Sala de espera com duas poltronas e uma xícara, mangueira de abastecimento pela janela
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o negócio de um FBO, e por que quase tudo depende do combustível

Vende-se litro. Cobra-se hora. Lembra-se da sala.

por Marcus Yabe · publicado em · atualizado em · leitura de 10 minutos

FBO, sigla de fixed base operator, é a empresa que atende em solo a aeronave que voa fora da linha regular, e é um negócio de quatro receitas: combustível, permanência em pátio, hangaragem e serviço. Uma delas paga quase tudo. No formulário 10-K da Macquarie Infrastructure Corporation, então controladora da rede Atlantic Aviation, a venda de combustível gerou cerca de 60% da margem bruta de 2019.

O artigo irmão desta seção contou a frota executiva brasileira no registro da Anac e concluiu que ela é menor, mais velha e mais intermediada do que o setor costuma dizer. Este texto faz outra coisa. Ele abre a conta de quem opera o chão: de onde vem a receita, onde está a margem e o que essa aritmética faz com a experiência de quem passa por ali.

A pergunta quase nunca é feita nesses termos. Quando uma aeronave executiva pousa, quem ganha dinheiro com aquilo, e com o quê? A resposta importa porque um negócio que vive de litro vendido tem incentivos diferentes de um negócio que vive de metro quadrado alugado. E o que se vê na sala de espera é consequência direta disso.

Duas famílias de fonte pública respondem. A primeira é o balanço auditado de companhias que operam FBO nos Estados Unidos e arquivam na Securities and Exchange Commission, onde a composição de receita aparece linha a linha, sob responsabilidade legal. A segunda é o preço no Brasil: tarifa aeroportuária é preço público, e o preço do querosene de aviação é publicado pela ANP.

De onde vem o dinheiro de um FBO

O 10-K da Macquarie Infrastructure Corporation descreve a categoria sem rodeio: os serviços de abastecimento fornecem a maior parte da receita e da margem bruta de um FBO. Em 31 de dezembro de 2019, a Atlantic Aviation operava em 70 aeroportos americanos, com receita de US$ 972 milhões e margem bruta de US$ 523 milhões.

A companhia acrescenta que a venda de combustível gerou cerca de 60% dessa margem em 2019. O restante veio de degelo, estacionamento de aeronave, aluguel de hangar, limpeza e catering. Ou seja: quatro linhas de receita, e uma delas responde por três quintos do que sobra depois do custo direto.

O mesmo documento faz uma advertência contábil que vale para o setor inteiro. Como o custo do combustível é repassado ao cliente em tempo real, a receita reportada oscila com o preço do querosene e não mede a capacidade do negócio. Por isso a própria empresa declara que a margem bruta, e não a receita, é a linha de cima efetiva de um FBO.

Há um segundo caso público, muito menor e útil justamente por ser diferente. A Saker Aviation Services operou o heliporto do centro de Manhattan até 29 de março de 2025. Em 2024, seu último ano cheio, faturou US$ 9.169.459, dos quais aproximadamente US$ 6.505.000 vieram de serviços e suprimentos e US$ 2.329.000 de combustível de aviação. Combustível ali foi 25,40% da receita.

60%
Parcela da margem bruta da rede Atlantic Aviation, com 70 FBOs, que veio da venda de combustível.
Macquarie Infrastructure Corporation, formulário 10-K, exercício de 2019
98,82%
Parcela das vendas nacionais de querosene de aviação concentrada em três distribuidoras.
ANP, Anuário Estatístico 2025, tabela 3.12, dados de 2024
6h17
Mediana de permanência em solo da aviação geral e executiva nos aeroportos que reportam à Anac.
Anac, Dados de Movimentação Aeroportuária, 2025, cálculo próprio

Por que a margem está no combustível, e por que isso é frágil

Concentrar margem em combustível significa depender de um insumo que o FBO não produz, não estoca em volume e não precifica sozinho. No Brasil, a ANP registrou que três distribuidoras responderam por 98,82% das vendas nacionais de querosene de aviação em 2024: Vibra com 60,38%, Raízen com 20,39% e Air BP Brasil com 18,45%.

