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o mercado de academias em fonte primária

Quando uma empresa vira a fonte de um setor, o setor passa a ter a forma da empresa.

por Marcus Yabe · publicado em · atualizado em · leitura de 10 minutos

Mercado de academias em fonte primária é o que se pode afirmar sobre o setor usando documento com responsabilidade legal, e não estimativa de terceiro. No Brasil isso se resume a duas coisas: a demonstração financeira de companhia registrada na CVM e o cadastro de empresas do IBGE. Em 31 de dezembro de 2024 o IBGE contou 65.346 empresas na classe de condicionamento físico. Em 2025 a maior delas declarou receita líquida de R$ 7.241,7 milhões.

Não existe estatística pública de faturamento do mercado brasileiro de academias. Não existe censo, não existe pesquisa anual do IBGE dedicada ao setor e a Pesquisa Mensal de Serviços não separa academia de outros serviços prestados às famílias. O que existe é o balanço de uma companhia grande o bastante para que o mercado inteiro passe a ser descrito pelo que ela divulga.

Isso é um problema de método antes de ser um problema de número. Quando uma empresa vira a fonte de um setor, o setor passa a ter a forma da empresa. O preço dela vira o preço médio do setor, e o que ela não vende deixa de existir na conversa.

Quantas fontes primárias existem sobre academias no Brasil

São três, e nenhuma delas é uma estatística do setor. O cadastro de companhias abertas da CVM, consultado em 18 de agosto de 2026, devolve dois emissores ativos no ramo. O Cadastro Central de Empresas do IBGE conta empresas por classe de atividade. E a divulgação de resultados da companhia, documento de relações com investidores.

Os dois emissores ativos são a Smartfit Escola de Ginástica e Dança S.A., registrada como companhia aberta em 20 de outubro de 2017 e enquadrada na categoria A desde 9 de fevereiro de 2018, com registro em bolsa e em balcão organizado, e a Bluefit Academias de Ginástica e Participações S.A., registrada em 23 de setembro de 2021, categoria A, em balcão organizado. Houve uma terceira: a Self It Academias Holding S.A., de Recife, registrada em 13 de maio de 2022 e cancelada a pedido em 10 de fevereiro de 2023.

A distinção importa. Companhia aberta categoria A entrega demonstração financeira auditada e padronizada, com data de referência e versão. Empresa fechada não entrega nada. Das redes que operam no país, duas prestam contas em regime público.

O texto anterior desta série, a academia virou âncora de empreendimento, tratou de onde essas unidades são instaladas. Este trata do dinheiro.

A conta da companhia, linha por linha

A demonstração de resultado consolidada de 2025 da Smart Fit, entregue à CVM, registra receita líquida de R$ 7.241,7 milhões, resultado bruto de R$ 3.077,0 milhões e lucro líquido consolidado de R$ 640,5 milhões. A da Bluefit, no mesmo exercício, registra receita líquida de R$ 550,4 milhões e lucro líquido consolidado de R$ 13,0 milhões.

Os valores abaixo estão em milhões de reais e vêm das demonstrações financeiras padronizadas de 2025 nos dados abertos da CVM.

linha da demonstração consolidadaSmart FitBluefit
receita líquida de 20257.241,7550,4
receita líquida de 20245.580,3405,3
resultado bruto de 20253.077,0229,1
resultado antes do financeiro e dos tributos1.697,8119,8
resultado financeiromenos 953,4menos 99,8
lucro líquido consolidado de 2025640,513,0
pessoal, na demonstração do valor adicionado1.210,6129,4

A primeira leitura é de escala: a receita da Smart Fit é 13,2 vezes a da Bluefit em 2025. A segunda é de trajetória: a Smart Fit cresceu 29,8% no ano e a Bluefit cresceu 35,8%, partindo de uma base quase catorze vezes menor. A terceira parece a mais desconfortável e depende de uma norma contábil. Na demonstração auditada, o resultado financeiro consumiu 56,2% do resultado operacional da Smart Fit e 83,3% do da Bluefit. Mas R$ 514,9 milhões dos R$ 953,4 milhões da Smart Fit são juros de arrendamento reconhecidos pelo IFRS-16, isto é, aluguel de academia contabilizado como despesa financeira. Excluindo a norma, a proporção cai para 33,1%.

O mecanismo reaparece em qualquer companhia com muitos imóveis alugados. O IFRS-16, que no Brasil é o CPC 06 (R2), manda reconhecer o contrato de aluguel como ativo de direito de uso e passivo de arrendamento. O que era uma linha de aluguel dentro do custo vira depreciação do ativo mais juros do passivo. O EBITDA sobe, porque as duas parcelas ficam abaixo dele, e o resultado financeiro piora, porque recebe os juros. Em 2025, a diferença entre os dois regimes foi de R$ 1.152,3 milhões só no EBITDA da companhia.

