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Sala de tratamento de spa com maca, toalha e roupão, e uma folha de razão contábil aberta sobre a bancada de pedra
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o spa como centro de resultado, não cortesia

O spa virou centro de resultado no discurso e continua invisível na demonstração financeira.

por Marcus Yabe · publicado em · atualizado em · leitura de 9 minutos

O spa de hotel é um departamento operacional que gera receita própria e quase nunca aparece isolado na demonstração de quem o opera. O Global Wellness Institute estima o setor de spas em US$ 157,4 bilhões e 201.861 estabelecimentos em 2024. Accor, Hyatt e InterContinental Hotels Group, os três grupos de capital aberto que colocam bem-estar no centro de pelo menos uma marca, não publicam uma única linha financeira de spa.

A tese que este artigo testa é que o spa deixou de ser cortesia e virou centro de resultado. A apuração foi atrás da prova contábil dessa tese, nos documentos que as companhias assinam sob responsabilidade legal e nos relatórios que a entidade do setor publica. A prova não está lá.

Centro de resultado é um conceito contábil, não figura de linguagem. Ele tem receita própria, custo próprio, margem apurável e alguém que responde pelo número. Enquanto não aparecer assim em documento público de nenhum dos três grupos analisados, o spa continua sendo um centro de custo com boa reputação.

Dois artigos desta seção já ocuparam o terreno vizinho. Hospitalidade como linguagem de marca tratou de receber bem como vantagem que se mede, e branding de hotelaria boutique tratou da marca como critério de edição de um lugar. Aqui o objeto é estritamente contábil.

Quanto o setor diz valer, e o que exatamente ele está contando

Segundo o Global Wellness Institute, o setor de spas movimentou US$ 157,4 bilhões em 2024, alta de 14,6% sobre 2023 e de 6,2% ao ano entre 2019 e 2024. São 201.861 estabelecimentos, contra 175.482 em 2019. O número não é estatística oficial: é estimativa de uma entidade setorial, e a metodologia mede receita de estabelecimento, não gasto de consumidor.

Metade desse valor está dentro de hotel. Os spas de hotel e resort respondem por US$ 78,85 bilhões, ou 50,1% da receita global do setor em 2024, e por 87.831 dos estabelecimentos, segundo o GWI. É também o tipo que mais cresce: 9,4% ao ano entre 2019 e 2024, contra 6,2% do agregado. A definição do próprio instituto é a de um spa localizado dentro de hotel ou resort, que vende serviços avulsos ao hóspede e ao cliente de fora.

tipo de spa, 2024receitaao ano, 2019-2024estabelecimentos
Hotel e resortUS$ 78,85 bi9,4%87.831
Day, club e salãoUS$ 42,14 bi2,9%73.559
Medical spasUS$ 12,67 bi6,7%11.974
Destino e health resortsUS$ 11,42 bi4,1%2.894
Águas termais e mineraisUS$ 7,04 bi2,6%9.309
OutrosUS$ 5,27 bi2,0%16.294

A tabela permite uma conta que o GWI não publica. Dividindo receita por estabelecimento, cálculo da amano sobre os dados do Monitor 2025, o spa médio do mundo fatura US$ 779,7 mil por ano, o spa de hotel fatura US$ 897,7 mil e o spa de destino fatura US$ 3,95 milhões. O spa de destino, que é o hotel inteiro, vale 4,4 vezes o spa que fica dentro de um hotel. É a única leitura de escala unitária disponível, e ela é derivada, não medida.

Receita média por estabelecimento não é indicador publicado pelo Global Wellness Institute. Os valores acima são divisão simples da receita pelo número de estabelecimentos de cada tipo, cálculo da amano casa criativa sobre a Figura 10.5 e a Figura 10.6 do Global Wellness Economy Monitor 2025. A divisão trata estabelecimentos de porte muito diferente como se fossem comparáveis e não deve ser lida como faturamento típico.

Onde o spa aparece na demonstração de Accor, Hyatt e IHG

Em Accor, Hyatt e InterContinental Hotels Group, três grupos de capital aberto que vendem bem-estar como posicionamento, spa não é linha de receita. É palavra de folheto. A Accor divide o resultado em Premium, Midscale and Economy e Luxury and Lifestyle. A Hyatt, em três segmentos reportáveis. O IHG divide por geografia. Em nenhum desses segmentos o spa aparece.

