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quanto o brasileiro se movimenta, e o que o dado desmente

O país que discute sedentarismo não sabe qual dos seus números está usando.

por Marcus Yabe · publicado em · atualizado em · leitura de 10 minutos

Atividade física medida é um indicador estatístico cujo valor depende de quais domínios da vida entram na conta. O Brasil tem dois deles, publicados pelo IBGE na mesma pesquisa e no mesmo ano. Na Pesquisa Nacional de Saúde 2019, 30,1% dos adultos atingiam o nível recomendado no lazer e 40,3% eram insuficientemente ativos somando lazer, trabalho e deslocamento. Os dois números são verdadeiros e não são complementares.

A conta que quase todo mundo faz é a subtração. Se 30,1% praticam o recomendado, 69,9% não praticariam, e daí sai a frase de que sete em cada dez brasileiros são sedentários. A conta está errada por construção. O outro indicador do IBGE, que mede exatamente quem fica abaixo do mínimo, dá 40,3%.

A distância entre as duas leituras é de quase trinta pontos percentuais. É a diferença entre descrever um país majoritariamente parado e descrever um país em que a maioria dos adultos alcança o mínimo, ainda que fora do tempo livre.

Este texto trata de medição, não de comportamento.

Os dois indicadores da PNS 2019, e o que cada um conta

A Pesquisa Nacional de Saúde 2019 publica dois indicadores de atividade física para adultos. O primeiro é positivo e mede só o lazer: 30,1% atingiam o nível recomendado. O segundo é negativo e soma três domínios: 40,3% eram insuficientemente ativos. Mesma pesquisa, mesmo ano, universos diferentes e sentidos opostos.

As definições estão na publicação, e vale reproduzi-las inteiras, porque é nelas que a diferença mora.

IndicadorValor em 2019Definição literal do IBGERecorte por sexoTabela
Pratica o nível recomendado de atividade física no lazer30,1%"aqueles que realizam qualquer prática de atividade física fora do âmbito da escola ou trabalho, por exemplo, por mais de 150 minutos (para atividades consideradas moderadas) ou 75 minutos (para atividades consideradas vigorosas) na semana"homens 34,2% · mulheres 26,4%SIDRA 4250
Insuficientemente ativo40,3%"pessoas que não praticaram atividade física ou praticaram por menos do que 150 minutos por semana considerando os três domínios: lazer; trabalho e deslocamento para o trabalho. Este indicador não considera o tempo dedicado a atividades domésticas"homens 32,1% · mulheres 47,5%SIDRA 7740

Repare no recorte por sexo. A vantagem masculina é de 7,8 pontos percentuais no lazer e de 15,4 pontos na conta dos três domínios. O segundo indicador amplia a distância entre homens e mulheres em vez de reduzi-la, e a explicação não está no lazer.

A base é grande. A PNS 2019 selecionou 108.525 domicílios e obteve entrevista em 94.114 deles, com 90.846 questionários individuais. O coeficiente de variação declarado para o percentual de insuficientemente ativos no Brasil é de 0,8%. O problema do assunto não é precisão estatística. É leitura.

Por que 100 menos 30,1 não dá 40,3

Os dois indicadores diferem em três coisas ao mesmo tempo. O primeiro mede um domínio e o segundo soma três. O primeiro conta quem alcança e o segundo conta quem não alcança. O primeiro aceita dois limiares alternativos, 150 minutos moderados ou 75 vigorosos, e o segundo usa corte único de 150 minutos.

Some as três diferenças e a subtração deixa de fazer sentido. A faixa de quase trinta pontos entre 69,9% e 40,3% é formada por gente que não pratica exercício no tempo livre e ainda assim acumula 150 minutos semanais indo a pé para o trabalho, pedalando ou exercendo ocupação fisicamente exigente.

O próprio IBGE diz isso. No recorte por condição na força de trabalho, 27,6% das pessoas ocupadas não eram suficientemente ativas, contra 62,7% das que estavam fora da força de trabalho. E a publicação acrescenta que "a prática de atividades físicas no trabalho foi o domínio de atividade com maior participação relativa".

Há um segundo erro, de vocabulário. Insuficientemente ativo não é sinônimo de sedentário, e o IBGE não publica sedentário como indicador, embora use a palavra em prosa na própria PNS 2019. O instituto mantém categoria separada e mais restrita, definida no glossário da PNS 2019 como a "pessoa que não pratica atividade física em nenhum domínio (tempo livre, deslocamento, doméstico) por mais de 20 minutos". Chama-se fisicamente inativo.