O preço desse insumo se move em amplitude que nenhum plano de negócio absorve com elegância. O preço médio ponderado de produtores e importadores de querosene de aviação no Sudeste foi de R$ 1,633 por litro em 2015, R$ 2,0457 em 2020, R$ 4,9465 em 2022 e R$ 3,8405 em 2024, segundo a tabela 2.44 do Anuário Estatístico 2025 da ANP. Entre 2020 e 2022, multiplicou por 2,42.

Do lado de quem abastece, a ANP também publica o preço ao consumidor por município. Em 2024, o litro de querosene de aviação saiu a R$ 4,3090 em São Paulo, R$ 4,3099 no Rio de Janeiro e R$ 4,9684 em Curitiba. Comparado ao preço de produtor da respectiva região no mesmo ano, o espaço entre as duas pontas foi de R$ 0,4685 por litro em São Paulo e de R$ 1,0620 em Curitiba.

Esse espaço não é margem de FBO. Ele contém tributo estadual, custo de distribuição, logística de aeroporto e remuneração de mais de um agente, e a ANP não desagrega. Mas ele mostra onde a briga acontece: em centavos por litro, dentro de uma cadeia curta e concentrada, com o preço de entrada oscilando mais do que qualquer decisão comercial do operador.

Quanto custa o chão, em preço público

A permanência de aeronave em aeroporto brasileiro tem preço publicado. Na tabela da Infraero para o Santos Dumont, vigente desde 7 de fevereiro de 2026, a permanência da aviação geral em área de estadia vai de R$ 3,51 por hora para aeronave de até 1 tonelada a R$ 293,67 por hora acima de 300 toneladas. Em pátio de manobras, de R$ 53,09 a R$ 1.468,74 por hora.

A tabela traz uma regra que descreve o negócio melhor que qualquer discurso: a cobrança de permanência começa a partir das três horas após o pouso. As primeiras três horas no chão são gratuitas. O aeroporto trata o pátio como um hotel trata o late checkout, e transfere para o operador do solo a tarefa de rentabilizar esse intervalo.

Vale ver as ordens de grandeza lado a lado. Uma aeronave de aviação geral na faixa de 6 a 12 toneladas paga, no Santos Dumont, R$ 1.026,86 de tarifa unificada de embarque e pouso, mais R$ 53,09 por hora em pátio de manobras ou R$ 7,87 por hora em área de estadia, sempre a partir da quarta hora. Já a aviação regular paga pouso de R$ 19,62 por tonelada e permanência de R$ 0,83 por tonelada por hora em área de estadia.

São lógicas de cobrança diferentes. A linha regular paga proporcional ao peso, porque o aeroporto sabe que ela vai embora rápido. A aviação geral paga por faixa, com franquia de tempo, porque o aeroporto sabe que ela vai ficar. A tarifa já reconhece o que o setor raramente admite: são dois negócios distintos dividindo a mesma pista.

Quanto tempo a aeronave executiva realmente fica parada

A Anac publica, mês a mês, o registro de cada movimento nos aeroportos que reportam, com horário de calço na chegada e na saída. Pareando pouso e decolagem da mesma matrícula no mesmo aeroporto ao longo de 2025, a mediana de permanência em solo da aviação geral e executiva foi de 377 minutos. A da linha aérea regular foi de 66 minutos.

O contraste desmonta uma imagem confortável. A ideia de que o FBO é um hotel de vinte minutos é boa metáfora e péssima descrição: apenas 8,51% das permanências de aviação geral duraram vinte minutos ou menos em 2025, e 56,89% ultrapassaram as três horas de franquia da tarifa. Quase metade, 45,71%, passou de doze horas.

A distribuição é o dado, não a média. Um quarto das permanências, 26,08%, terminou em até uma hora, e essa é a operação de trânsito clássica: pousa, abastece, decola. O restante é outra coisa. São aeronaves que dormem, que esperam a agenda do passageiro, que aguardam manutenção ou tripulação, e que ocupam pátio por um dia inteiro ou mais.

A geografia acompanha. Em 2025, os aeroportos que reportam à Anac registraram 649.414 movimentos de aviação geral e executiva, 27,41% dos 2.368.849 movimentos totais, distribuídos entre 60 aeroportos e 9.383 matrículas distintas. Vinte aeroportos concentraram 76,77% desses movimentos. O Campo de Marte teve 62.313 movimentos, com mediana de permanência de 615 minutos. Bacacheri, em Curitiba, teve 27.980, com mediana de 1.034 minutos.