No 2025 Universal Registration Document da Accor, documento de 530 páginas protocolado na AMF em março de 2026, os segmentos reportáveis da nota de IFRS 8 se abrem em gestão e franquia, vendas e distribuição, e ativos hoteleiros. A palavra wellness aparece em 10 das 530 páginas, sempre em texto qualitativo. A menção mais quantificada do documento inteiro diz que o grupo tem mais de 2.000 hotéis com instalações de fitness ou spa. É fitness ou spa, e não é contagem de spas.

No Form 10-K de 2025 da Hyatt, protocolado na SEC em 13 de fevereiro de 2026, spa aparece dos dois lados da conta e em nenhum deles com valor. Do lado da despesa, dentro da descrição de outros custos de apoio, ao lado de utilidades, marketing, estacionamento e recreação. Do lado da receita, na política de reconhecimento de receita, que lista spa entre os serviços vendidos ao hóspede em hotéis próprios e arrendados, cada um deles uma obrigação de desempenho. Em nenhum dos dois casos há cifra: o spa é citado, nunca medido.

O IHG é o caso mais direto. Nos resultados anuais de 2025, publicados em 2026, as palavras spa e wellness não aparecem nenhuma vez. O grupo é dono do Six Senses, marca de resort de bem-estar com maior presença internacional entre as três analisadas, com 27 hotéis abertos e 39 em desenvolvimento em 31 de dezembro de 2025. O Six Senses está dentro de Luxury and Lifestyle, categoria de seis marcas que responde por 14% do sistema.

US$ 157,4 bi
Receita global estimada do setor de spas em 2024. O mesmo levantamento conta 201.861 estabelecimentos no mundo.
Global Wellness Institute, Monitor 2025, novembro de 2025
zero
Linhas de receita, margem ou EBITDA de spa nos relatórios anuais de Accor, Hyatt e IHG referentes a 2025.
Accor URD 2025, Hyatt Form 10-K 2025 e IHG Full Year Results 2025
1,7%
Participação dos outros departamentos operados, grupo que inclui o health club, na receita bruta do hotel urbano brasileiro em 2023.
JLL e FOHB, Hotelaria em Números Brasil 2024

Wellness como designação interna, não como classificação de setor

A Hyatt classifica o Miraval como Luxury e Wellness na tabela de marcas do Form 10-K de 2025 e explica, em nota de rodapé, que a escala de rede reproduz o agrupamento padrão da indústria com exceção de wellness, all-inclusive e propriedade de temporada, que são designações internas da própria companhia. Wellness, ali, é vocabulário da empresa, não do setor.

A consequência prática dessa nota é que não existe categoria auditável de hotel de bem-estar. Cada grupo cria a sua e a coloca onde convém no organograma comercial. A Accor não classifica nenhuma marca própria como marca de wellness em seu quadro de portfólio; a única aproximação é uma frase do documento de 2025 sobre a parceria estratégica firmada em 2024 com a Our Habitas, marca de hotelaria de luxo com foco em bem-estar. No quadro de portfólio do mesmo documento, a Our Habitas aparece com 11 hotéis e 564 quartos.

O Miraval, por sua vez, tinha 4 propriedades e 563 quartos em 30 de junho de 2026, depois da abertura do Miraval The Red Sea, a primeira fora dos Estados Unidos. E o RevPAR do Miraval não existe isolado: a nota do release trimestral da Hyatt informa que o indicador de luxo agrega Alila, Andaz, Destination, Grand Hyatt, Miraval, Park Hyatt, The Unbound Collection e Thompson. Oito marcas em um número só.

Somadas nas datas de cada documento, as três marcas que os três grupos associam publicamente a bem-estar reúnem 42 hotéis abertos: 27 do Six Senses, 11 da Our Habitas e 4 do Miraval. É uma vitrine com contagem. O IHG chega a publicar o RevPAR do Six Senses em separado, mas RevPAR é diária de quarto, não receita de cabine. O que nenhum dos três segrega é a linha do spa, e o que a companhia não segrega o analista não reconstrói.

Parte do crescimento é cadastro, e não operação

O achado mais desconfortável do Monitor 2025 está numa nota de rodapé escrita pelo próprio GWI. O instituto registra que o salto dos spas de hotel e resort não decorre inteiramente de novas construções, mas também de um aumento expressivo do número de hotéis que passaram a listar suas instalações de spa em plataformas globais de reserva.

O GWI quantifica esse efeito por partes: o total de propriedades de hospedagem listadas no Booking.com cresceu 77% no mundo entre 2020 e 2024, e as listagens de propriedades com instalações de spa ou bem-estar cresceram 260% na América do Norte, 42% no Oriente Médio e Norte da África, 37% na Ásia-Pacífico, 35% na África Subsaariana e 30% na América Latina e Caribe. Número global de listagens de spa o instituto não publica. Ou seja, parte do crescimento do maior tipo de spa do mundo é crescimento de cadastro: quando o hotel marca uma caixa no formulário da plataforma, o setor cresce sem que uma sala nova tenha sido construída.

