Duas mãos passando um prato raso sobre a mesa, com uma caixa fechada na ponta
← artigos
tendências

o que é a economia da experiência

O bolo não cresceu. A ordem de prioridade dentro dele mudou.

por Marcus Yabe · publicado em · atualizado em · leitura de 8 minutos

A economia da experiência é o arranjo em que o valor econômico se desloca do bem durável para o acontecimento: o jantar, a viagem, o encontro, a temporada. Não é novidade conceitual, é mudança de prioridade dentro do mesmo orçamento. Entre 2022 e 2025, o gasto com experiências cresceu 2,6% ao ano contra 0,8% dos bens não essenciais, segundo a Bain & Company. É vantagem consistente, e é menor do que o discurso em torno dela sugere.

Convém começar pela parte que quase ninguém escreve. Existe uma indústria inteira vendendo a ideia de que o objeto morreu e a experiência venceu, e boa parte do entusiasmo em torno da palavra vem justamente de quem vende experiência. O dado sólido é mais modesto que o slogan.

O que mudou de verdade não é o tamanho do bolo. É a ordem de prioridade dentro dele.

Por que o gasto mudou de lugar

O gasto migrou porque o objeto perdeu a função de prova. Quando qualquer imagem circula sem custo e qualquer réplica chega em uma semana, comprar deixa de distinguir e ter estado em algum lugar passa a distinguir. A experiência é a única compra que não se fotografa por inteiro, não se replica e não se transfere.

O placar aparece nos números do luxo, que é onde a mudança se manifesta primeiro. O mercado global de bens pessoais de luxo recuou para €358 bilhões em 2025, uma queda de 2% em taxas correntes, enquanto o agregado experiencial seguiu subindo. Parte dessa queda é efeito de câmbio, não de volume, e vale registrar isso antes que alguém use o número para anunciar o fim de uma era.

Em 2026, a Bain & Company e a Altagamma medem que o sentimento do consumidor de luxo em relação a experiências cresce 1,5 vez mais rápido que em relação a bens tangíveis. Sentimento, não gasto: é direção de desejo, e o desejo costuma chegar antes da fatura.

A escala global do fenômeno é grande e conhecida. Viagens e turismo somaram US$ 11,6 trilhões em 2025, ou 9,8% da economia mundial, segundo o World Travel & Tourism Council. O número impressiona e explica pouco, porque turismo sempre foi grande. O que interessa a quem constrói marca não é o agregado, é o deslocamento dentro do orçamento de quem já podia escolher.

Há um segundo motor, e ele é de atenção. A permanência média diante de uma tela caiu para 47 segundos antes da troca de janela, e o adulto conectado brasileiro consome 53 horas e 30 minutos de mídia online por semana, quase 60% acima da média mundial de 33 horas e 30 minutos, o quarto maior consumo do planeta. Num ambiente assim, a hora inteira que alguém passa sentado à mesa sem sair da conversa deixou de ser cortesia e virou o bem mais escasso que uma marca pode oferecer.

O tamanho real da economia da experiência no Brasil

No Brasil, a economia da experiência é maior do que a economia criativa e quase ninguém a mede como setor. Só o setor de eventos movimentou R$ 813,5 bilhões em 2024, equivalentes a 4,6% do PIB, com 12,7 milhões de postos de trabalho. É uma vez e meia a fatia da indústria criativa, que a Firjan calcula em 3,59% do PIB.

4,6%
A fatia do setor de eventos no PIB brasileiro em 2024: R$ 813,5 bilhões, mais de 10 milhões de eventos e 1,7 bilhão de participações de público.
Observatório da Indústria do Senai Ceará, Sebrae e Abeoc Brasil, 2025
29,5%
A fatia do gasto do turista estrangeiro no Brasil que vai para restaurantes e bares. É proporção maior que a de hospedagem.
Ministério do Turismo
2,6% vs 0,8%
Crescimento anual do gasto com experiências contra o de bens não essenciais, entre 2022 e 2025.
Bain & Company, via report de tendências da amano

O setor de serviços brasileiro acumulava, em abril de 2026, o vigésimo quinto mês consecutivo de alta na comparação anual, com avanço de 2,9% em doze meses. Serviços prestados às famílias, que reúnem alojamento e alimentação, subiram 2,7% sobre abril de 2025. Fonte: IBGE, Pesquisa Mensal de Serviços.

A linha dos 29,5% é a mais reveladora das três, e é brasileira. Quase um terço de tudo que o estrangeiro gasta aqui vai para restaurante e bar, proporção maior que a de hospedagem. O país vende comida melhor do que vende hotel, e vende conversa melhor do que vende passeio.

