negócios, conteúdo e relações. Foi CEO do LIDE Paraná, diretor executivo da Paraná Business e publisher da TOPVIEW.

fontes
  1. IBGE. Produto Interno Bruto dos Municípios 2023, 2025.
  2. IBGE. Quadro Geográfico de Referência para a Produção, Análise e Disseminação de Estatísticas: hierarquia urbana, 2024.
  3. Receita Federal. Grandes Números do IRPF 2025, ano-calendário 2024: tabelas, 2025.
  4. Cepea/Esalq-USP e CNA. PIB do Agronegócio Brasileiro: quarto trimestre de 2025, 2026.
  5. Anbima. Investimento dos brasileiros cresce 15,5% e atinge a marca de R$ 8,5 trilhões em 2025, 2026.
  6. Abrainc e Fipe. Indicadores Abrainc-Fipe, edição de março de 2026, 2026.
  7. amano casa criativa. o retorno ao campo, 2026.
  8. amano casa criativa. anatomia do luxo brasileiro, 2026.
continue

O tema não termina aqui.

report · o retorno ao campo

O deslocamento do valor para fora das capitais e o que ele muda no atendimento.

pilar do tema

o consumidor de luxo fora do eixo

O mesmo território visto pela pessoa: quem é esse comprador e por que ele compra viajando.

artigo

report · anatomia do luxo brasileiro

Quem é o comprador brasileiro de alto padrão e como ele decide, camada por camada.

report
conhecer a frente OFÍCIO