
o mercado de academias em fonte primária
Quando uma empresa vira a fonte de um setor, o setor passa a ter a forma da empresa.
Mercado de academias em fonte primária é o que se pode afirmar sobre o setor usando documento com responsabilidade legal, e não estimativa de terceiro. No Brasil isso se resume a duas coisas: a demonstração financeira de companhia registrada na CVM e o cadastro de empresas do IBGE. Em 31 de dezembro de 2024 o IBGE contou 65.346 empresas na classe de condicionamento físico. Em 2025 a maior delas declarou receita líquida de R$ 7.241,7 milhões.
Não existe estatística pública de faturamento do mercado brasileiro de academias. Não existe censo, não existe pesquisa anual do IBGE dedicada ao setor e a Pesquisa Mensal de Serviços não separa academia de outros serviços prestados às famílias. O que existe é o balanço de uma companhia grande o bastante para que o mercado inteiro passe a ser descrito pelo que ela divulga.
Isso é um problema de método antes de ser um problema de número. Quando uma empresa vira a fonte de um setor, o setor passa a ter a forma da empresa. O preço dela vira o preço médio do setor, e o que ela não vende deixa de existir na conversa.
Quantas fontes primárias existem sobre academias no Brasil
São três, e nenhuma delas é uma estatística do setor. O cadastro de companhias abertas da CVM, consultado em 18 de agosto de 2026, devolve dois emissores ativos no ramo. O Cadastro Central de Empresas do IBGE conta empresas por classe de atividade. E a divulgação de resultados da companhia, documento de relações com investidores.
Os dois emissores ativos são a Smartfit Escola de Ginástica e Dança S.A., registrada como companhia aberta em 20 de outubro de 2017 e enquadrada na categoria A desde 9 de fevereiro de 2018, com registro em bolsa e em balcão organizado, e a Bluefit Academias de Ginástica e Participações S.A., registrada em 23 de setembro de 2021, categoria A, em balcão organizado. Houve uma terceira: a Self It Academias Holding S.A., de Recife, registrada em 13 de maio de 2022 e cancelada a pedido em 10 de fevereiro de 2023.
A distinção importa. Companhia aberta categoria A entrega demonstração financeira auditada e padronizada, com data de referência e versão. Empresa fechada não entrega nada. Das redes que operam no país, duas prestam contas em regime público.
O texto anterior desta série, a academia virou âncora de empreendimento, tratou de onde essas unidades são instaladas. Este trata do dinheiro.
A conta da companhia, linha por linha
A demonstração de resultado consolidada de 2025 da Smart Fit, entregue à CVM, registra receita líquida de R$ 7.241,7 milhões, resultado bruto de R$ 3.077,0 milhões e lucro líquido consolidado de R$ 640,5 milhões. A da Bluefit, no mesmo exercício, registra receita líquida de R$ 550,4 milhões e lucro líquido consolidado de R$ 13,0 milhões.
Os valores abaixo estão em milhões de reais e vêm das demonstrações financeiras padronizadas de 2025 nos dados abertos da CVM.
| linha da demonstração consolidada | Smart Fit | Bluefit |
|---|---|---|
| receita líquida de 2025 | 7.241,7 | 550,4 |
| receita líquida de 2024 | 5.580,3 | 405,3 |
| resultado bruto de 2025 | 3.077,0 | 229,1 |
| resultado antes do financeiro e dos tributos | 1.697,8 | 119,8 |
| resultado financeiro | menos 953,4 | menos 99,8 |
| lucro líquido consolidado de 2025 | 640,5 | 13,0 |
| pessoal, na demonstração do valor adicionado | 1.210,6 | 129,4 |
A primeira leitura é de escala: a receita da Smart Fit é 13,2 vezes a da Bluefit em 2025. A segunda é de trajetória: a Smart Fit cresceu 29,8% no ano e a Bluefit cresceu 35,8%, partindo de uma base quase catorze vezes menor. A terceira parece a mais desconfortável e depende de uma norma contábil. Na demonstração auditada, o resultado financeiro consumiu 56,2% do resultado operacional da Smart Fit e 83,3% do da Bluefit. Mas R$ 514,9 milhões dos R$ 953,4 milhões da Smart Fit são juros de arrendamento reconhecidos pelo IFRS-16, isto é, aluguel de academia contabilizado como despesa financeira. Excluindo a norma, a proporção cai para 33,1%.