Vale medir o que significam os R$ 813,5 bilhões do setor de eventos, porque o número é grande o bastante para soar abstrato. São mais de 10 milhões de eventos por ano e cerca de 1,7 bilhão de participações de público, num levantamento que entrevistou 1.108 empresas ao longo de quinze meses e cruzou os resultados com as bases da Receita Federal e do Ministério do Trabalho. Não é estimativa de mercado feita por quem vende evento. É censo.

Para quem opera marca, isso reposiciona a mesa. Ela não é o brinde no fim do projeto. Ela é o produto.

O entusiasmo é maior que o dado

Três ressalvas separam a análise honesta do folheto. Experiência é palavra elástica e mal delimitada. Intenção declarada não é gasto realizado. E crescimento de volume não é crescimento de margem: o Brasil bateu recorde de turistas em 2025 e não bateu recorde de receita por visitante.

A primeira ressalva é de definição. Se experiência é tudo que não é objeto, o conceito abrange desde um jantar de doze lugares até uma corrida de aplicativo, e para de servir para decidir qualquer coisa. Quando o termo cabe em tudo, ele não separa nada.

A segunda é metodológica. Pesquisas declarativas que mostram maiorias confortáveis de brasileiros preferindo gastar com viagem a comprar objeto costumam vir de fonte comercial e medem intenção, não extrato bancário. Servem como direção, nunca como medida.

A terceira é a que mais custa dinheiro a quem ignora. O Brasil recebeu 9,29 milhões de turistas internacionais em 2025, recorde da série histórica, que deixaram US$ 7,9 bilhões, segundo o Ministério do Turismo. Vieram em massa e gastaram menos por cabeça. Recorde de chegadas não virou recorde de receita por visitante, e essa é exatamente a armadilha de quem persegue volume num mercado cuja lógica é de densidade.

Experiência não é evento

A confusão entre os dois custa orçamento. Evento é formato, com data, público e produção. Experiência é o que o participante leva embora. Ocasião é a terceira coisa, e a mais rentável: o contexto em que um objeto estreia e passa a significar. Marcas gastam com evento, cobram por experiência e esquecem de construir ocasião.

termoo que écomo se mede
eventoum formato com data, produção e públicopresença, custo por convidado, alcance
experiênciao que o participante leva quando sailembrança, retorno, quem ele trouxe junto
ocasiãoo contexto que dá sentido a um objetopreço que a peça sustenta depois

O erro mais comum é tratar o evento como despesa de marketing e a experiência como consequência automática dele. Não é. Feira de oitocentas pessoas produz presença e quase nenhuma lembrança. Mesa de oito produz o contrário.

Há dado para isso mesmo no lado corporativo, onde a lógica de escala costuma prevalecer. São Paulo sediou 1.511 eventos de grande porte em 2025, um aumento de 22% sobre o ano anterior, movimentando cerca de R$ 14 bilhões, segundo o Barômetro Eventos B2B da Ubrafe e da São Paulo Turismo. O setor cresce em número. A pergunta que quase nenhum patrocinador faz é quantos daqueles 1.511 alguém lembra de ter frequentado.

Por que a experiência sustenta preço que o produto sozinho não sustenta

A experiência sustenta preço porque não se estoca, não se compara e não se descontinua. Não há tabela para jantar em uma casa em que só doze pessoas por ano jantam. Onde falta parâmetro de comparação, o preço deixa de ser negociado contra concorrente e passa a ser avaliado contra o que a pessoa sentiu que ganhou.

É a mesma razão pela qual a hospitalidade migrou do hotel para praticamente todo setor que quer ser lembrado. Receber bem virou vantagem competitiva mensurável porque é a única parte da oferta que o concorrente não consegue engenharia reversa a partir do produto acabado.

Mas existe uma condição, e ela é dura: a experiência precisa ser consequência do que a marca já é, não fantasia paralela. Marca de móvel que faz jantar sem que o jantar diga algo sobre o móvel gastou com festa. Marca de móvel que serve numa mesa que ela mesma desenhou, para quem especifica mesas, fez negócio. A diferença não está no orçamento, está no encaixe.

O que muda na prática para quem constrói marca

Cinco deslocamentos organizam a passagem. Ancorar o objeto numa ocasião em vez de abandoná-lo; trocar alcance por densidade; desenhar a lembrança e não só o roteiro; tratar a mesa como produto e não como cortesia; e medir retorno, não presença. Nenhum deles exige mais orçamento. Todos exigem mais critério.