Em Congonhas, onde a aviação executiva divide pista com a malha aérea mais disputada do país, os 27.325 movimentos de aviação geral de 2025 tiveram mediana de permanência em solo de 720 minutos, exatamente doze horas. Fonte: Anac, Dados de Movimentação Aeroportuária, arquivos mensais de 2025, cálculo próprio sobre os horários de calço.

OperaçãoAnoReceita declaradaO que o combustível representa
Atlantic Aviation, rede de 70 FBOs nos Estados Unidos2019US$ 972 milhõesCerca de 60% da margem bruta
Saker Aviation, heliporto do centro de Manhattan2024US$ 9.169.45925,40% da receita
FBOs brasileiros2025Não declaradaSem série pública, a Anac não publica receita de operador de solo

O que a composição de receita faz com a sala de espera

Se a margem vem do litro e da hora, a sala de espera é despesa. Ela não aparece em nenhuma linha de receita, não tem preço tabelado e não entra na conta que o operador presta ao aeroporto. É exatamente por isso que ela tende a ser genérica: ninguém foi cobrado por ela e ninguém foi remunerado por ela.

O caso da Saker mostra quanto pesa o senhorio nessa equação. Pelo acordo interino com a cidade de Nova York, a companhia devia pagar o maior valor entre US$ 1.036.811 e 30% da receita bruta. Em 2024 incorreu em aproximadamente US$ 2.756.000 de taxa de concessão sobre uma receita de US$ 9.169.459, o que equivale a 30,06% do faturamento indo para o dono do terreno, registrado dentro do custo da receita.

Com o combustível oscilando na entrada e o aeroporto levando um terço na saída, o que resta ao operador é a única variável que ele controla inteiramente: o que acontece entre o carro e a escada. E essa variável não é medida por ninguém, o que a torna, ao mesmo tempo, a mais negligenciada e a mais disponível.

O estudo The New Showroom, desta casa, formula o princípio que se aplica aqui sem ajuste: o espaço deixa de ser o lugar onde a transação acontece e passa a ser o lugar que influencia transações que acontecem em outro lugar. No FBO, a transação é combustível. O espaço influencia a próxima escolha de aeroporto, de operador e de fornecedor, e nenhuma dessas decisões é tomada no balcão.

Onde o entusiasmo do mercado é maior que o dado

Não existe, no Brasil, série pública de receita, margem ou número de FBOs. A Anac publica movimento, tarifa e registro de aeronave, não publica economia de operador de solo. Toda a composição de receita citada aqui vem de balanços americanos, e nada garante que a proporção brasileira seja a mesma.

A diferença entre os dois casos americanos já sugere quanto isso varia. Combustível foi cerca de 60% da margem bruta numa rede de 70 FBOs em aeroportos de aviação executiva, e 25,40% da receita num heliporto urbano cuja operação depende de voo panorâmico. Chamar os dois de FBO é correto e é pouco informativo. A composição segue o tipo de tráfego, não a sigla.

O cálculo de permanência em solo é meu, não da Anac. Pareei o calço de chegada com o calço de saída seguinte da mesma matrícula no mesmo aeroporto, dentro de sete dias, usando os tipos de serviço que a Anac classifica como aviação geral e não regular. O método captura aeronave baseada no aeroporto junto com aeronave de passagem, e o número resultante mede ocupação de pátio, não tempo de atendimento.

Há ainda um limite de cobertura. Os arquivos de movimentação cobrem 60 aeroportos, essencialmente os concedidos e os administrados por operador que reporta à agência. Aeródromo privado, fazenda e pista particular estão fora. Como boa parte da aviação executiva brasileira opera justamente fora desses 60 endereços, o retrato aqui é do subconjunto medido, não do país.

O que o FBO está realmente vendendo

O FBO vende combustível, cobra hora de pátio e é lembrado pela sala. Essas três frases descrevem três negócios diferentes empilhados no mesmo endereço, e apenas os dois primeiros aparecem no balanço. O terceiro é o único que não tem preço tabelado, fornecedor concentrado nem franquia de três horas.