É essa norma, e não um ajuste discricionário, que separa a manchete da demonstração. A companhia comunica lucro líquido recorrente de R$ 741 milhões em 2025 e EBITDA ajustado de R$ 2.292,0 milhões, e declara na primeira página da divulgação que apresenta os resultados sem o efeito do IFRS-16. A página 38 reconcilia os dois regimes: o lucro excluindo IFRS-16 é de R$ 738,4 milhões e o reportado na demonstração auditada é de R$ 640,5 milhões, de modo que os cerca de R$ 100 milhões de distância são R$ 97,8 milhões de norma de arrendamento e apenas R$ 2,6 milhões de recorrência. Na mesma tabela, o EBITDA reportado de 2025 é de R$ 3.455,0 milhões.

O parque foi declarado em 31 de dezembro de 2025: 2.084 academias em 16 países, sendo 1.683 próprias e 401 franquias, com 341 adições líquidas no ano. No Brasil são 984 unidades, das quais 693 próprias da marca Smart Fit, 259 franquias da mesma marca e 32 de Bio Ritmo e outras marcas, número obtido por diferença, já que a companhia publica 36 nessa linha em base mundial.

A divisão que parece ticket médio e não é

A conta é imediata e todo mundo faz. Receita líquida de R$ 7.241,7 milhões dividida por 5,21 milhões de clientes dá cerca de R$ 1.390 por cliente no ano, ou R$ 116 por mês. O número é aritmeticamente correto e não é o ticket médio da companhia. Os dois termos da divisão não medem o mesmo universo.

O numerador é receita consolidada de 16 países e inclui linhas que não vêm de mensalidade de aluno, como royalties de franquias e a receita de outras marcas do grupo, entre elas TotalPass, Queima Diária e Studios. O denominador é a base de clientes do canal direto ao consumidor em 31 de dezembro de 2025, que a companhia declara excluir os usuários chegados pelo agregador TotalPass.

O tamanho do que fica de fora é conhecido. O TotalPass encerrou 2025 com 1,7 milhão de usuários finais no Brasil e no México e mais de 40 mil estabelecimentos parceiros. Somar essa base à de 5,21 milhões seria errado por outro motivo: são usuários de um agregador com acesso a estabelecimentos de terceiros, não assinantes da rede.

O ticket médio em reais não é divulgado. A companhia publica apenas variação percentual: alta de 12% no consolidado da marca Smart Fit contra o quarto trimestre de 2024, com Brasil em 13%, México em 11% e demais países em 9%. Qualquer valor em reais atribuído a uma mensalidade média seria construído fora do documento.

O erro não está na conta, está em chamar o resultado de preço médio do mercado brasileiro de academias.

O que o Estado conta, e o número é outro

O IBGE registrou 65.346 empresas e outras organizações na classe 93.13-1 da CNAE 2.0, atividades de condicionamento físico, em 31 de dezembro de 2024, distribuídas em 69.138 unidades locais, com 229.547 pessoas ocupadas e R$ 3,10 bilhões pagos em salários e outras remunerações no ano. As 984 unidades brasileiras da maior companhia são 1,4% dessas unidades locais.

O tamanho típico do negócio sai da divisão: 3,5 pessoas ocupadas por empresa. Das 229.547 pessoas ocupadas, 141.426 são assalariadas e 88.121 não são, ou 38,4% do total, proporção que descreve sócio e proprietário trabalhando na própria operação. A classe responde por 0,62% das empresas brasileiras e 0,34% do pessoal ocupado do país.

A remuneração separa este setor da média. Dividindo a folha de R$ 3,10 bilhões pelas 141.426 pessoas assalariadas chega-se a cerca de R$ 1.828 por mês. O mesmo cálculo aplicado ao conjunto das empresas brasileiras em 2024 dá R$ 4.279. A classe paga 42,7% da média nacional pela mesma régua.