Isso não desqualifica a série, explica a sua natureza. Um agregado montado com modelo proprietário sobre listagem, associação setorial e fonte estatística mede visibilidade tanto quanto mede atividade, e as duas coisas crescem em ritmos diferentes. O mesmo capítulo declara que uma série de negócios de bem-estar fica de fora da contagem: clínicas de longevidade, clubes sociais de bem-estar, serviços únicos como crioterapia e equipamento doméstico.

Há ainda a questão de quem paga a medição. O Monitor 2025 lista 17 patrocinadores de pesquisa, sob o título literal de agradecimento aos patrocinadores que tornaram o relatório possível, e dois dos três grupos analisados estão entre eles: a Hyatt, com o próprio nome, e o Six Senses, marca do IHG. O próprio GWI publica o preço: o patrocínio de pesquisa começa em US$ 19.900 e dá ao patrocinador nome e citação em todas as cópias do estudo e inclusão no release. O dado continua válido. A origem dele precisa ser dita na mesma frase.

Quem publica uma linha de spa, e o que essa linha mostra

A apuração procurou uma companhia hoteleira que segregasse receita de spa em documento público. Encontrou uma, e ela é asiática. O Banyan Group, listado em Cingapura, reporta um segmento fee-based e abre dentro dele a operação de Spa, Wellbeing and Gallery. É a exceção do mercado.

Os números do Annual Report de 2024 do grupo: receita total de S$ 380,6 milhões, alta de 16% sobre os S$ 327,9 milhões de 2023; segmento fee-based de S$ 79,6 milhões, ou 21% do total; e, dentro dele, receita de S$ 9,8 milhões em Spa, Wellbeing and Gallery, alta de S$ 1,2 milhão sobre 2023. O mesmo quadro traz o resultado operacional da linha: prejuízo de S$ 55 mil em 2024, contra lucro de S$ 2,1 milhões em 2023. O grupo operava 73 spas e 68 galerias em 31 de dezembro de 2024.

Mesmo o único grupo que abre a linha não abre a linha do spa: abre a linha de spa somada a uma operação de galeria de varejo. Sobram 73 spas e 68 pontos de venda num único valor de S$ 9,8 milhões, que é receita de serviço do grupo gestor, não o volume transacionado nas cabines. A melhor divulgação disponível no mundo ainda é agregada.

A outra receita de spa auditada está fora do hotel. A OneSpaWorld, listada na Nasdaq, opera spas dentro de navios e resorts de terceiros e reportou US$ 961,0 milhões de receita em 2025, contra US$ 895,0 milhões em 2024, com 206 navios e 48 resorts de destino ao fim do período e receita média semanal de US$ 90.608 por navio. A leitura é dura: o spa vira linha auditada quando deixa de ser departamento do hotel e vira empresa de outra pessoa.

Onde o spa cabe na contabilidade do hotel brasileiro

No Brasil existe um indicador de composição de receita hoteleira com metodologia declarada, e ele mostra o mesmo apagamento. Segundo a JLL e o FOHB, no Hotelaria em Números Brasil 2024, com questionários de cerca de 500 hotéis, resorts e flats sobre 2023, o hotel urbano tirou 69,5% da receita bruta de apartamentos e 26,8% de alimentos e bebidas.

O que sobra é onde o spa mora. Os outros departamentos operados responderam por 1,7% da receita bruta do hotel urbano em 2023, e aluguéis e outras receitas por 2,0%. No resort, apartamentos e alimentos e bebidas somam 97,4% da receita bruta, e os outros departamentos operados ficam com 2,6%. O glossário do estudo diz o que está dentro desse grupo: lavanderia, telefone, internet, business center e health club.

Esse é o teto contábil do bem-estar no hotel brasileiro medido. Não é que o spa valha 1,7%: é que o spa está dentro de um balde de 1,7% que também contém a lavanderia e o wi-fi. Nenhuma linha do estudo isola serviço de bem-estar.

O Brasil não está entre os 20 maiores mercados de spa do mundo em 2024 pelo Monitor 2025. O único valor de spa brasileiro que o GWI já publicou vem de um release de maio de 2024: US$ 680 milhões e 29º lugar, com alta de 17,2% entre 2020 e 2022. O dado tem ano-base 2022 e não foi atualizado desde então.