O mecanismo reaparece em qualquer companhia com muitos imóveis alugados. O IFRS-16, que no Brasil é o CPC 06 (R2), manda reconhecer o contrato de aluguel como ativo de direito de uso e passivo de arrendamento. O que era uma linha de aluguel dentro do custo vira depreciação do ativo mais juros do passivo. O EBITDA sobe, porque as duas parcelas ficam abaixo dele, e o resultado financeiro piora, porque recebe os juros. Em 2025, a diferença entre os dois regimes foi de R$ 1.152,3 milhões só no EBITDA da companhia.
É essa norma, e não um ajuste discricionário, que separa a manchete da demonstração. A companhia comunica lucro líquido recorrente de R$ 741 milhões em 2025 e EBITDA ajustado de R$ 2.292,0 milhões, e declara na primeira página da divulgação que apresenta os resultados sem o efeito do IFRS-16. A página 38 reconcilia os dois regimes: o lucro excluindo IFRS-16 é de R$ 738,4 milhões e o reportado na demonstração auditada é de R$ 640,5 milhões, de modo que os cerca de R$ 100 milhões de distância são R$ 97,8 milhões de norma de arrendamento e apenas R$ 2,6 milhões de recorrência. Na mesma tabela, o EBITDA reportado de 2025 é de R$ 3.455,0 milhões.
O parque foi declarado em 31 de dezembro de 2025: 2.084 academias em 16 países, sendo 1.683 próprias e 401 franquias, com 341 adições líquidas no ano. No Brasil são 984 unidades, das quais 693 próprias da marca Smart Fit, 259 franquias da mesma marca e 32 de Bio Ritmo e outras marcas, número obtido por diferença, já que a companhia publica 36 nessa linha em base mundial.
A divisão que parece ticket médio e não é
A conta é imediata e todo mundo faz. Receita líquida de R$ 7.241,7 milhões dividida por 5,21 milhões de clientes dá cerca de R$ 1.390 por cliente no ano, ou R$ 116 por mês. O número é aritmeticamente correto e não é o ticket médio da companhia. Os dois termos da divisão não medem o mesmo universo.
O numerador é receita consolidada de 16 países e inclui linhas que não vêm de mensalidade de aluno, como royalties de franquias e a receita de outras marcas do grupo, entre elas TotalPass, Queima Diária e Studios. O denominador é a base de clientes do canal direto ao consumidor em 31 de dezembro de 2025, que a companhia declara excluir os usuários chegados pelo agregador TotalPass.
O tamanho do que fica de fora é conhecido. O TotalPass encerrou 2025 com 1,7 milhão de usuários finais no Brasil e no México e mais de 40 mil estabelecimentos parceiros. Somar essa base à de 5,21 milhões seria errado por outro motivo: são usuários de um agregador com acesso a estabelecimentos de terceiros, não assinantes da rede.
O ticket médio em reais não é divulgado. A companhia publica apenas variação percentual: alta de 12% no consolidado da marca Smart Fit contra o quarto trimestre de 2024, com Brasil em 13%, México em 11% e demais países em 9%. Qualquer valor em reais atribuído a uma mensalidade média seria construído fora do documento.
O erro não está na conta, está em chamar o resultado de preço médio do mercado brasileiro de academias.
O que o Estado conta, e o número é outro
O IBGE registrou 65.346 empresas e outras organizações na classe 93.13-1 da CNAE 2.0, atividades de condicionamento físico, em 31 de dezembro de 2024, distribuídas em 69.138 unidades locais, com 229.547 pessoas ocupadas e R$ 3,10 bilhões pagos em salários e outras remunerações no ano. As 984 unidades brasileiras da maior companhia são 1,4% dessas unidades locais.
O tamanho típico do negócio sai da divisão: 3,5 pessoas ocupadas por empresa. Das 229.547 pessoas ocupadas, 141.426 são assalariadas e 88.121 não são, ou 38,4% do total, proporção que descreve sócio e proprietário trabalhando na própria operação. A classe responde por 0,62% das empresas brasileiras e 0,34% do pessoal ocupado do país.
A remuneração separa este setor da média. Dividindo a folha de R$ 3,10 bilhões pelas 141.426 pessoas assalariadas chega-se a cerca de R$ 1.828 por mês. O mesmo cálculo aplicado ao conjunto das empresas brasileiras em 2024 dá R$ 4.279. A classe paga 42,7% da média nacional pela mesma régua.
