Caixote de madeira aberto sobre a mesa, com uma cadeira montada encostada ao lado
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o polo moveleiro do paraná

Um quarto do peso exportado, menos de um quinto do dinheiro.

por Marcus Yabe · publicado em · atualizado em · leitura de 10 minutos

O polo moveleiro do Paraná é o segundo maior empregador da fabricação de móveis no Brasil e apenas o quarto exportador em dólar. A distância entre as duas posições está no preço: o quilo de móvel embarcado pelo estado saiu a US$ 1,84 em 2025, contra US$ 2,56 da média nacional e US$ 4,37 pagos pelo quilo que o Brasil importou no mesmo capítulo. Fonte: Comex Stat, MDIC, e IBGE, Cempre.

A hipótese que abriu esta apuração era a de que o Paraná é potência moveleira que se apresenta como fornecedor. Ela não caiu. Ficou mais nítida, e mais desconfortável, porque o dado que a sustenta não é uma impressão de mercado: é o quociente entre duas colunas da mesma declaração aduaneira, valor e peso, disponível ano a ano desde 1997.

Este texto não repete o artigo desta casa sobre o Salone del Mobile, que tratou do custo de expor em Milão e do que a alfândega diz sobre a venda brasileira para a Europa. Aqui o recorte é interno: qual estado embarca o quê, por qual preço, e para onde. A pergunta não é se o móvel brasileiro chega lá fora. É quanto ele vale quando chega.

Uma advertência de método antes dos números. Preço médio por quilo é medida grosseira: mistura material, tamanho, acabamento e a decisão de despachar montado ou desmontado. Serve para comparar, não para julgar. E é comparando que ela fica interessante, porque o Paraná tem vizinhos que fabricam a mesma coisa.

Quanto vale o quilo de móvel que sai do Paraná

Em 2025 o Paraná exportou US$ 171,51 milhões do capítulo 94 da NCM, que reúne móveis, iluminação, colchões e construções pré-fabricadas, e embarcou 93,13 mil toneladas. Isso dá US$ 1,842 por quilo. O Brasil inteiro exportou US$ 974,16 milhões e 380,78 mil toneladas no mesmo capítulo, ou US$ 2,558 por quilo.

Traduzido: o Paraná respondeu por 24,46% do peso exportado pelo Brasil no capítulo e por 17,61% do valor. Embarca um quarto da carga e leva menos de um quinto do dinheiro. É a definição operacional de fornecedor de volume, e ela vem da própria declaração de exportação, não de interpretação.

A diferença não é conjuntural. Em 2015 o estado já embarcava 19,68% do peso e recebia 13,31% do valor. Em dez anos o Paraná ganhou participação nas duas medidas, e ganhou mais no peso do que no dinheiro. O preço do quilo subiu de US$ 1,583 para US$ 1,842 em dólares correntes, enquanto a média brasileira foi de US$ 2,340 para US$ 2,558.

US$ 1,84
Preço médio do quilo exportado pelo Paraná no capítulo 94 da NCM em 2025, contra US$ 2,56 da média brasileira.
Comex Stat, MDIC, 2026
2,4×
Quanto o Brasil pagou pelo quilo de móvel importado em 2025 em relação ao que o Paraná recebeu pelo quilo exportado.
Comex Stat, MDIC, 2026
46.795
Pessoas ocupadas na fabricação de móveis no Paraná em 2024, o segundo maior contingente do país.
IBGE, Cadastro Central de Empresas, 2024

Por que o estado é o segundo em emprego e o quarto em dólar

O Cadastro Central de Empresas do IBGE contou 5.583 unidades locais de fabricação de móveis no Paraná em 2024, com 46.795 pessoas ocupadas. Em pessoal ocupado o estado só perde para São Paulo, que tinha 69.483, e passa à frente do Rio Grande do Sul, com 46.096, e de Santa Catarina, com 34.415.

O Paraná tem, portanto, 15,07% do emprego moveleiro brasileiro e 14,35% dos estabelecimentos, contra 17,61% do valor exportado no capítulo 94 e 24,46% do peso. Emprego alto e valor por quilo baixo descrevem a mesma indústria vista de dois ângulos: muita gente produzindo muita peça de densidade de valor baixa.

A folha confirma a leitura. Dividindo salários e outras remunerações pelo pessoal ocupado, o setor pagou R$ 31.902 por pessoa no ano no Paraná em 2024, contra R$ 37.192 no Rio Grande do Sul e R$ 32.271 em São Paulo. Santa Catarina, que exporta mais caro por quilo, pagou menos, R$ 29.392, o que já avisa que a relação entre preço de exportação e salário não é direta.

