
A pedra brasileira sai e não volta. A margem escapa na joia.
Joalheria autoral é a joia cujo preço se sustenta na assinatura de quem a desenhou, e não no peso do metal que a compõe. É o que o Brasil ainda não exporta. Em 2025 o país vendeu US$ 83,76 milhões em joias de ouro, a US$ 57.887 por quilo, e comprou US$ 79,23 milhões, a US$ 82.792 por quilo. A joia que entra vale 43,0% mais por quilo que a que sai. Fonte: Comex Stat, MDIC, 2026.
Existe uma frase que circula em toda conversa sobre gemas no Brasil: a pedra sai do país bruta e volta lapidada, com a margem no bolso dos outros. É uma frase boa. Tem ritmo, tem indignação e tem a vantagem de parecer óbvia. Este texto foi escrito para testá-la contra o registro aduaneiro brasileiro, posição por posição, e ela não passa inteira.
Esta seção já tratou da pedra brasileira uma vez, pelo lado da cultura material e da linguagem exportável. O recorte aqui é outro e é aritmético: quantos quilos de pedra atravessam a fronteira em cada direção, a que preço declarado, com que destino e o que acontece com a joia pronta. A pergunta não é se o Brasil tem pedra. É onde exatamente, na cadeia, o valor deixa de ser brasileiro.
Em 2025 o Brasil exportou US$ 7,19 bilhões pelo capítulo 71, que reúne pérolas, pedras preciosas, metais preciosos e joias. Dessa soma, US$ 6,58 bilhões, ou 91,4%, foram ouro em formas brutas ou semimanufaturadas. Pedra preciosa e semipreciosa respondeu por 2,5%. Qualquer média do capítulo inteiro está medindo cotação de ouro.
O detalhe da conta explica o problema. O bulhão dourado, que é o ouro em forma bruta não monetária, sozinho somou US$ 4,92 bilhões em 2025. O ouro em barras, fios e perfis somou outros US$ 1,40 bilhão. As duas principais posições somam US$ 6,32 dos US$ 6,58 bilhões de ouro, e valem trinta e cinco vezes tudo o que o país exportou de pedra preciosa e semipreciosa no mesmo ano.
Do lado da importação a distorção é ainda maior e vem de outro metal. O capítulo 71 brasileiro importou US$ 1,13 bilhão em 2025, e 70,19% disso foram platina, paládio e ródio em formas brutas ou em pó, insumo de catalisador automotivo. Não tem relação nenhuma com joalheria. O saldo positivo de US$ 6,06 bilhões do capítulo, que às vezes é citado como prova de força do setor de gemas e joias, é um saldo de mineração de ouro.
A frase tem duas metades e só a primeira resiste. Em 2025 o Brasil exportou US$ 109,98 milhões em pedra trabalhada, com diamante incluído, e importou US$ 25,98 milhões. O que sai lapidado é 4,2 vezes o que entra. No recorte de pedra de cor, sem diamante, a razão sobe para 39,2 para 1.
A ressalva do diamante importa. Ele ocupa a posição 7102, e a posição 7103, que é a da pedra preciosa e semipreciosa, o exclui por construção. Em 2025 o Brasil importou US$ 23,20 milhões em diamante não industrial trabalhado e exportou US$ 1,32 milhão. O fluxo é real e é outra história: o país praticamente não produz diamante, então o que entra lapidado não é pedra brasileira voltando.
Na pedra de cor, que é a pedra que o Brasil de fato extrai, não há retorno nenhum. Entre 2015 e 2025 a importação brasileira de pedra preciosa trabalhada sem diamante ficou todos os anos entre US$ 1,32 milhão, o piso de 2016, e US$ 2,88 milhões, o teto de 2022.
Mais que isso: o Brasil exporta pedra trabalhada por preço unitário mais alto do que a bruta. A bruta saiu a US$ 6,00 o quilo em 2025, sobre 11.994.639 quilos, e a trabalhada a US$ 19,26, sobre 5.641.927 quilos. São 3,2 vezes. Há lapidação brasileira exportando, e ela agrega valor mensurável.