Os dois percentuais centrais deste artigo vêm da Pesquisa Nacional de Saúde 2019, do IBGE, nas tabelas 4250 e 7740 do SIDRA. A pesquisa mede prática declarada pelo entrevistado, em minutos por semana, e não mede intensidade aferida por aparelho, aptidão física nem frequência de uso de instalação esportiva. O indicador de insuficientemente ativo exclui, por definição, o tempo dedicado a atividades domésticas.

O indicador subiu um terço em seis anos

Publicar o nível sem a tendência inverte o sentido do dado. No mesmo parágrafo em que registra os 30,1% de 2019, a publicação da PNS escreve que em 2013 a média era de 22,7%, com 27,3% entre os homens e 18,6% entre as mulheres. O indicador de atividade física no lazer cresceu cerca de um terço em seis anos.

O avanço foi maior entre as mulheres, de 18,6% para 26,4%, alta de 7,8 pontos percentuais, contra 6,9 pontos entre os homens. A distância entre os sexos diminuiu no lazer nesse intervalo, e em 2019 era quase o dobro na conta dos três domínios, indicador que a PNS só publica para esse ano.

Aqui aparece uma divergência produzida pelo próprio IBGE. A publicação da PNS 2019 diz 22,7% para 2013; a tabela 4250 do SIDRA, para o mesmo indicador e o mesmo ano, devolve 22,4%. Três décimos não mudam a direção da alta. Mudam qual número aparece na citação, conforme a pessoa abra o livro ou a tabela.

Os recortes internos de 2019 são consistentes entre si. A prática no lazer cai com a idade: 41,0% entre 18 e 24 anos e 19,8% entre os de 60 anos ou mais. Por região, a variação é estreita, de 27,7% no Sul a 31,8% no Centro-Oeste. Pelo indicador negativo, 59,7% das pessoas de 60 anos ou mais eram insuficientemente ativas, contra 32,8% entre 18 e 24 anos.

Escolaridade e renda organizam o resto. Entre quem não tem instrução ou tem fundamental incompleto, 49,9% ficavam abaixo do mínimo, contra 32,0% no ensino superior. Por rendimento por pessoa, o percentual vai de 48,0% a 30,8% entre os extremos da escala.

30,1%
Dos adultos brasileiros atingiam o nível recomendado de atividade física no lazer em 2019, contra 22,7% em 2013, alta de cerca de um terço em seis anos.
IBGE, Pesquisa Nacional de Saúde 2019
64,1 mi
Pessoas de 18 anos ou mais classificadas como insuficientemente ativas em 2019, ou 40,3% dos adultos, somando lazer, trabalho e deslocamento para o trabalho.
IBGE, PNS 2019, tabela 7740 do SIDRA
42,3%
Dos adultos das 26 capitais e do Distrito Federal praticavam atividade física no tempo livre no nível recomendado em 2024, por inquérito telefônico com informação declarada.
Ministério da Saúde, Vigitel Brasil 2006-2024, edição de 2025

O número mais recente do país não vem da PNS

O dado mais atual de atividade física no Brasil é do Vigitel Brasil 2006-2024, do Ministério da Saúde, edição de 2025, no portal desde 7 de julho de 2026. Ele registra 42,3% de adultos com prática no tempo livre no nível recomendado em 2024, 47,7% entre os homens e 37,9% entre as mulheres. Cobre 26 capitais e o Distrito Federal.

O Vigitel usa a mesma régua de 150 minutos moderados ou 75 vigorosos e publica quatro indicadores de uma vez. Além dos 42,3% no tempo livre e do recorte de deslocamento, aponta 33,3% de prática insuficiente somando lazer, deslocamento e trabalho, e 9,4% de fisicamente inativos, por definição que inclui o domínio trabalho e dispensa piso de duração, diferente da do glossário da PNS. Entre os de 65 anos ou mais, a prática insuficiente chega a 60,1%, faixa que não coincide com a de 60 anos ou mais da PNS.

São 27.048 entrevistas individuais em 2024, contra 90.846 da PNS 2019. O que importa não é o tamanho, é a natureza. O Vigitel é telefônico, restrito a capitais, com informação declarada, e o Ministério da Saúde descreve a edição de 2024 como operação simplificada, depois de uma licitação frustrada.

E há uma quebra de método dentro da própria série. Até 2021 todas as entrevistas eram por telefone fixo. Em 2023, metade passou a ser por celular. Em 2024, das 27.048 entrevistas, 24.448 foram por celular, e em 14 das 27 cidades a coleta foi inteiramente móvel. No mesmo intervalo, a prática insuficiente cai de 48,8% em 2021 para 33,3% em 2024, e a inatividade física cai de 14,1% em 2023 para 9,4% em 2024. Há ainda uma terceira mudança, declarada pelo relatório: a metodologia de cálculo desses dois indicadores foi alterada em 2023 para considerar também atividades de menos de dez minutos, aplicada de forma retroativa desde 2009, segundo o Ministério da Saúde. O indicador de tempo livre não carrega essa nota.