A série mostra expansão rápida. As empresas passaram de 53.711 em 2022 para 65.346 em 2024, alta de 21,7%. O pessoal ocupado subiu 25,1%, de 183.443 para 229.547, e a folha subiu 57,1% em valores correntes, de R$ 1,97 bilhão para R$ 3,10 bilhões.
A distribuição por unidade da federação mostra um setor espalhado. O estado de São Paulo tem 16.229 empresas, ou 24,8% do país, e os outros 75,2% estão fora dele. Minas Gerais tem 7.347, Rio de Janeiro 4.828, Rio Grande do Sul 4.507, Paraná 4.456 e Santa Catarina 3.574. É a geografia que a amano descreveu em cidades médias e o novo mapa da riqueza e em o consumidor fora do eixo.
Os números de empresas, unidades locais, pessoal e salários vêm do Cadastro Central de Empresas do IBGE, ano de referência 2024, divulgado em 25 de junho de 2026, extraídos das tabelas 9418 e 9528 do SIDRA para a classe 93.13-1 da CNAE 2.0. O cadastro é construído a partir de registros administrativos, entre eles o CNPJ da Receita Federal, a RAIS e o eSocial, e o próprio IBGE declara que exclui os microempreendedores individuais, por serem dispensados desses registros. A estatística de cadastros de MEI do IBGE, tabela 9594 do SIDRA, não registra MEI na classe 93.13-1, de modo que essa exclusão não subconta esta classe. O cadastro conta a empresa pela atividade principal declarada e não publica receita por classe.
Onde a fonte primária não chega
A companhia que serve de fonte opera um segmento específico: preço acessível e alta escala. Fora do balanço dela ficam a academia de bairro, o estúdio de pilates, o box de crossfit, o personal trainer autônomo, a academia de condomínio e a rede regional. Descrever o mercado brasileiro pela Smart Fit é descrever uma pirâmide pelo topo.
A aritmética confirma a metáfora. As duas companhias com registro ativo na CVM declararam, no Formulário de Referência de 2026, 10.652 e 3.018 empregados no Brasil, somando 13.670 pessoas, contra 229.547 pessoas ocupadas na classe segundo o IBGE. Com a ressalva de que os anos de referência são distintos, as duas emissoras juntas empregam menos de 6% de quem trabalha no setor.
E há o que nem o cadastro alcança. O Cempre exclui o microempreendedor individual por construção, mas a estatística de cadastros de MEI do próprio IBGE, com 14,6 milhões de MEIs no país em 2022, não registra nenhum na classe 93.13-1, resultado consistente com o fato de que educação física é profissão regulamentada e profissão regulamentada não pode optar pelo MEI. Uma classe zerada dentro de uma estatística desse tamanho já é um dado estranho. O que fica fora do cadastro não é o MEI: é quem atende sem CNPJ e a operação registrada sob outra atividade principal.
Por que não existe um censo do setor
A associação do setor não publica censo próprio com metodologia aberta. A ACAD Brasil divulga e comenta pesquisas de terceiros, e as duas com número de academias que ela divulgou no último ano são um relatório internacional vendido por assinatura e um panorama setorial de uma empresa de feiras. Nenhum dos dois publica amostra e critério em acesso aberto.
O relatório internacional é o HFA Global Report de 2025, da Health & Fitness Association, vendido por US$ 299 a não associados. A metodologia publicada informa pesquisa com operadores entre fevereiro e junho de 2025, mais de 200 empresas respondentes e cerca de 30 países. É resposta voluntária de operador, não estatística oficial.
O panorama nacional é a 4ª edição do Panorama Setorial da Fitness Brasil, anunciada em 27 de novembro de 2025. As fontes declaradas no anúncio são conselhos profissionais, CNAEs, os participantes da feira da própria empresa e um questionário de gestores. Parte da base é autosseleção de expositor.
A informação mais confiável do setor é produzida por quem tem obrigação legal de produzi-la, e quem tem essa obrigação é uma empresa. A companhia cumpre a norma e escreve com precisão o que faz e o que não faz. O problema aparece quando o documento dela é lido como retrato de um mercado que ela nunca se propôs a medir.
O que muda quando uma empresa vira a régua
Muda o que se considera normal. Se a única conta aberta é a de uma rede de preço acessível e alta escala, o preço dela vira referência de mercado e o cliente dela vira o cliente do setor. Quem opera outro segmento passa a se explicar contra uma régua que não foi feita para medi-lo.
