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Planta de complexo comercial vista de cima, com três figuras caminhando em faixa dourada no corredor central
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a academia virou âncora de empreendimento

A maior rede de academias do país publicou onde instala as próprias unidades, e sete em cada dez novas foram para dentro de complexo comercial.

por Marcus Yabe · publicado em · atualizado em · leitura de 9 minutos

Academia como âncora de empreendimento é a decisão de instalar a operação de fitness dentro de um complexo comercial já construído, em vez de tratá-la como destino isolado. Não é leitura de tendência. Está declarada em percentual, no resultado de uma companhia aberta: a Smart Fit informa que 69% das aberturas de 2025 ficaram em shoppings, centros comerciais, hipermercados e supermercados, e que 68% da rede estava nesses formatos ao final do quarto trimestre de 2025.

A frase de que a academia virou a nova âncora do varejo é comum na leitura de mercado e não tem número publicado atrás dela. O que existe agora é outra coisa: uma empresa listada publicou, em documento de relações com investidores, onde escolheu colocar as próprias unidades.

Isso não prova que a academia melhora o resultado do empreendimento que a recebe. Prova onde ela decidiu se instalar. As duas afirmações parecem próximas e são de naturezas diferentes: a primeira é um efeito, a segunda é uma decisão. Este texto separa as duas do começo ao fim.

O que este artigo mede, e o que ele deixa para o próximo

Este artigo trata de onde a Smart Fit, maior rede de academias do país em número de unidades, instala suas academias, e do que isso sugere sobre a função do fitness dentro de um complexo comercial. A economia da companhia, receita, resultado, tamanho de base e divisão entre unidades próprias e franquias, fica para o texto seguinte da série.

A separação existe porque os dois recortes usam evidências diferentes. Este texto não mede o mercado brasileiro de academias e não usa uma companhia como sinônimo do setor. Usa uma companhia como o único emissor brasileiro que publica, com responsabilidade legal sobre o que escreve, a composição imobiliária da própria rede.

O que a companhia declarou sobre o próprio perfil imobiliário

A Smart Fit escreve, no resultado de 2025 divulgado em 12 de março de 2026, que as novas unidades localizadas em shoppings, centros comerciais, hipermercados e supermercados representaram 69% das aberturas em 2025, e que, ao final do quarto trimestre de 2025, 68% da rede estava estabelecida nesses formatos de complexos comerciais.

As categorias importam e precisam ser reproduzidas como estão. São quatro: shoppings, centros comerciais, hipermercados e supermercados. O documento não usa a expressão strip mall. Traduzir a lista para um termo estrangeiro que a companhia não usou é acrescentar informação que ninguém apurou.

A companhia dá o motivo na mesma frase em que publica os dois percentuais. Escreve que o movimento consolida sua presença em clusters de alta conveniência, alavancada por parcerias de longo prazo no setor de real estate que asseguram acesso preferencial a ativos exclusivos e de alto valor comercial. A razão publicada é de oferta de imóvel, acesso a ponto por contrato, e não de leitura de fluxo. Ela precisa aparecer antes de qualquer interpretação de mercado, porque concorre com elas.

Há uma segunda limitação. A companhia não rotula o recorte geográfico dessas frases. Não diz se os 69% e os 68% se referem ao Brasil ou ao consolidado de 16 países. O número entra aqui sem qualificador de território porque foi assim que ele foi publicado, e essa ausência precisa aparecer junto com a cifra.

O tamanho do parque dá a escala da decisão. A companhia encerrou 31 de dezembro de 2025 com 2.084 academias em 16 países, tendo adicionado 341 academias no ano. O Brasil respondia por 984 unidades. Uma escolha de perfil imobiliário aplicada sobre 341 adições líquidas em um único exercício não é ajuste de portfólio. É política de expansão.

69%
das aberturas de 2025 da Smart Fit ficaram em shoppings, centros comerciais, hipermercados e supermercados. A companhia não rotula o recorte geográfico da frase.
Smart Fit, resultados de 2025, divulgados em março de 2026
161
academias foram adicionadas no Brasil em 2025, segundo a companhia, 47% das 341 adições líquidas nos 16 países em que opera.
Smart Fit, resultados de 2025, divulgados em março de 2026
10
shopping centers foram inaugurados no Brasil em 2025, somando 143.749 metros quadrados de área bruta locável nova.
Abrasce, painel de Inaugurações, consultado em agosto de 2026

Por que a expansão acontece dentro do estoque que já existe

O parque de shopping centers brasileiro cresce devagar em número. O painel da Abrasce registra 658 empreendimentos, 18,3 milhões de metros quadrados de área bruta locável e 124.791 lojas. As inaugurações anuais ficaram entre cinco e onze empreendimentos em sete anos. Quem quer expandir rápido expande dentro do que já foi construído.