No topo da faixa está o dado mais desconfortável para quem repete a frase. Em 2025 o Brasil exportou US$ 16,32 milhões em rubis, safiras e esmeraldas trabalhados, em vinte quilos, ou US$ 816.159 por quilo. Desse valor, 48,6% foi para os Estados Unidos e 25,8% para Hong Kong. Pedra lapidada de alto valor sai daqui, e sai direto para o fim da cadeia.
O preço médio de US$ 6,00 por quilo da pedra bruta exportada é uma ficção estatística. Ele mistura dois negócios que não se tocam. Em 2025, 37,6% do valor da pedra bruta exportada saiu em apenas 18.433 quilos, ou 0,15% do peso total, a US$ 1.468,91 por quilo, com destino aos centros mundiais de lapidação.
A geografia separa os dois negócios. O Rio Grande do Sul exportou 9.662.490 quilos de pedra bruta em 2025, 80,6% do peso nacional, a US$ 2,62 o quilo: ágata, ametista e quartzo em escala de mineração. Minas Gerais exportou 1.449.752 quilos, 12,1% do peso, mas 50,6% do valor, a US$ 25,12 o quilo. Duas indústrias com o mesmo código aduaneiro.
O destino confirma a leitura. A China recebeu 9.882.728 quilos, 82,4% do peso exportado, e pagou US$ 2,10 o quilo. Os Emirados Árabes Unidos receberam 6.658 quilos e pagaram US$ 1.962,37 o quilo. A Tailândia recebeu 1.039 quilos e pagou US$ 8.031,90 o quilo. Emirados, Tailândia, Itália e Suíça juntos ficaram com 0,15% do peso e 37,6% do valor.
Esses quatro países são os endereços da lapidação e do comércio mundial de gema colorida. A gema de qualidade brasileira sai bruta e sai para quem lapida. É o que sobra da frase original. Israel e Bélgica, que também são praças de gema, ficaram fora desse grupo de propósito: compraram do Brasil a US$ 6,42 e a US$ 3,75 o quilo em 2025, preço de carga a granel, não de pedra de lapidário.
| Subposição do SH, 2025 | Exportação, US$ | US$ por kg | Importação, US$ | US$ por kg |
|---|---|---|---|---|
| 7103.10 pedra bruta ou serrada | 71.959.822 | 6,00 | 8.291.087 | 4,32 |
| 7103.91 rubi, safira e esmeralda trabalhados | 16.323.183 | 816.159,15 | 1.555.888 | 129.657,33 |
| 7103.99 outras pedras trabalhadas | 92.334.903 | 16,37 | 1.216.338 | 26,04 |
| 7102.39 diamante não industrial trabalhado | 1.321.220 | não apurável | 23.204.218 | 1.784.939,85 |
| 7113.19 joalheria de ouro | 83.763.175 | 57.887,47 | 79.232.003 | 82.792,06 |
| 7113.11 joalheria de prata | 1.065.382 | 1.420,51 | 34.848.909 | 2.444,51 |
| 7108.13 ouro em barras, fios e perfis | 1.401.824.058 | 107.749,74 | 9.457.784 | 23.410,36 |
A hipótese cai no presente, mas descreve bem uma tendência. Em 2015 a pedra bruta era 24,0% do valor exportado pela posição 7103. Em 2025 é 39,8%. A exportação de pedra bruta cresceu 81,2% entre 2015 e 2025, de US$ 39,72 milhões para US$ 71,96 milhões, enquanto a de pedra trabalhada caiu 13,7%.
Os dois movimentos são simultâneos e opostos. Em peso, a pedra bruta subiu de 10.260.402 para 11.994.639 quilos, alta de 16,9%, enquanto a trabalhada caiu de 6.348.894 para 5.641.927 quilos. Parte do avanço do bruto é preço: o quilo subiu de US$ 3,87 para US$ 6,00, alta de 55,0%. Mas a mudança de composição é real.