O relatório não publica série corrigida para a troca de modo e adverte, com todas as letras, que "a concentração de entrevistas em alguns meses do ano requer cuidados na comparação das estimativas com aquelas de anos anteriores". Não houve coleta em 2022. Os fatores de ponderação foram refeitos com o Censo Demográfico 2022. A queda pode ser real, pode ser efeito de método, e o documento não separa as duas coisas.

O mundo mede 31,3%, e a comparação exige cuidado

A referência internacional é uma só. Em 2022, 31,3% dos adultos do mundo, com intervalo de incerteza de 28,6% a 34,0%, não atingiam os níveis recomendados de atividade física, cerca de 1,8 bilhão de pessoas, segundo a Organização Mundial da Saúde. A régua é a mesma: 150 minutos moderados, 75 vigorosos ou equivalente por semana.

A base é pública. Strain, Flaxman e coautores, na The Lancet Global Health de 2024, agruparam 507 inquéritos populacionais com 5,7 milhões de participantes em 163 países e territórios. A prevalência global padronizada por idade era de 23,4% em 2000 e subiu para 31,3% em 2022, com 33,8% entre as mulheres e 28,7% entre os homens. A OMS projeta 35% em 2030.

A tentação seguinte é encostar o Brasil no mundo. Os 40,3% de 2019 são maiores que os 31,3% de 2022, e a leitura fácil seria dizer que o brasileiro se move menos que a média mundial. O mesmo modelo, porém, publica valor para o Brasil: 40,4% em 2022, com intervalo de 31,4% a 49,8%, segundo a Organização Mundial da Saúde. Isso derruba duas objeções, a do ano-base e a da harmonização de inquéritos. Sobra o intervalo de incerteza, que no Brasil passa de dezoito pontos. E o 40,4% modelado quase repete o 40,3% da PNS porque a PNS é o insumo brasileiro do modelo.

A série global de inatividade subiu entre 2000 e 2022, enquanto o indicador brasileiro de prática no lazer subiu entre 2013 e 2019. Um é negativo e o outro positivo, e as duas altas não se contradizem.

Gastar com fitness não é a mesma série que mover o corpo

O mercado que vende movimento é medido por outra instituição, em outra moeda e com outro objeto. Segundo o Global Wellness Institute, physical activity é o terceiro maior dos onze setores que o instituto agrega, com US$ 1.143,9 bilhões em 2024 e alta de 4,6% ao ano entre 2019 e 2024. Isso é despesa, não prática.

Para o Brasil, o mesmo instituto estima US$ 14,0 bilhões em 2024, 14º lugar no mundo, com alta de 8,0% de 2023 para 2024 e apenas 0,7% ao ano entre 2019 e 2024. O instituto atribui parte desse desempenho à depreciação cambial e cita o Brasil nominalmente. Omitir a ressalva seria fabricar um declínio que a série em dólar não prova.

Agora coloque as três coisas lado a lado. A Smart Fit adicionou 341 academias em 2025 e fechou o ano com receita líquida de R$ 7.241,7 milhões, alta de 30%, segundo o resultado divulgado pela companhia em 12 de março de 2026. O Global Wellness Institute mede o setor brasileiro crescendo 0,7% ao ano em dólar. O IBGE mede comportamento com dado de 2019.

As três afirmações são verdadeiras ao mesmo tempo porque medem objetos diferentes, uma empresa, um setor convertido em moeda estrangeira e uma população, em datas diferentes, 2025, 2024 e 2019. Confundir as três produz a frase mais frágil do assunto, a de que o brasileiro se exercita mais porque as academias vendem mais. Nenhuma fonte pública brasileira liga as duas séries.

É o mesmo problema de economia criativa no Brasil, duas medidas que discordam: quando dois números do mesmo território apontam para lados opostos, a divergência é informação sobre onde a fronteira do assunto ainda não foi decidida.

O que nenhum desses números cobre

O dado nacional de atividade física do Brasil tem sete anos. A PNS 2019 segue como referência oficial, e a PNS 2026 entrou em campo em 7 de julho de 2026, com coleta até 30 de novembro de 2026 em cerca de 140 mil domicílios, segundo o IBGE. Atividade física está entre os temas.

Enquanto a PNS 2026 não sai, todo número nacional citado aqui precisa ser datado como 2019, inclusive quando aparecer em manchete sem ano. O IBGE não divulgou data de publicação dos resultados e não cabe estimá-la.

O Vigitel resolve a atualidade e cria outros limites. Não é nacional, é telefônico e a cobertura telefônica não é universal. E as mudanças de método, entre 2021 e 2024, atravessam exatamente o trecho da série em que os indicadores mais se moveram.