A série da associação mostra estoque estável, com área nova que raramente passa de duzentos mil metros quadrados por ano.

anoshopping centers inaugurados no Brasilárea bruta locável nova, em m²
201911205.325
20207123.336
20215111.286
20228131.125
2023584.983
20249181.917
202510143.749

Em 2025 o Brasil ganhou 10 shopping centers, segundo a Abrasce. No mesmo ano a Smart Fit declara ter adicionado 161 academias no Brasil, 47% das 341 adicionadas nos 16 países em que opera. As duas contagens têm universos diferentes, uma conta empreendimentos e a outra conta lojas, e não estão sendo somadas nem divididas aqui. Servem para uma leitura de ordem de grandeza: a operação de fitness se multiplica numa velocidade que a construção de complexo comercial não acompanha, o que só é possível se ela estiver entrando em prédio que já existe.

O painel dá também a escala de circulação desse estoque: 471 milhões de visitantes por mês, no rótulo do painel, que não define o indicador, e 1.082.750 empregos. O faturamento do setor foi de R$ 200,9 bilhões, divulgado pela associação em 4 de fevereiro de 2026 como resultado de 2025, alta de 1,2%. Um lojista que entra ali não precisa construir audiência. Precisa capturar a que já passa.

Os números de estoque, lojas e visitação vêm do painel público Números do Setor da Abrasce, consultado em 18 de agosto de 2026, e o painel não declara data-base para cada indicador nem publica nota metodológica. O faturamento de 2025 tem data de divulgação declarada, 4 de fevereiro de 2026. A classificação por porte e tipo foi aprovada pelo Conselho Deliberativo da associação em dezembro de 2000. O detalhamento está no Censo Brasileiro de Shopping Centers, vendido pela associação em PDF por R$ 150,00, e o painel gratuito não traz mix de lojistas por segmento nem categoria de academia.

O que o dado diz sobre território, e o que ele não diz

A mesma companhia declara que as praças com menos de 1 milhão de habitantes passaram a representar 51% da rede total, um incremento de três pontos percentuais em relação a 2024. O termo usado é praças, não cidades, e vale a mesma limitação das outras frases: o documento não rotula o recorte geográfico.

Com a ressalva colada, o número diz onde o consumo de fitness está instalado. Mais da metade de uma rede de mais de dois mil pontos opera fora dos maiores mercados urbanos, e a participação subiu três pontos de 2024 para 2025.

Isso conversa com o que a amano já publicou sobre a geografia do consumo brasileiro. Em cidades médias e o novo mapa da riqueza, o dado da Receita Federal mostra que quase metade do patrimônio declarado do país está fora das capitais, e em o consumidor fora do eixo a leitura é a de que existe comprador de alto padrão fora das capitais e que ninguém o atende onde ele mora. A distribuição de uma rede de academias é mais um sinal na mesma direção, agora vindo de operação e não de declaração fiscal.

O dado não informa quantas dessas unidades em praças menores estão dentro de complexos comerciais e quantas estão em rua. As duas frases da companhia, a do perfil imobiliário e a do porte da praça, são publicadas separadas e não se cruzam no documento. Cruzá-las seria fabricar um recorte que ninguém apurou.

Se a academia puxa fluxo, quem deveria estar medindo

A hipótese é conhecida: uma academia traz o mesmo cliente várias vezes por semana, em horário complementar ao do varejo, e essa recorrência beneficia as lojas em volta. É plausível, é o que a decisão de localização sugere, e o que existe em fonte pública brasileira é a declaração de um gestor sobre um ativo, não medição.

Os fundos imobiliários de shopping center publicam relatório gerencial todo mês e registram as academias. O relatório de março de 2026 do Hedge Brasil Shopping lista a Smart Fit entre as principais operações do Shopping Penha, do São Bernardo Plaza, do Praça da Moça, do Floripa Shopping e do Via Parque, e a Bodytech no Goiabeiras e no Parque D. Pedro, entre outras. O relatório de maio de 2026 do General Shopping Ativo e Renda lista a Smart Fit no Shopping Bonsucesso e a Bodytech no Parque Shopping Maia.

