
Um quarto do peso exportado, menos de um quinto do dinheiro.
O polo moveleiro do Paraná é o segundo maior empregador da fabricação de móveis no Brasil e apenas o quarto exportador em dólar. A distância entre as duas posições está no preço: o quilo de móvel embarcado pelo estado saiu a US$ 1,84 em 2025, contra US$ 2,56 da média nacional e US$ 4,37 pagos pelo quilo que o Brasil importou no mesmo capítulo. Fonte: Comex Stat, MDIC, e IBGE, Cempre.
A hipótese que abriu esta apuração era a de que o Paraná é potência moveleira que se apresenta como fornecedor. Ela não caiu. Ficou mais nítida, e mais desconfortável, porque o dado que a sustenta não é uma impressão de mercado: é o quociente entre duas colunas da mesma declaração aduaneira, valor e peso, disponível ano a ano desde 1997.
Este texto não repete o artigo desta casa sobre o Salone del Mobile, que tratou do custo de expor em Milão e do que a alfândega diz sobre a venda brasileira para a Europa. Aqui o recorte é interno: qual estado embarca o quê, por qual preço, e para onde. A pergunta não é se o móvel brasileiro chega lá fora. É quanto ele vale quando chega.
Uma advertência de método antes dos números. Preço médio por quilo é medida grosseira: mistura material, tamanho, acabamento e a decisão de despachar montado ou desmontado. Serve para comparar, não para julgar. E é comparando que ela fica interessante, porque o Paraná tem vizinhos que fabricam a mesma coisa.
Em 2025 o Paraná exportou US$ 171,51 milhões do capítulo 94 da NCM, que reúne móveis, iluminação, colchões e construções pré-fabricadas, e embarcou 93,13 mil toneladas. Isso dá US$ 1,842 por quilo. O Brasil inteiro exportou US$ 974,16 milhões e 380,78 mil toneladas no mesmo capítulo, ou US$ 2,558 por quilo.
Traduzido: o Paraná respondeu por 24,46% do peso exportado pelo Brasil no capítulo e por 17,61% do valor. Embarca um quarto da carga e leva menos de um quinto do dinheiro. É a definição operacional de fornecedor de volume, e ela vem da própria declaração de exportação, não de interpretação.
A diferença não é conjuntural. Em 2015 o estado já embarcava 19,68% do peso e recebia 13,31% do valor. Em dez anos o Paraná ganhou participação nas duas medidas, e ganhou mais no peso do que no dinheiro. O preço do quilo subiu de US$ 1,583 para US$ 1,842 em dólares correntes, enquanto a média brasileira foi de US$ 2,340 para US$ 2,558.
O Cadastro Central de Empresas do IBGE contou 5.583 unidades locais de fabricação de móveis no Paraná em 2024, com 46.795 pessoas ocupadas. Em pessoal ocupado o estado só perde para São Paulo, que tinha 69.483, e passa à frente do Rio Grande do Sul, com 46.096, e de Santa Catarina, com 34.415.
O Paraná tem, portanto, 15,07% do emprego moveleiro brasileiro e 14,35% dos estabelecimentos, contra 17,61% do valor exportado no capítulo 94 e 24,46% do peso. Emprego alto e valor por quilo baixo descrevem a mesma indústria vista de dois ângulos: muita gente produzindo muita peça de densidade de valor baixa.
A folha confirma a leitura. Dividindo salários e outras remunerações pelo pessoal ocupado, o setor pagou R$ 31.902 por pessoa no ano no Paraná em 2024, contra R$ 37.192 no Rio Grande do Sul e R$ 32.271 em São Paulo. Santa Catarina, que exporta mais caro por quilo, pagou menos, R$ 29.392, o que já avisa que a relação entre preço de exportação e salário não é direta.
| Estado | Pessoal ocupado em móveis, 2024 | Exportação do capítulo 94, 2025 | US$ por quilo | Principal destino |
|---|---|---|---|---|
| São Paulo | 69.483 | US$ 212,73 mi | 8,23 | partes de assento, mercado automotivo |
| Paraná | 46.795 | US$ 171,51 mi | 1,84 | Argentina, 17,7% |
| Rio Grande do Sul | 46.096 | US$ 268,13 mi | 1,89 | Uruguai, 16,9% |
| Minas Gerais | 40.995 | US$ 26,71 mi | 4,76 | volume pequeno, média instável |
| Santa Catarina | 34.415 | US$ 275,34 mi | 2,50 | Estados Unidos, 37,6% |
O preço de São Paulo não é comparável ao dos demais. Quase um quarto do valor paulista no capítulo 94 vem de partes de assento para veículos, a US$ 20,40 por quilo, e de construções pré-fabricadas. No recorte estreito de móveis publicado pela Abimóvel com o IEMI, referente a janeiro a dezembro de 2025, São Paulo cai para 13,4% da exportação nacional e o Paraná sobe para 18,7%, atrás de Santa Catarina, com 33,2%, e do Rio Grande do Sul, com 31,6%. Fonte: Comex Stat, MDIC, 2026, e Abimóvel e IEMI, boletim de conjuntura, janeiro de 2026.