O que este artigo afirma e o que ele não afirma

Este artigo não afirma que spa dá prejuízo. Afirma algo mais estreito e mais verificável: não existe, em documento público de grupo hoteleiro ocidental listado, demonstração que permita isolar quanto o spa soma ao resultado. A única linha do gênero que esta apuração encontrou, no Banyan Group, agrega spa, wellbeing e galeria.

Os limites do que foi apurado são três. Ausência em relatório consolidado não é ausência de gestão: o que falta é a divulgação, não o controle. A apuração cobriu cinco companhias e não cobriu grupos fechados nem redes asiáticas menores. E os US$ 157,4 bilhões são estimativa do Global Wellness Institute, não auditada no nível da empresa, e convivem com a nota sobre listagem em plataforma e com 17 patrocinadores industriais. Usá-lo é legítimo. Apresentá-lo como se fosse conta nacional não é.

A consequência para quem opera é prática. Enquanto o spa não tiver receita, custo e margem próprios num documento que alguém assine, ele não é um centro de resultado: é uma promessa de posicionamento sustentada por conta de terceiro. É por isso que a tese que abriu este texto sai desta apuração pela metade. O spa virou centro de resultado no discurso e continua invisível na demonstração.

perguntas frequentes

Quanto vale o mercado global de spas?

O Global Wellness Institute estima o setor de spas em US$ 157,4 bilhões e 201.861 estabelecimentos em 2024, com alta de 14,6% sobre 2023. É estimativa de entidade setorial, construída com modelo proprietário sobre fontes primárias e secundárias, incluindo associações do setor e órgãos estatísticos, não estatística oficial nem soma de balanços auditados.

Os grandes grupos hoteleiros divulgam quanto o spa fatura?

Não. No Universal Registration Document de 2025 da Accor, no Form 10-K de 2025 da Hyatt e nos resultados de 2025 do IHG não existe linha de receita, margem ou EBITDA de spa. Na Hyatt, spa aparece dentro de uma descrição de custos de apoio e na política de reconhecimento de receita, sempre sem valor.

O spa aumenta o lucro de um hotel?

Não existe demonstração pública que sustente essa conta. Nenhum dos três grupos analisados divulga receita, custo ou margem de spa em separado, e sem os três não há como calcular contribuição. Quem afirma um percentual de ganho está usando estimativa privada, não documento auditado.

Qual é a fatia do spa na receita de um hotel no Brasil?

Não é publicada isoladamente. Segundo a JLL e o FOHB, em 2023 os outros departamentos operados responderam por 1,7% da receita bruta do hotel urbano brasileiro e 2,6% no resort. O glossário do estudo coloca health club nesse grupo, junto com lavanderia, telefone e internet.

Por que o número de spas no mundo cresceu tanto?

Em parte por cadastro. O GWI registra que o salto dos spas de hotel e resort não vem só de novas obras, mas de propriedades que passaram a se listar em plataformas de reserva. No Booking.com, as listagens de hospedagem cresceram 77% entre 2020 e 2024, e as que listam spa cresceram entre 30% e 260%, conforme a região.

Retrato de Marcus Yabe
sobre o autor

Marcus Yabe

sócio-fundador · estratégia e criatividade

Trabalha no encontro entre estratégia, comunicação, negócios, conteúdo e relações. Foi CEO do LIDE Paraná, diretor executivo da Paraná Business e publisher da TOPVIEW.

fontes
  1. Global Wellness Institute, Global Wellness Economy Monitor 2025, capítulo de spas e nota 30
  2. Global Wellness Institute, página de patrocínio de pesquisa, com o preço de entrada
  3. Global Wellness Institute, release sobre a economia de bem-estar do Brasil, maio de 2024, ano-base 2022
  4. Accor, 2025 Universal Registration Document, protocolado na AMF em março de 2026
  5. Hyatt Hotels Corporation, Form 10-K do exercício de 2025, protocolado na SEC em 13 de fevereiro de 2026
  6. Hyatt Hotels Corporation, resultados do segundo trimestre de 2026, exhibit do Form 8-K de 30 de julho de 2026
  7. InterContinental Hotels Group, Full Year Results for the year to 31 December 2025
  8. Banyan Group, Annual Report 2024, seção do segmento fee-based
  9. OneSpaWorld Holdings, resultados do exercício de 2025, exhibit 99.1 do Form 8-K de 18 de fevereiro de 2026
  10. JLL e FOHB, Hotelaria em Números Brasil 2024, com dados de 2023
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