EstadoPessoal ocupado em móveis, 2024Exportação do capítulo 94, 2025US$ por quiloPrincipal destino
São Paulo69.483US$ 212,73 mi8,23partes de assento, mercado automotivo
Paraná46.795US$ 171,51 mi1,84Argentina, 17,7%
Rio Grande do Sul46.096US$ 268,13 mi1,89Uruguai, 16,9%
Minas Gerais40.995US$ 26,71 mi4,76volume pequeno, média instável
Santa Catarina34.415US$ 275,34 mi2,50Estados Unidos, 37,6%

O preço de São Paulo não é comparável ao dos demais. Quase um quarto do valor paulista no capítulo 94 vem de partes de assento para veículos, a US$ 20,40 por quilo, e de construções pré-fabricadas. No recorte estreito de móveis publicado pela Abimóvel com o IEMI, referente a janeiro a dezembro de 2025, São Paulo cai para 13,4% da exportação nacional e o Paraná sobe para 18,7%, atrás de Santa Catarina, com 33,2%, e do Rio Grande do Sul, com 31,6%. Fonte: Comex Stat, MDIC, 2026, e Abimóvel e IEMI, boletim de conjuntura, janeiro de 2026.

Arapongas e São Bento do Sul, a mesma alfândega e dois preços

Os dois maiores municípios exportadores de móveis do Brasil em 2025 foram São Bento do Sul, em Santa Catarina, com US$ 73,38 milhões, e Arapongas, no Paraná, com US$ 62,79 milhões. São Bento do Sul recebeu US$ 2,844 por quilo. Arapongas recebeu US$ 1,214. A diferença é de 2,34 vezes, no mesmo capítulo da mesma tabela aduaneira.

Arapongas é a cidade moveleira do estado e não há disputa quanto a isso. O Cempre contou ali 444 unidades locais e 11.032 pessoas ocupadas na fabricação de móveis em 2024, quase um quarto de todo o pessoal do setor no Paraná. A cidade tinha população estimada em 123.863 pessoas pelo IBGE no mesmo ano. Uma em cada onze pessoas do município trabalha em móvel.

Para dimensionar: Arapongas sozinha emprega mais gente na fabricação de móveis do que o estado da Bahia inteiro, que tinha 9.721 pessoas ocupadas, e do que o Rio de Janeiro, com 7.556. É concentração industrial de ordem europeia dentro de um município de porte médio.

A série de dez anos mostra duas estratégias opostas. Arapongas passou de 32,05 mil toneladas exportadas em 2015 para 51,71 mil em 2025, alta de 61,4%, com o quilo subindo de US$ 1,060 para US$ 1,214. São Bento do Sul fez o inverso: o peso caiu de 35,27 mil para 25,80 mil toneladas, queda de 26,9%, e o quilo subiu de US$ 2,409 para US$ 2,844. Um município comprou volume, o outro comprou preço.

Para onde vai o móvel paranaense, e o que o destino cobra do preço

A América Latina absorveu 77,0% do valor exportado pelo Paraná no capítulo 94 em 2025. Argentina, 17,7%, Uruguai, 11,7%, Paraguai, 9,7%, Chile, 6,0% e Peru, 5,5%, formam o núcleo. Os Estados Unidos ficaram com 10,3%. Em Santa Catarina a distribuição é quase oposta: 37,6% para os Estados Unidos e 23,9% para a América Latina.

A conta de América Latina usada aqui soma Argentina, Bolívia, Chile, Colômbia, Costa Rica, Cuba, El Salvador, Equador, Guatemala, Honduras, México, Nicarágua, Panamá, Paraguai, Peru, República Dominicana, Uruguai e Venezuela. O agrupamento não é uma categoria oficial do Comex Stat, foi montado país a país a partir da própria consulta, e o México é o item que mais muda o resultado: sem ele, os 77,0% do Paraná viram 75,7% e os 23,9% de Santa Catarina viram 22,9%.

O destino explica boa parte do intervalo de preço, e explicar não é desculpar. O quilo que o Paraná vendeu ao Chile saiu a US$ 1,11 e ao Peru a US$ 1,07. O que vendeu aos Estados Unidos saiu a US$ 4,28, quase quatro vezes mais. O estado tem, dentro da própria pauta, a prova de que consegue vender caro quando vende para quem paga caro.

Há uma leitura estratégica legítima do mapa atual. Vizinhança de fuso e de idioma, frete curto, ciclo de pedido rápido e menor exposição regulatória são vantagens reais, e o report latin america in focus, desta casa, trata do crescimento da classe média latino-americana e do que ela passou a comprar. Vender para a região não é erro. O problema é quando a região é a única resposta possível, porque aí o preço deixa de ser escolha.