65.346
empresas e outras organizações de atividades de condicionamento físico ativas no Brasil em 31 de dezembro de 2024. O cadastro conta a empresa pela atividade principal declarada no CNPJ.
IBGE, Cadastro Central de Empresas de 2024, divulgado em junho de 2026
3,5
pessoas ocupadas por empresa, em média, na mesma classe: 229.547 pessoas para 65.346 empresas. Cálculo próprio sobre o cadastro do IBGE.
IBGE, Cadastro Central de Empresas de 2024, cálculo da amano
13,2 vezes
é a distância entre a receita líquida da Smart Fit e a da Bluefit em 2025, as duas únicas companhias do setor com registro ativo na CVM.
CVM, demonstrações financeiras padronizadas de 2025

A série mostra expansão rápida. As empresas passaram de 53.711 em 2022 para 65.346 em 2024, alta de 21,7%. O pessoal ocupado subiu 25,1%, de 183.443 para 229.547, e a folha subiu 57,1% em valores correntes, de R$ 1,97 bilhão para R$ 3,10 bilhões.

A distribuição por unidade da federação mostra um setor espalhado. O estado de São Paulo tem 16.229 empresas, ou 24,8% do país, e os outros 75,2% estão fora dele. Minas Gerais tem 7.347, Rio de Janeiro 4.828, Rio Grande do Sul 4.507, Paraná 4.456 e Santa Catarina 3.574. É a geografia que a amano descreveu em cidades médias e o novo mapa da riqueza e em o consumidor fora do eixo.

Os números de empresas, unidades locais, pessoal e salários vêm do Cadastro Central de Empresas do IBGE, ano de referência 2024, divulgado em 25 de junho de 2026, extraídos das tabelas 9418 e 9528 do SIDRA para a classe 93.13-1 da CNAE 2.0. O cadastro é construído a partir de registros administrativos, entre eles o CNPJ da Receita Federal, a RAIS e o eSocial, e o próprio IBGE declara que exclui os microempreendedores individuais, por serem dispensados desses registros. A estatística de cadastros de MEI do IBGE, tabela 9594 do SIDRA, não registra MEI na classe 93.13-1, de modo que essa exclusão não subconta esta classe. O cadastro conta a empresa pela atividade principal declarada e não publica receita por classe.

Onde a fonte primária não chega

A companhia que serve de fonte opera um segmento específico: preço acessível e alta escala. Fora do balanço dela ficam a academia de bairro, o estúdio de pilates, o box de crossfit, o personal trainer autônomo, a academia de condomínio e a rede regional. Descrever o mercado brasileiro pela Smart Fit é descrever uma pirâmide pelo topo.

A aritmética confirma a metáfora. As duas companhias com registro ativo na CVM declararam, no Formulário de Referência de 2026, 10.652 e 3.018 empregados no Brasil, somando 13.670 pessoas, contra 229.547 pessoas ocupadas na classe segundo o IBGE. Com a ressalva de que os anos de referência são distintos, as duas emissoras juntas empregam menos de 6% de quem trabalha no setor.

E há o que nem o cadastro alcança. O Cempre exclui o microempreendedor individual por construção, mas a estatística de cadastros de MEI do próprio IBGE, com 14,6 milhões de MEIs no país em 2022, não registra nenhum na classe 93.13-1, resultado consistente com o fato de que educação física é profissão regulamentada e profissão regulamentada não pode optar pelo MEI. Uma classe zerada dentro de uma estatística desse tamanho já é um dado estranho. O que fica fora do cadastro não é o MEI: é quem atende sem CNPJ e a operação registrada sob outra atividade principal.

Por que não existe um censo do setor

A associação do setor não publica censo próprio com metodologia aberta. A ACAD Brasil divulga e comenta pesquisas de terceiros, e as duas com número de academias que ela divulgou no último ano são um relatório internacional vendido por assinatura e um panorama setorial de uma empresa de feiras. Nenhum dos dois publica amostra e critério em acesso aberto.

O relatório internacional é o HFA Global Report de 2025, da Health & Fitness Association, vendido por US$ 299 a não associados. A metodologia publicada informa pesquisa com operadores entre fevereiro e junho de 2025, mais de 200 empresas respondentes e cerca de 30 países. É resposta voluntária de operador, não estatística oficial.

O panorama nacional é a 4ª edição do Panorama Setorial da Fitness Brasil, anunciada em 27 de novembro de 2025. As fontes declaradas no anúncio são conselhos profissionais, CNAEs, os participantes da feira da própria empresa e um questionário de gestores. Parte da base é autosseleção de expositor.

A informação mais confiável do setor é produzida por quem tem obrigação legal de produzi-la, e quem tem essa obrigação é uma empresa. A companhia cumpre a norma e escreve com precisão o que faz e o que não faz. O problema aparece quando o documento dela é lido como retrato de um mercado que ela nunca se propôs a medir.

O que muda quando uma empresa vira a régua

Muda o que se considera normal. Se a única conta aberta é a de uma rede de preço acessível e alta escala, o preço dela vira referência de mercado e o cliente dela vira o cliente do setor. Quem opera outro segmento passa a se explicar contra uma régua que não foi feita para medi-lo.