Os dois maiores municípios exportadores de móveis do Brasil em 2025 foram São Bento do Sul, em Santa Catarina, com US$ 73,38 milhões, e Arapongas, no Paraná, com US$ 62,79 milhões. São Bento do Sul recebeu US$ 2,844 por quilo. Arapongas recebeu US$ 1,214. A diferença é de 2,34 vezes, no mesmo capítulo da mesma tabela aduaneira.
Arapongas é a cidade moveleira do estado e não há disputa quanto a isso. O Cempre contou ali 444 unidades locais e 11.032 pessoas ocupadas na fabricação de móveis em 2024, quase um quarto de todo o pessoal do setor no Paraná. A cidade tinha população estimada em 123.863 pessoas pelo IBGE no mesmo ano. Uma em cada onze pessoas do município trabalha em móvel.
Para dimensionar: Arapongas sozinha emprega mais gente na fabricação de móveis do que o estado da Bahia inteiro, que tinha 9.721 pessoas ocupadas, e do que o Rio de Janeiro, com 7.556. É concentração industrial de ordem europeia dentro de um município de porte médio.
A série de dez anos mostra duas estratégias opostas. Arapongas passou de 32,05 mil toneladas exportadas em 2015 para 51,71 mil em 2025, alta de 61,4%, com o quilo subindo de US$ 1,060 para US$ 1,214. São Bento do Sul fez o inverso: o peso caiu de 35,27 mil para 25,80 mil toneladas, queda de 26,9%, e o quilo subiu de US$ 2,409 para US$ 2,844. Um município comprou volume, o outro comprou preço.
A América Latina absorveu 77,0% do valor exportado pelo Paraná no capítulo 94 em 2025. Argentina, 17,7%, Uruguai, 11,7%, Paraguai, 9,7%, Chile, 6,0% e Peru, 5,5%, formam o núcleo. Os Estados Unidos ficaram com 10,3%. Em Santa Catarina a distribuição é quase oposta: 37,6% para os Estados Unidos e 23,9% para a América Latina.
A conta de América Latina usada aqui soma Argentina, Bolívia, Chile, Colômbia, Costa Rica, Cuba, El Salvador, Equador, Guatemala, Honduras, México, Nicarágua, Panamá, Paraguai, Peru, República Dominicana, Uruguai e Venezuela. O agrupamento não é uma categoria oficial do Comex Stat, foi montado país a país a partir da própria consulta, e o México é o item que mais muda o resultado: sem ele, os 77,0% do Paraná viram 75,7% e os 23,9% de Santa Catarina viram 22,9%.
O destino explica boa parte do intervalo de preço, e explicar não é desculpar. O quilo que o Paraná vendeu ao Chile saiu a US$ 1,11 e ao Peru a US$ 1,07. O que vendeu aos Estados Unidos saiu a US$ 4,28, quase quatro vezes mais. O estado tem, dentro da própria pauta, a prova de que consegue vender caro quando vende para quem paga caro.
Há uma leitura estratégica legítima do mapa atual. Vizinhança de fuso e de idioma, frete curto, ciclo de pedido rápido e menor exposição regulatória são vantagens reais, e o report latin america in focus, desta casa, trata do crescimento da classe média latino-americana e do que ela passou a comprar. Vender para a região não é erro. O problema é quando a região é a única resposta possível, porque aí o preço deixa de ser escolha.
Em 2025 o Brasil importou US$ 1.401,05 milhões do capítulo 94, em 320,44 mil toneladas, o que dá US$ 4,372 por quilo. O país compra a US$ 4,37 e o Paraná vende a US$ 1,84. A conta vale como espelho, não como acusação: são cestas de produto diferentes, e o capítulo importado tem muita iluminação e muito assento automotivo.
Por isso vale estreitar o recorte para a posição 9403, que reúne os demais móveis e é onde o Paraná concentra 68,2% do que exporta. Nessa posição o Paraná embarcou a US$ 1,409 por quilo em 2025, Santa Catarina a US$ 2,342 e o Rio Grande do Sul a US$ 1,574. O Brasil importou a mesma posição a US$ 3,073 por quilo.
Esse US$ 3,073 precisa de uma correção antes de virar argumento. A segunda maior origem da posição 9403 em valor não é a Itália nem a Alemanha: é a Áustria, com US$ 30,19 milhões, 21,4% de tudo o que o Brasil importou na posição, em apenas 62,4 toneladas. Dá US$ 484,00 por quilo, e quase todo esse valor está em uma linha só, a NCM 9403.70.00, móveis de plásticos, a US$ 794 por quilo. Uma origem de peso irrisório carrega um quinto do valor da posição.
Retirando a Áustria da conta, o quilo importado da posição 9403 cai de US$ 3,073 para US$ 2,418, e a razão entre o que o Brasil paga e o que o Paraná recebe cai de 2,2 para 1,7. A leitura honesta é essa: a razão fica entre 1,7 e 2,2, conforme se inclua ou não uma origem atípica. No capítulo 94 inteiro a Áustria quase não pesa, e a média importada passa de US$ 4,372 para US$ 4,271, o que preserva o contraste da abertura.