  1. Ancorar o objeto, não abandoná-lo. Quem vende objeto passou a competir com quem vende ocasião, e a saída não é parar de vender objeto. É ancorá-lo: a peça que estreia num jantar, a coleção que aparece numa residência, o material que se conhece tocando.
  2. Trocar alcance por densidade. Encontro pequeno e curado converte melhor que evento grande. O recorde de chegadas de turistas em 2025 sem recorde de receita por visitante é a demonstração macroeconômica dessa mesma lição.
  3. Desenhar a lembrança. O participante não guarda a duração inteira, guarda picos e finais. Uma experiência bem desenhada decide antecipadamente qual será o pico e como será o fim, em vez de esperar que aconteçam.
  4. Tratar a mesa como produto. Se quase um terço do gasto turístico no Brasil vai para restaurante e bar, a refeição não é o brinde do projeto. É o canal com maior aderência cultural que o país oferece a uma marca.
  5. Medir retorno, não presença. A métrica de evento é quantos vieram. A métrica de experiência é quantos voltaram e quantos trouxeram alguém. A segunda é mais difícil de coletar e é a única que prevê receita recorrente.

A experiência é o único produto que não se estoca

A economia da experiência não substituiu a economia dos bens. Reordenou a prioridade dentro do mesmo orçamento e mudou a pergunta que a marca precisa responder. Deixou de ser o que você fabrica e passou a ser em que ocasião aquilo aparece, para quem, e o que essa pessoa leva quando vai embora.

Isso tem uma consequência incômoda para quem opera por campanha. Experiência não se produz em lote, não se guarda em estoque e não se recupera no trimestre seguinte. Ou aconteceu naquela noite, ou não aconteceu. É por isso que a competência de receber, que parecia decoração, virou infraestrutura de negócio.

E é por isso que a mesa voltou ao centro. Não porque é bonita, mas porque é onde o objeto ganha contexto, o preço ganha justificativa e a relação ganha memória.

perguntas frequentes

O que é a economia da experiência?

A economia da experiência é o arranjo em que o valor econômico se desloca do bem durável para o acontecimento: o jantar, a viagem, o encontro, a temporada. O consumidor não deixa de comprar objetos, mas passa a priorizar, dentro do mesmo orçamento, aquilo que vive em vez do que estoca.

A economia da experiência substituiu a economia dos bens?

Não. Entre 2022 e 2025 o gasto com experiências cresceu 2,6% ao ano contra 0,8% dos bens não essenciais, segundo a Bain & Company. É vantagem consistente, não virada de mesa. O que mudou não é o tamanho do bolo, é a ordem de prioridade dentro dele.

Qual o tamanho da economia da experiência no Brasil?

Só o setor de eventos movimentou R$ 813,5 bilhões em 2024, equivalentes a 4,6% do PIB, com 12,7 milhões de postos de trabalho, segundo levantamento do Observatório da Indústria do Senai Ceará com Sebrae e Abeoc Brasil. É mais que a fatia da indústria criativa, que a Firjan calcula em 3,59%.

Qual a diferença entre evento e experiência?

Evento é formato: tem data, produção e público, e se mede por presença. Experiência é o que o participante leva quando sai, e se mede por retorno. Ocasião é a terceira coisa e a mais rentável: o contexto em que um objeto estreia e passa a significar.

Por que a experiência sustenta preço mais alto?

Porque não se estoca, não se compara e não se descontinua. Onde falta parâmetro de comparação, o preço deixa de ser negociado contra concorrente e passa a ser avaliado contra o que a pessoa sentiu que ganhou.

Retrato de Marcus Yabe
sobre o autor

Marcus Yabe

sócio-fundador · estratégia e criatividade

Trabalha no encontro entre estratégia, comunicação, negócios, conteúdo e relações. Foi CEO do LIDE Paraná, diretor executivo da Paraná Business e publisher da TOPVIEW.

fontes
  1. amano casa criativa. Report de tendências, seção 03, 2026. ↗
  2. Bain & Company e Fondazione Altagamma. Luxury Goods Worldwide Market Study, 2026. ↗
  3. Observatório da Indústria do Senai Ceará, Sebrae e Abeoc Brasil. III Dimensionamento Econômico do Setor de Eventos no Brasil, 2025 (dados de 2024). ↗
  4. IBGE. Pesquisa Mensal de Serviços, abril de 2026. ↗
  5. Ministério do Turismo. Dados de gasto e chegadas de turistas internacionais, 2025. ↗
  6. World Travel & Tourism Council. Economic Impact Research, 2025. ↗
  7. Ubrafe e São Paulo Turismo. Barômetro Eventos B2B, 2025. ↗
continue

O tema não termina aqui.

report · tendências

A página-pilar deste conjunto: economia criativa, economia da experiência, design e cidade.

pilar do tema

o que é a economia da experiência

O mecanismo econômico por trás do deslocamento: por que se paga por vivência e não por bem.

artigo

identidade latino-americana

O primeiro report publicado, sobre design latino-americano e percepção de valor.

report
conhecer a frente OFÍCIO