A imagem do hotel de vinte minutos é sedutora e o dado a contradiz. Vinte minutos é o que menos acontece: 91,49% das permanências de aviação geral registradas pela Anac em 2025 passaram disso. O que existe é um hotel de seis horas, com uma minoria de hóspedes de passagem e uma maioria que dorme no pátio. Um hotel assim se projeta de outro jeito.

Quem opera esse espaço não escolhe o preço do querosene, não escolhe o distribuidor e não escolhe a tarifa do aeroporto. Escolhe o que coloca entre o carro e a escada. É a menor linha da conta e a única que ninguém mais controla.

perguntas frequentes

o que é um FBO e como ele ganha dinheiro

FBO é a sigla de fixed base operator, a empresa que atende a aeronave fora da linha regular em solo. Vive de quatro receitas: venda de combustível, permanência em pátio, hangaragem e serviços. No formulário 10-K da Macquarie Infrastructure Corporation, a venda de combustível gerou cerca de 60% da margem bruta da rede Atlantic Aviation em 2019.

quanto tempo um jato executivo fica parado no aeroporto no Brasil

Mais do que se imagina. Calculando pelos horários de calço dos dados de movimentação da Anac de 2025, a mediana de permanência em solo da aviação geral e executiva foi de 377 minutos, contra 66 minutos da linha aérea regular. Apenas 8,51% das permanências duraram vinte minutos ou menos.

quanto custa deixar uma aeronave parada em um aeroporto brasileiro

É preço público. Na tabela da Infraero para o Santos Dumont vigente desde 7 de fevereiro de 2026, a permanência em área de estadia para aviação geral vai de R$ 3,51 a R$ 293,67 por hora, conforme a faixa de peso da aeronave, e a cobrança só começa três horas após o pouso.

por que o preço do combustível domina a conta de um FBO

Porque é a maior linha de receita e a de menor controle. O preço médio ponderado de produtores e importadores de querosene de aviação no Sudeste passou de R$ 2,0457 por litro em 2020 para R$ 4,9465 em 2022, segundo a ANP. E três distribuidoras concentraram 98,82% das vendas nacionais em 2024.

dá para construir marca em um FBO

Dá, mas não pela via da receita. A margem do FBO vem do litro e da hora, que são commodities de preço tabelado ou quase. O que sobra de diferenciável é o espaço e o tratamento, e é justamente a parte que nenhuma linha do balanço remunera diretamente.

Retrato de Marcus Yabe
sobre o autor

Marcus Yabe

sócio-fundador · estratégia e criatividade

Trabalha no encontro entre estratégia, comunicação, negócios, conteúdo e relações. Foi CEO do LIDE Paraná, diretor executivo da Paraná Business e publisher da TOPVIEW.

fontes
  1. Agência Nacional de Aviação Civil. Dados de Movimentação Aeroportuária, arquivos mensais de 2025, dados abertos, consultados em 1 de agosto de 2026.
  2. Empresa Brasileira de Infraestrutura Aeroportuária. Tarifas Aeroportuárias, SBRJ Aeroporto Santos Dumont, vigência a partir de 07/02/2026.
  3. Agência Nacional do Petróleo, Gás Natural e Biocombustíveis. Anuário Estatístico 2025, tabela 2.44, preços médios ponderados de produtores e importadores de querosene de aviação, 2015 a 2024.
  4. Agência Nacional do Petróleo, Gás Natural e Biocombustíveis. Anuário Estatístico 2025, tabela 3.26, preço médio do querosene de aviação ao consumidor por municípios selecionados, 2015 a 2024.
  5. Agência Nacional do Petróleo, Gás Natural e Biocombustíveis. Anuário Estatístico 2025, tabela 3.12, participação das distribuidoras nas vendas nacionais de QAV, 2024.
  6. Macquarie Infrastructure Corporation. Formulário 10-K, exercício encerrado em 31 de dezembro de 2019, arquivado na Securities and Exchange Commission em 25 de fevereiro de 2020.
  7. Saker Aviation Services, Inc. Formulário 10-K, exercício encerrado em 31 de dezembro de 2025, arquivado na Securities and Exchange Commission em 31 de março de 2026.
  8. amano casa criativa. The New Showroom, 2026.
continue

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