Se essa tendência continuar, a frase que hoje é falsa fica verdadeira em algum ponto da próxima década. Não porque a pedra volte, mas porque a lapidação encolhe enquanto a extração cresce.
Todos os valores de comércio exterior deste artigo vêm da base Comex Stat da Secretaria de Comércio Exterior do MDIC, consultada em agosto de 2026, em valor FOB declarado e peso líquido em quilos. A base registra o que atravessa a fronteira com declaração aduaneira. Ela não mede produção interna, venda no varejo brasileiro, garimpo informal nem joia que entra em bagagem dentro da cota. O diamante é declarado em quilates, e por isso o peso em quilos de algumas linhas aparece arredondado a zero. O dado de 2026 citado aqui cobre de janeiro a julho. Fonte: Comex Stat, MDIC, 2026.
A margem que o Brasil perde não está na pedra. Está na joia pronta. Em 2025 a joalheria de ouro exportada saiu a US$ 57.887,47 por quilo e a importada entrou a US$ 82.792,06 por quilo. O ouro em barras exportado no mesmo ano saiu a US$ 107.749,74. A joia que sai carrega 53,7% do metal; a que entra, 76,8%.
A leitura é direta. A joia brasileira de exportação é vendida perto do que vale o metal que contém. A importada carrega um adicional que não é metal, não é pedra e não é peso: é desenho, marca e origem declarada. A definição de joalheria autoral.
O destino reforça o diagnóstico. Em 2025, 57,9% do valor da joalheria de ouro exportada foi para os Emirados Árabes Unidos, a US$ 69.507,09 por quilo, e 17,1% para os Estados Unidos, a US$ 65.569,62. Entre janeiro e julho de 2026 os Emirados já responderam por 61,8% do valor. Joia de ouro embarcada para Dubai a preço próximo do metal se parece mais com exportação de ouro em outra forma do que com exportação de design.
A série de 2015 a 2025 mostra o encurtamento da vantagem. Em 2015 o Brasil exportava US$ 25,72 milhões em joalheria de ouro e importava US$ 14,67 milhões, uma razão de 1,75 para 1. Em 2025 exportou US$ 83,76 milhões e importou US$ 79,23 milhões, razão de 1,06 para 1. A importação cresceu 440,2% no período, contra 225,7% da exportação.
A escala explica parte disso. O Cadastro Central de Empresas do IBGE registrou 2.222 unidades locais e 13.962 pessoas ocupadas na classe de lapidação de gemas e fabricação de artefatos de ourivesaria e joalheria em 2024, com R$ 416,8 milhões em salários. Em 2022 eram 2.102 unidades e 13.259 pessoas. O setor cresce devagar e é pequeno.
A demanda interna dá a dimensão do que está em aberto. O report Anatomia do Luxo Brasileiro, publicado por esta casa, registra um mercado brasileiro de luxo de R$ 98 bilhões em 2024, com moda e acessórios em torno de R$ 21 bilhões. Menos de catorze mil pessoas lapidam e fabricam joia formalmente no país que consome isso.
A estatística aduaneira mede fronteira, não cadeia. Ela não diz quem desenhou a peça, quem ficou com a margem no varejo nem quanto de pedra brasileira está dentro de uma joia importada. A comparação de preço por quilo entre joias também é sensível ao teor de ouro da liga, que a nomenclatura não separa. Três ressalvas mudam a leitura.
A primeira é o teor. A posição 7113.19 cobre joalheria de ouro e de platina sem distinguir a liga. Uma peça de dezoito quilates tem 75% de ouro e uma de quatorze tem 58,5%. Parte da diferença de 43,0% entre a joia importada e a exportada pode ser composição de liga, não valor de desenho. O dado público não permite decompor isso, e quem afirmar que a diferença inteira é margem de marca está afirmando mais do que sabe. A base também é pequena: 1.447 quilos exportados e 957 quilos importados no ano inteiro, volume em que um único embarque mal declarado move o resultado.