O que o Brasil paga quando é o Brasil que compra

Em 2025 o Brasil importou US$ 1.401,05 milhões do capítulo 94, em 320,44 mil toneladas, o que dá US$ 4,372 por quilo. O país compra a US$ 4,37 e o Paraná vende a US$ 1,84. A conta vale como espelho, não como acusação: são cestas de produto diferentes, e o capítulo importado tem muita iluminação e muito assento automotivo.

Por isso vale estreitar o recorte para a posição 9403, que reúne os demais móveis e é onde o Paraná concentra 68,2% do que exporta. Nessa posição o Paraná embarcou a US$ 1,409 por quilo em 2025, Santa Catarina a US$ 2,342 e o Rio Grande do Sul a US$ 1,574. O Brasil importou a mesma posição a US$ 3,073 por quilo.

Esse US$ 3,073 precisa de uma correção antes de virar argumento. A segunda maior origem da posição 9403 em valor não é a Itália nem a Alemanha: é a Áustria, com US$ 30,19 milhões, 21,4% de tudo o que o Brasil importou na posição, em apenas 62,4 toneladas. Dá US$ 484,00 por quilo, e quase todo esse valor está em uma linha só, a NCM 9403.70.00, móveis de plásticos, a US$ 794 por quilo. Uma origem de peso irrisório carrega um quinto do valor da posição.

Retirando a Áustria da conta, o quilo importado da posição 9403 cai de US$ 3,073 para US$ 2,418, e a razão entre o que o Brasil paga e o que o Paraná recebe cai de 2,2 para 1,7. A leitura honesta é essa: a razão fica entre 1,7 e 2,2, conforme se inclua ou não uma origem atípica. No capítulo 94 inteiro a Áustria quase não pesa, e a média importada passa de US$ 4,372 para US$ 4,271, o que preserva o contraste da abertura.

Dentro do intervalo, a origem decide o preço. Da China, que responde por 53,7% do valor importado na posição 9403, o móvel chegou a US$ 1,86 por quilo, quase o mesmo preço a que o Paraná exporta. Da Itália, 7,0% do valor, chegou a US$ 29,26. As duas pontas altas merecem a mesma ressalva: Áustria e Itália somam 62,4 e 336,3 toneladas contra 40.721 toneladas chinesas, média de pouco volume é instável, e parte do prêmio é composição de produto, não reputação. Ainda assim a ordem de grandeza responde à pergunta que interessa: existe um intervalo de vinte vezes dentro da mesma posição tarifária, e ele é ocupado por alguém.

Onde o preço por quilo não prova nada

Preço por quilo não mede marca. Mede densidade de valor da carga. Um guarda-roupa desmontado em MDF é pesado e barato por quilo por razões físicas, não por falta de identidade. Qualquer conclusão sobre posicionamento tirada apenas dessa razão está exagerando o que o dado permite dizer.

A limitação mais séria é outra, e é estrutural. A declaração aduaneira registra NCM, peso, valor, país de destino e unidade da federação de produção. Não registra sob qual marca a peça será vendida na loja do outro lado. Não existe, em fonte pública brasileira, série que separe exportação de marca própria de exportação para terceiros. O número que fecharia esta discussão não existe.

Há ainda um detalhe técnico que muda a leitura municipal. No Comex Stat, o recorte por unidade da federação segue o estado de produção, e o recorte por município segue o domicílio fiscal da empresa exportadora. Por isso a soma dos municípios paranaenses, US$ 158,47 milhões, é menor que os US$ 171,51 milhões atribuídos ao estado. Os dois números estão certos e medem coisas ligeiramente diferentes.

Uma fonte que a pauta previa não entregou. O Ipardes mantém o Perfil dos Municípios em painel interativo e não publica série aberta de indústria moveleira por município em formato consultável; o antigo endereço da base de dados do estado não respondeu nas consultas de agosto de 2026. Tudo o que este texto afirma sobre o Paraná veio de IBGE e Comex Stat, que são federais.

O que falta para o número mudar de lugar

A tese sobrevive à checagem, com uma correção importante: o Paraná não é fornecedor por incapacidade, é fornecedor por composição de destino e de produto. Santa Catarina cobra 36% mais por quilo no mesmo capítulo vendendo mais para os Estados Unidos e para a Europa. O próprio Paraná cobra US$ 4,28 por quilo quando vende para lá.