O que nenhum dos dois publica é uma série que isole o efeito. O que existe é atribuição qualitativa do gestor. Na ficha do Shopping Praça da Moça, o Hedge Brasil Shopping registra que a Smart Fit foi inaugurada em 1.240 m² de antiga área de estacionamento e que se espera que a entrada colabore para a reversão do quadro de queda do fluxo de veículos apresentado desde a saída da última operação de academia do shopping. É a melhor evidência pública brasileira ligando academia e fluxo de empreendimento, e é preciso dizer o que ela é: um ativo, declaração de gestor de fundo e não estudo, sem série anexada, medindo veículo e não pessoa.

O indicador agregado que os dois fundos publicam não a resolve. O Hedge Brasil Shopping reportou, no histórico consolidado do fundo, vacância de 4,6% em fevereiro de 2026 contra 5,0% em fevereiro de 2025; na comparação com a carteira atual aplicada ao ano anterior, o mesmo relatório registra 4,9% para fevereiro de 2025. O General Shopping Ativo e Renda reportou 7,0% em abril de 2026, contra 6,8% em abril de 2025. Nenhum desses números pode ser atribuído a um lojista específico.

Há um detalhe de instrumentação que explica parte do silêncio. Os dois relatórios consultados acompanham fluxo de veículos, não fluxo de pessoas. Quem chega a pé, de bicicleta, de aplicativo ou de transporte público não aparece na contagem. O indicador que os relatórios publicam é o de veículos, e é com ele que o gestor do Praça da Moça descreve o efeito da academia. A lacuna real não é a ausência de qualquer registro. É que ninguém mede isso de forma sistemática.

Do lado da operadora de academia, a única informação de frequência divulgada no resultado de 2025 diz respeito ao canal de agregador: a companhia informa que os acessos de clientes TotalPass representaram 15% da frequência nas academias próprias no Brasil. Não há divulgação de visitas por cliente, horários de pico nem curva de ocupação por período do dia. Sem isso, a complementaridade de horário entre academia e varejo segue sem verificação pública.

Onde a tese encosta no limite do dado

Três limites precisam ficar visíveis. O recorte geográfico dos percentuais não é declarado. Uma companhia não é o setor. E a única evidência pública de efeito sobre o empreendimento é a declaração de um gestor sobre um ativo. A tese que sobrevive a esses três limites é mais estreita do que a manchete, e é a única defensável.

Há ainda uma contradição de escala que vale registrar. Segundo o Global Wellness Institute, no Monitor 2025, a atividade física é o terceiro maior dos onze setores que o instituto mede, com US$ 1.143,9 bilhões em 2024, crescendo 5,8% em um ano e 4,6% ao ano entre 2019 e 2024. No mesmo levantamento, o Brasil aparece como 14º mercado do mundo, com US$ 14,0 bilhões em 2024, com alta de 8,0% no ano e apenas 0,7% ao ano no quinquênio, taxa que o próprio instituto atribui em parte à depreciação cambial, citando o Brasil nominalmente.

Uma medição em dólar diz que a atividade física brasileira quase não cresceu em cinco anos, enquanto a maior rede do país abriu 161 unidades no Brasil no mesmo ano. As duas são verdadeiras e medem objetos diferentes: uma estimativa setorial convertida em moeda estrangeira e a contagem de pontos de uma empresa. Quem usar uma para contestar a outra está comparando régua com balança.

Sobre o efeito no imóvel, o dado brasileiro é indireto. A pesquisa Abrainc com o instituto Brain, 1.050 entrevistas realizadas em abril e maio de 2024, aponta localização privilegiada em 65% e segurança condominial em 64% entre os fatores que levam o comprador de imóvel residencial a considerar valor acima da média. A mesma pesquisa registra áreas de lazer em 22%, bem abaixo das duas primeiras. O universo é comprador residencial, não lojista nem proprietário de complexo comercial, e a pesquisa não mede academia.

O que muda para quem desenha um empreendimento

Muda a pergunta que o dado permite fazer na hora de montar o mix. Deixa de ser quanto este lojista paga por metro quadrado e passa a ser quantas vezes por semana ele traz a mesma pessoa até a porta. São dois critérios de valor, e o segundo não tem, no Brasil, instrumento público que o meça.