Dentro do intervalo, a origem decide o preço. Da China, que responde por 53,7% do valor importado na posição 9403, o móvel chegou a US$ 1,86 por quilo, quase o mesmo preço a que o Paraná exporta. Da Itália, 7,0% do valor, chegou a US$ 29,26. As duas pontas altas merecem a mesma ressalva: Áustria e Itália somam 62,4 e 336,3 toneladas contra 40.721 toneladas chinesas, média de pouco volume é instável, e parte do prêmio é composição de produto, não reputação. Ainda assim a ordem de grandeza responde à pergunta que interessa: existe um intervalo de vinte vezes dentro da mesma posição tarifária, e ele é ocupado por alguém.
Preço por quilo não mede marca. Mede densidade de valor da carga. Um guarda-roupa desmontado em MDF é pesado e barato por quilo por razões físicas, não por falta de identidade. Qualquer conclusão sobre posicionamento tirada apenas dessa razão está exagerando o que o dado permite dizer.
A limitação mais séria é outra, e é estrutural. A declaração aduaneira registra NCM, peso, valor, país de destino e unidade da federação de produção. Não registra sob qual marca a peça será vendida na loja do outro lado. Não existe, em fonte pública brasileira, série que separe exportação de marca própria de exportação para terceiros. O número que fecharia esta discussão não existe.
Há ainda um detalhe técnico que muda a leitura municipal. No Comex Stat, o recorte por unidade da federação segue o estado de produção, e o recorte por município segue o domicílio fiscal da empresa exportadora. Por isso a soma dos municípios paranaenses, US$ 158,47 milhões, é menor que os US$ 171,51 milhões atribuídos ao estado. Os dois números estão certos e medem coisas ligeiramente diferentes.
Uma fonte que a pauta previa não entregou. O Ipardes mantém o Perfil dos Municípios em painel interativo e não publica série aberta de indústria moveleira por município em formato consultável; o antigo endereço da base de dados do estado não respondeu nas consultas de agosto de 2026. Tudo o que este texto afirma sobre o Paraná veio de IBGE e Comex Stat, que são federais.
A tese sobrevive à checagem, com uma correção importante: o Paraná não é fornecedor por incapacidade, é fornecedor por composição de destino e de produto. Santa Catarina cobra 36% mais por quilo no mesmo capítulo vendendo mais para os Estados Unidos e para a Europa. O próprio Paraná cobra US$ 4,28 por quilo quando vende para lá.
Isso desloca a conversa. A pergunta útil não é como o móvel paranaense fica melhor, porque ele já é bom o bastante para atravessar a alfândega americana a mais que o dobro do preço médio do estado. A pergunta é quanto do embarque cabe nesse regime e o que precisa existir antes: catálogo com preço em moeda forte, cadeia de custódia da madeira documentada, capacidade de repetição com prazo e alguém do outro lado que saiba o nome de quem fabricou.
O Paraná embarca um quarto do peso e leva menos de um quinto do dinheiro. Enquanto for assim, o estado será citado nos números do setor e não nas etiquetas dos móveis.
Quarta em valor e terceira em peso. Em 2025 o estado exportou US$ 171,51 milhões do capítulo 94 da NCM, atrás de Santa Catarina, Rio Grande do Sul e São Paulo, e embarcou 93,13 mil toneladas, atrás apenas do Rio Grande do Sul e de Santa Catarina. Fonte: Comex Stat, MDIC, 2026.
US$ 1,84 em 2025, no capítulo 94 da NCM, contra US$ 2,56 da média brasileira e US$ 2,50 de Santa Catarina. Considerando só a posição 9403, que reúne os demais móveis, o quilo paranaense sai a US$ 1,41 e o catarinense a US$ 2,34. Fonte: Comex Stat, MDIC, 2026.
46.795 pessoas ocupadas em 5.583 unidades locais de fabricação de móveis em 2024, segundo o Cadastro Central de Empresas do IBGE. É o segundo maior contingente do país, atrás de São Paulo, que tinha 69.483, e à frente do Rio Grande do Sul, com 46.096. Fonte: IBGE, Cempre, 2024.
Arapongas, no norte do estado. O município concentrava 11.032 pessoas ocupadas na fabricação de móveis em 2024, quase um quarto do total paranaense, e exportou US$ 62,79 milhões do capítulo 94 em 2025, o segundo maior volume municipal do Brasil. A população estimada era de 123.863 pessoas. Fonte: IBGE e Comex Stat.
Não. Mede densidade de valor da carga, e essa densidade responde a material, a design, a destino e ao fato de o móvel viajar montado ou desmontado. A alfândega não registra sob qual marca a peça é vendida no destino. Nenhuma fonte pública brasileira registra isso.

Trabalha no encontro entre estratégia, comunicação, negócios, conteúdo e relações. Foi CEO do LIDE Paraná, diretor executivo da Paraná Business e publisher da TOPVIEW.
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Design latino-americano, tradução cultural e percepção de valor no mercado internacional.
O outro caminho do mesmo móvel: o que muda quando ele vai como marca.
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