Isso desloca a conversa. A pergunta útil não é como o móvel paranaense fica melhor, porque ele já é bom o bastante para atravessar a alfândega americana a mais que o dobro do preço médio do estado. A pergunta é quanto do embarque cabe nesse regime e o que precisa existir antes: catálogo com preço em moeda forte, cadeia de custódia da madeira documentada, capacidade de repetição com prazo e alguém do outro lado que saiba o nome de quem fabricou.

  1. Destino antes de discurso. A diferença entre US$ 1,07 por quilo no Peru e US$ 4,28 nos Estados Unidos é maior que qualquer ganho plausível de reposicionamento dentro da mesma praça.
  2. Posição tarifária como mapa. Dentro da posição 9403 há um intervalo entre US$ 1,41 e US$ 29,26 por quilo. Saber em que faixa se está é o primeiro diagnóstico honesto.
  3. Nome que sobrevive ao contêiner. Nenhuma base pública registra sob qual marca o móvel é vendido no destino. Quem não mede isso internamente não sabe o que está vendendo.
  4. Escala como ativo, não como desculpa. Arapongas cresceu 61,4% em peso exportado em dez anos. Volume dá poder de negociação com o comprador que paga mais, desde que a fábrica queira esse comprador.
  5. Documentação como condição de entrada. Para os mercados que pagam melhor, rastreabilidade da madeira e conformidade regulatória deixaram de ser diferencial e viraram pré-requisito de embarque.

O Paraná embarca um quarto do peso e leva menos de um quinto do dinheiro. Enquanto for assim, o estado será citado nos números do setor e não nas etiquetas dos móveis.

perguntas frequentes

qual a posição do Paraná na exportação brasileira de móveis?

Quarta em valor e terceira em peso. Em 2025 o estado exportou US$ 171,51 milhões do capítulo 94 da NCM, atrás de Santa Catarina, Rio Grande do Sul e São Paulo, e embarcou 93,13 mil toneladas, atrás apenas do Rio Grande do Sul e de Santa Catarina. Fonte: Comex Stat, MDIC, 2026.

por quanto sai o quilo de móvel exportado pelo Paraná?

US$ 1,84 em 2025, no capítulo 94 da NCM, contra US$ 2,56 da média brasileira e US$ 2,50 de Santa Catarina. Considerando só a posição 9403, que reúne os demais móveis, o quilo paranaense sai a US$ 1,41 e o catarinense a US$ 2,34. Fonte: Comex Stat, MDIC, 2026.

quantas pessoas trabalham na indústria de móveis do Paraná?

46.795 pessoas ocupadas em 5.583 unidades locais de fabricação de móveis em 2024, segundo o Cadastro Central de Empresas do IBGE. É o segundo maior contingente do país, atrás de São Paulo, que tinha 69.483, e à frente do Rio Grande do Sul, com 46.096. Fonte: IBGE, Cempre, 2024.

qual é a cidade moveleira do Paraná?

Arapongas, no norte do estado. O município concentrava 11.032 pessoas ocupadas na fabricação de móveis em 2024, quase um quarto do total paranaense, e exportou US$ 62,79 milhões do capítulo 94 em 2025, o segundo maior volume municipal do Brasil. A população estimada era de 123.863 pessoas. Fonte: IBGE e Comex Stat.

preço por quilo mede a força de uma marca?

Não. Mede densidade de valor da carga, e essa densidade responde a material, a design, a destino e ao fato de o móvel viajar montado ou desmontado. A alfândega não registra sob qual marca a peça é vendida no destino. Nenhuma fonte pública brasileira registra isso.

Retrato de Marcus Yabe
sobre o autor

Marcus Yabe

sócio-fundador · estratégia e criatividade

Trabalha no encontro entre estratégia, comunicação, negócios, conteúdo e relações. Foi CEO do LIDE Paraná, diretor executivo da Paraná Business e publisher da TOPVIEW.

fontes
  1. Ministério do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços. Comex Stat, consulta geral por unidade da federação, país e NCM, capítulo 94, 2026.
  2. Ministério do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços. Comex Stat, consulta por município da empresa exportadora, capítulo 94, 2026.
  3. IBGE. Cadastro Central de Empresas, tabela 9528, unidades locais e pessoal ocupado na fabricação de móveis por unidade da federação, 2024.
  4. IBGE. Cadastro Central de Empresas, tabela 9528, municípios do Paraná, 2024.
  5. IBGE. Estimativas de população, tabela 6579, 2024.
  6. Abimóvel e IEMI. Conjuntura do setor moveleiro, boletim de janeiro, 2026.
  7. Ipardes. Perfil dos Municípios, consulta em 2026.
  8. amano casa criativa. latin america in focus, 2026.
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