É o mesmo deslocamento que a amano descreveu em o showroom como mídia: um espaço comercial passa a ser avaliado por audiência e recorrência, e não só por venda registrada no caixa. No showroom quem faz o deslocamento é a marca dona do espaço. Aqui é o inquilino, e o proprietário do imóvel ainda não montou a medição para acompanhar.

Enquanto a medição sistemática não existe, quem decide trabalha com um sinal declarado e uma expectativa de gestor. Uma companhia aberta assumiu, sob responsabilidade legal, que sete em cada dez unidades novas de um ano foram para dentro de complexo comercial, e deu como razão o acesso preferencial a imóvel por parceria. Um gestor de fundo escreveu que a saída de uma academia derrubou o fluxo de veículos de um shopping seu. É convicção alocada e leitura de operador, não retorno auditado.

A afirmação central deste texto cabe em uma frase: a academia mudou de posição na planta do empreendimento comercial, isso está medido em percentual e assinado por quem decidiu, e o que ela faz com o fluxo do lugar continua sendo uma pergunta em aberto, cuja resposta ninguém no Brasil mediu de forma sistemática.

perguntas frequentes

o que quer dizer academia como âncora de empreendimento?

Quer dizer instalar a operação de fitness dentro de um complexo comercial já construído, em formato que a companhia descreve como cluster de alta conveniência, em vez de ocupar um ponto isolado que depende de destino próprio. A Smart Fit declara que 68% da rede estava em shoppings, centros comerciais, hipermercados e supermercados ao final de 2025.

qual é o dado que sustenta a mudança de estratégia das academias?

A Smart Fit informa, no resultado de 2025 divulgado em 12 de março de 2026, que as novas unidades em shoppings, centros comerciais, hipermercados e supermercados representaram 69% das aberturas do ano. É percentual declarado pela própria companhia em documento de relações com investidores, não estimativa de terceiro.

existe prova de que uma academia aumenta o fluxo de um shopping?

Não há medição publicada. Há uma declaração: o Hedge Brasil Shopping registra, na ficha do Shopping Praça da Moça, queda do fluxo de veículos desde a saída da última operação de academia e espera que a entrada da Smart Fit ajude a revertê-la. É um ativo, é expectativa de gestor e mede veículo, não pessoa.

quantos shopping centers existem no Brasil e quantos abrem por ano?

O painel público da Abrasce registra 658 shopping centers, 18,3 milhões de metros quadrados de área bruta locável e 124.791 lojas. As inaugurações somaram 10 empreendimentos em 2025 e 143.749 metros quadrados de área nova, contra 11 empreendimentos em 2019. O estoque cresce devagar.

a expansão das academias está concentrada nas capitais?

Não. A Smart Fit declara que capitais e regiões metropolitanas com mais de 1 milhão de habitantes responderam por 35% das inaugurações de 2025, contra 41% em 2024, e que as cidades entre 300 mil e 1 milhão subiram de 24% para 31% da expansão do ano. O recorte geográfico não é rotulado.

Retrato de Marcus Yabe
sobre o autor

Marcus Yabe

sócio-fundador · estratégia e criatividade

Trabalha no encontro entre estratégia, comunicação, negócios, conteúdo e relações. Foi CEO do LIDE Paraná, diretor executivo da Paraná Business e publisher da TOPVIEW.

fontes
  1. Smart Fit, resultados de 2025 e do quarto trimestre de 2025, divulgados em 12 de março de 2026, documento de relações com investidores
  2. Abrasce, Associação Brasileira de Shopping Centers, painel Números do Setor
  3. Abrasce, painel de Inaugurações, série de empreendimentos e área bruta locável por ano
  4. Abrasce, Definições e Convenções, classificação de empreendimentos
  5. Abrasce, divulgação de 4 de fevereiro de 2026, faturamento do setor de R$ 200,9 bilhões em 2025, alta de 1,2%
  6. Abrasce, Censo Brasileiro de Shopping Centers 2026, publicação vendida em PDF por R$ 150,00
  7. Hedge Brasil Shopping FII, relatório gerencial de março de 2026
  8. General Shopping Ativo e Renda FII, relatório gerencial de maio de 2026
  9. Abrainc com Brain Inteligência Estratégica, pesquisa de tendências e comportamento do consumidor de imóveis, 1.050 entrevistas em abril e maio de 2024, divulgada em 4 de junho de 2024
  10. Global Wellness Institute, Global Wellness Economy Monitor 2025
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