Nenhum dos dois mede o corpo: ambos medem relato de minutos por semana. Não há, em fonte oficial brasileira, medição por acelerômetro nem indicador de aptidão física.

Do lado do mercado, os valores do Global Wellness Institute são estimativa de entidade setorial. Não existe série pública que cruze gasto individual com atividade física da mesma pessoa.

O que sobra é uma instrução de leitura. Declare qual indicador está usando, com ano e instituição, toda vez que o número aparecer: se é o do lazer ou o dos três domínios, se é da PNS ou do Vigitel, se é nacional ou de capital.

O Brasil não tem um número de sedentarismo. Tem dois indicadores nacionais de 2019 que medem coisas diferentes, um inquérito de capitais mais recente com um terceiro e um quarto recorte, e um mercado contado em outra moeda. Quem escolhe um deles sem dizer qual não está informando sobre o país: está apenas escolhendo o número que serve à frase que já tinha pronta.

perguntas frequentes

quantos brasileiros são sedentários?

A pergunta não tem resposta única, e o IBGE não usa a palavra sedentário como indicador. Na Pesquisa Nacional de Saúde 2019, 40,3% dos adultos eram insuficientemente ativos somando lazer, trabalho e deslocamento, o que corresponde a 64,1 milhões de pessoas de 18 anos ou mais.

por que 100 menos 30,1 não dá 40,3 nos dados de atividade física do IBGE?

Porque os dois indicadores medem universos diferentes. Os 30,1% contam apenas a prática no lazer. Os 40,3% somam lazer, trabalho e deslocamento para o trabalho. A diferença é formada por quem não se exercita no tempo livre e ainda assim acumula 150 minutos semanais andando ou trabalhando.

qual é o dado mais recente de atividade física no Brasil?

O Vigitel Brasil 2006-2024, do Ministério da Saúde, edição de 2025, disponibilizado no portal em 7 de julho de 2026. Ele registra 42,3% de adultos com prática no tempo livre no nível recomendado em 2024. Cobre apenas as 26 capitais e o Distrito Federal, é telefônico e usa informação declarada pelo entrevistado.

quando sai a nova Pesquisa Nacional de Saúde?

A coleta da PNS 2026 começou em 7 de julho de 2026 e vai até 30 de novembro de 2026, em cerca de 140 mil domicílios, segundo o IBGE. Atividade física está entre os temas do questionário. O instituto não divulgou data de publicação dos resultados.

quanto o mundo tem de adultos abaixo do nível recomendado de atividade física?

Foram 31,3% em 2022, com intervalo de incerteza de 28,6% a 34,0%, cerca de 1,8 bilhão de pessoas, segundo a Organização Mundial da Saúde. A base é uma análise agrupada de 507 inquéritos populacionais e 5,7 milhões de participantes, publicada na The Lancet Global Health em 2024.

Retrato de Marcus Yabe
sobre o autor

Marcus Yabe

sócio-fundador · estratégia e criatividade

Trabalha no encontro entre estratégia, comunicação, negócios, conteúdo e relações. Foi CEO do LIDE Paraná, diretor executivo da Paraná Business e publisher da TOPVIEW.

fontes
  1. IBGE, Pesquisa Nacional de Saúde 2019, percepção do estado de saúde, estilos de vida, doenças crônicas e saúde bucal
  2. IBGE, SIDRA, tabela 4250, nível recomendado de atividade física no lazer, 2013 e 2019
  3. IBGE, SIDRA, tabela 7740, pessoas insuficientemente ativas, 2019
  4. IBGE, Agência de Notícias, início da coleta da Pesquisa Nacional de Saúde 2026
  5. Ministério da Saúde, Vigitel Brasil 2006-2024, edição de 2025, disponibilizado no portal em 7 de julho de 2026
  6. Ministério da Saúde, Vigitel Brasil 2006-2023, prática de atividade física
  7. Organização Mundial da Saúde, comunicado de 26 de junho de 2024 sobre inatividade física
  8. Strain, T.; Flaxman, S.; Guthold, R. et al. National, regional, and global trends in insufficient physical activity among adults from 2000 to 2022: a pooled analysis of 507 population-based surveys with 5.7 million participants. The Lancet Global Health, v. 12, n. 8, p. e1232-e1243, agosto de 2024, revisado por pares
  9. Organização Mundial da Saúde, Global Health Observatory, prevalência de atividade física insuficiente em adultos, estimativa padronizada por idade, Brasil e mundo, 2022
  10. Global Wellness Institute, Global Wellness Economy Monitor 2025
  11. Smart Fit, resultados de 2025, divulgados em 12 de março de 2026
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