A segunda é a rastreabilidade. Nada no Comex Stat permite dizer que a pedra dentro de uma joia importada é brasileira. A gema colorida circula por Bangkok, Jaipur, Antuérpia e Dubai antes de ser engastada, e a origem geológica se perde. A tese de que a pedra brasileira volta engastada é plausível e não é verificável.
A terceira é o que a fronteira não vê. Garimpo informal, venda direta a comprador estrangeiro em feira, joia levada em bagagem dentro da cota e o mercado interno inteiro ficam fora dessa base. O Brasil também não tem série pública de produção de gemas: a Agência Nacional de Mineração publica o Anuário Mineral Brasileiro desde 1972, mas gemas e joias não têm estatística setorial recente e comparável.
Há ainda uma leitura contrária à tese que precisa ser dita. Em bijuteria, a posição 7117, o Brasil exportou a US$ 262,75 por quilo em 2025 e importou a US$ 5,28. Na categoria mais barata do capítulo, o produto brasileiro sai quase cinquenta vezes mais valioso por quilo do que o que entra. Onde o metal não domina o preço, o valor agregado brasileiro aparece.
A hipótese de que a pedra brasileira sai bruta e volta lapidada não sobrevive ao Comex Stat: o Brasil exporta 4,2 vezes mais pedra trabalhada do que importa, e 39,2 vezes na conta só de pedra de cor. O que o dado sustenta é pior. O Brasil não perde a lapidação. Perde a assinatura, na peça pronta.
Quem quiser construir uma marca de joalheria autoral brasileira tem aí um mapa e um alvo. O mapa é a distância entre US$ 57.887 e US$ 82.792 por quilo, que separa a joia de ouro que o Brasil vende da que compra. O alvo é fechar essa distância com desenho e origem documentada, não com mais quilo.
A pedra sai do país, e boa parte dela sai bruta para quem lapida. Mas a margem que o Brasil deixa na mesa não está no corte da gema. Está na peça acabada que ele ainda vende pelo peso.
A primeira metade da frase é verdadeira, a segunda não. Em 2025 o Brasil exportou US$ 109,98 milhões em pedra trabalhada, contando diamante, e importou US$ 25,98 milhões. O que sai é 4,2 vezes o que entra. Só em pedra de cor, sem diamante, a razão é de 39,2 para 1. Fonte: Comex Stat, MDIC, 2026.
Em 2025 as exportações brasileiras da posição 7103 da nomenclatura, que reúne pedras preciosas e semipreciosas exceto diamante, somaram US$ 180,62 milhões. Isso equivale a 2,5% do valor exportado por todo o capítulo 71, que chegou a US$ 7,19 bilhões no ano. O restante é quase todo ouro. Fonte: Comex Stat, MDIC, 2026.
Porque o ouro domina o capítulo e apaga tudo o mais. Em 2025 o ouro em formas brutas e semimanufaturadas respondeu por 91,4% do valor exportado pelo capítulo 71 brasileiro. Qualquer preço médio por quilo calculado sobre o capítulo inteiro está medindo cotação de metal, não joalheria. Fonte: Comex Stat, MDIC, 2026.
Em 2025 a joalheria de ouro exportada pelo Brasil saiu a US$ 57.887 por quilo e a importada entrou a US$ 82.792 por quilo, uma diferença de 43,0%. No mesmo ano o ouro em barras exportado pelo país saiu a US$ 107.750 por quilo. Fonte: Comex Stat, MDIC, 2026.
O Cadastro Central de Empresas do IBGE registrou 2.222 unidades locais e 13.962 pessoas ocupadas na classe de lapidação de gemas e fabricação de artefatos de ourivesaria e joalheria em 2024, com R$ 416,8 milhões em salários e outras remunerações no ano. Fonte: IBGE, Cempre, 2026.

Trabalha no encontro entre estratégia, comunicação, negócios, conteúdo e relações. Foi CEO do LIDE Paraná, diretor executivo da Paraná Business e publisher da TOPVIEW.
O tema não termina aqui.
Design latino-americano, tradução cultural e percepção de valor no mercado internacional.
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