Para quem toma decisão, a consequência é operacional. Um estúdio com 40 alunos e três professores não concorre com a rede de 984 endereços, mas será comparado a ela em preço por um cliente que só viu esse número publicado. A resposta não é disputar a régua. É publicar a própria.
Para quem escreve sobre o setor, a disciplina é outra. Quando a frase começa com o mercado brasileiro de academias, vale perguntar de onde veio o número que vem depois, e sob qual norma ele foi montado, porque em rede de imóvel alugado dois regimes contábeis produzem dois lucros diferentes para o mesmo ano.
A afirmação central deste texto cabe em uma linha: o mercado brasileiro de academias tem 65.346 empresas segundo o Estado e uma conta aberta segundo o mercado de capitais, e confundir as duas coisas é a forma mais comum de errar sobre o setor inteiro.
quantas academias existem no Brasil?
Não há censo público. O que existe é o Cadastro Central de Empresas do IBGE, que registrou 65.346 empresas e outras organizações na classe de atividades de condicionamento físico em 31 de dezembro de 2024, distribuídas em 69.138 unidades locais. O cadastro exclui microempreendedores individuais, mas a estatística de MEI do próprio IBGE não registra nenhum MEI nesta classe.
qual foi o faturamento da Smart Fit em 2025?
A receita líquida consolidada foi de R$ 7.241,7 milhões em 2025, contra R$ 5.580,3 milhões em 2024, alta de 29,8%. O valor está na demonstração de resultado consolidada entregue à CVM e cobre a operação em 16 países, não apenas a brasileira.
dá para calcular o ticket médio de uma academia pela receita da companhia?
Não. Dividir R$ 7.241,7 milhões por 5,21 milhões de clientes dá cerca de R$ 116 por mês, mas a receita é consolidada de 16 países e inclui franquias, enquanto a base de clientes é só do canal direto e exclui quem entra por agregador. Os dois números têm perímetros diferentes.
existe outra companhia de academias com balanço público no Brasil?
Sim, uma. A Bluefit Academias de Ginástica e Participações é companhia aberta categoria A registrada na CVM desde setembro de 2021, com registro em balcão organizado, e declarou receita líquida de R$ 550,4 milhões em 2025. A Self It registrou-se em 2022 e cancelou o registro em fevereiro de 2023.
quanto paga o setor de academias no Brasil?
A folha da classe de condicionamento físico somou R$ 3,10 bilhões em 2024, segundo o IBGE, para 141.426 pessoas assalariadas. Dividindo uma coisa pela outra dá cerca de R$ 1.828 por mês, contra R$ 4.279 pelo mesmo cálculo aplicado ao conjunto das empresas brasileiras.

Marcus Yabe
Trabalha no encontro entre estratégia, comunicação, negócios, conteúdo e relações. Foi CEO do LIDE Paraná, diretor executivo da Paraná Business e publisher da TOPVIEW.
fontes
- Comissão de Valores Mobiliários, Demonstrações Financeiras Padronizadas de 2025, dados abertos, arquivo consolidado das companhias abertas ↗
- Comissão de Valores Mobiliários, cadastro de companhias abertas, dados abertos ↗
- Comissão de Valores Mobiliários, Formulário de Referência de 2026, dados abertos, quadros de empregados por região ↗
- IBGE, Cadastro Central de Empresas, tabela 9418 do SIDRA, empresas, pessoal ocupado e salários por classe da CNAE 2.0 ↗
- IBGE, Cadastro Central de Empresas, tabela 9528 do SIDRA, unidades locais por classe da CNAE 2.0 ↗
- IBGE, Estatísticas dos Cadastros de Microempreendedores Individuais, tabela 9594 do SIDRA, MEIs por classe da CNAE 2.0 ↗
- IBGE, Agência de Notícias, Cresce o número de empresas no país em 2024, mas salário médio fica estável, 25 de junho de 2026 ↗
- Smart Fit, divulgação de resultados de 2025 e do quarto trimestre de 2025, 11 de março de 2026, com webinar em 12 de março de 2026 ↗
- Health & Fitness Association, The 2025 HFA Global Report, publicação vendida por US$ 299 a não associados ↗
- Health & Fitness Association, 2025 Global Fitness Industry Report Shows Record Growth and What's Next for the Market ↗
- ACAD Brasil, Fitness Brasil lança 4ª edição do Panorama Setorial, 27 de novembro de 2025 ↗
O tema não termina aqui.
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