Para quem toma decisão, a consequência é operacional. Um estúdio com 40 alunos e três professores não concorre com a rede de 984 endereços, mas será comparado a ela em preço por um cliente que só viu esse número publicado. A resposta não é disputar a régua. É publicar a própria.

Para quem escreve sobre o setor, a disciplina é outra. Quando a frase começa com o mercado brasileiro de academias, vale perguntar de onde veio o número que vem depois, e sob qual norma ele foi montado, porque em rede de imóvel alugado dois regimes contábeis produzem dois lucros diferentes para o mesmo ano.

A afirmação central deste texto cabe em uma linha: o mercado brasileiro de academias tem 65.346 empresas segundo o Estado e uma conta aberta segundo o mercado de capitais, e confundir as duas coisas é a forma mais comum de errar sobre o setor inteiro.

perguntas frequentes

quantas academias existem no Brasil?

Não há censo público. O que existe é o Cadastro Central de Empresas do IBGE, que registrou 65.346 empresas e outras organizações na classe de atividades de condicionamento físico em 31 de dezembro de 2024, distribuídas em 69.138 unidades locais. O cadastro exclui microempreendedores individuais, mas a estatística de MEI do próprio IBGE não registra nenhum MEI nesta classe.

qual foi o faturamento da Smart Fit em 2025?

A receita líquida consolidada foi de R$ 7.241,7 milhões em 2025, contra R$ 5.580,3 milhões em 2024, alta de 29,8%. O valor está na demonstração de resultado consolidada entregue à CVM e cobre a operação em 16 países, não apenas a brasileira.

dá para calcular o ticket médio de uma academia pela receita da companhia?

Não. Dividir R$ 7.241,7 milhões por 5,21 milhões de clientes dá cerca de R$ 116 por mês, mas a receita é consolidada de 16 países e inclui franquias, enquanto a base de clientes é só do canal direto e exclui quem entra por agregador. Os dois números têm perímetros diferentes.

existe outra companhia de academias com balanço público no Brasil?

Sim, uma. A Bluefit Academias de Ginástica e Participações é companhia aberta categoria A registrada na CVM desde setembro de 2021, com registro em balcão organizado, e declarou receita líquida de R$ 550,4 milhões em 2025. A Self It registrou-se em 2022 e cancelou o registro em fevereiro de 2023.

quanto paga o setor de academias no Brasil?

A folha da classe de condicionamento físico somou R$ 3,10 bilhões em 2024, segundo o IBGE, para 141.426 pessoas assalariadas. Dividindo uma coisa pela outra dá cerca de R$ 1.828 por mês, contra R$ 4.279 pelo mesmo cálculo aplicado ao conjunto das empresas brasileiras.

Retrato de Marcus Yabe
sobre o autor

Marcus Yabe

sócio-fundador · estratégia e criatividade

Trabalha no encontro entre estratégia, comunicação, negócios, conteúdo e relações. Foi CEO do LIDE Paraná, diretor executivo da Paraná Business e publisher da TOPVIEW.

fontes
  1. Comissão de Valores Mobiliários, Demonstrações Financeiras Padronizadas de 2025, dados abertos, arquivo consolidado das companhias abertas
  2. Comissão de Valores Mobiliários, cadastro de companhias abertas, dados abertos
  3. Comissão de Valores Mobiliários, Formulário de Referência de 2026, dados abertos, quadros de empregados por região
  4. IBGE, Cadastro Central de Empresas, tabela 9418 do SIDRA, empresas, pessoal ocupado e salários por classe da CNAE 2.0
  5. IBGE, Cadastro Central de Empresas, tabela 9528 do SIDRA, unidades locais por classe da CNAE 2.0
  6. IBGE, Estatísticas dos Cadastros de Microempreendedores Individuais, tabela 9594 do SIDRA, MEIs por classe da CNAE 2.0
  7. IBGE, Agência de Notícias, Cresce o número de empresas no país em 2024, mas salário médio fica estável, 25 de junho de 2026
  8. Smart Fit, divulgação de resultados de 2025 e do quarto trimestre de 2025, 11 de março de 2026, com webinar em 12 de março de 2026
  9. Health & Fitness Association, The 2025 HFA Global Report, publicação vendida por US$ 299 a não associados
  10. Health & Fitness Association, 2025 Global Fitness Industry Report Shows Record Growth and What's Next for the Market
  11. ACAD Brasil, Fitness Brasil lança 4ª edição do Panorama Setorial, 27 de novembro de 2025
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