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criatividade & inovação

criatividade em setores tradicionais

A criatividade é mais rara onde a economia brasileira é maior.

por Marcus Yabe · publicado em · atualizado em · leitura de 9 minutos

Criatividade em setores tradicionais é o trabalho de projeto, autoria e diferenciação exercido dentro de empresas que não se declaram criativas: indústria, agropecuária, construção, saúde. Em 2023, dos 1,262 milhão de profissionais criativos com emprego formal no Brasil, mais de 1 milhão trabalhava em empresa cuja atividade principal não é considerada criativa, segundo a Firjan.

Esta seção já mediu o tamanho da economia criativa brasileira, comparando Firjan e IBGE, e já auditou os índices de retorno do design. Este texto faz uma pergunta mais estreita e ainda não feita aqui: o que acontece com a criatividade quando ela é exercida fora do setor que leva esse nome.

A pergunta importa porque a estatística oficial trabalha por estabelecimento. Uma empresa é criativa ou não é, conforme a atividade principal que declara. O profissional que projeta, redige, desenha ou dirige arte dentro de uma fábrica de válvulas some dessa contabilidade. Ele continua existindo no mercado de trabalho e desaparece do mapa do setor.

A tese que este artigo foi escrito para testar diz o seguinte: o retorno da criatividade é maior onde ela é mais rara, porque setores sem concorrência criativa pagariam prêmio por diferenciação. A primeira metade dessa frase é verificável com dado público brasileiro. A segunda não é. O texto explica por quê, e não conclui a favor de quem escreve.

Onde trabalha o profissional criativo que não está num setor criativo

A Firjan separa duas leituras do mesmo levantamento. A ótica da produção conta a riqueza gerada por estabelecimentos criativos. A ótica do mercado de trabalho conta profissionais criativos onde quer que estejam empregados, inclusive em setores não criativos. É a segunda que interessa a este artigo, e é a menos usada das duas.

Na edição de 2025 do Mapeamento da Indústria Criativa, elaborada sobre a Relação Anual de Informações Sociais de 2023, a Firjan registra 1,262 milhão de profissionais criativos com emprego formal no país. E registra que a maioria deles, mais de 1 milhão, trabalha em empresas cuja atividade principal não é considerada criativa.

O recorte setorial que a instituição divulga vai um passo adiante. Em 2023, 17,5% dos trabalhadores criativos, ou 221,38 mil pessoas, estavam na indústria clássica, a de transformação de matéria-prima em produto físico. Um em cada seis profissionais criativos formais do Brasil trabalha numa fábrica.

Duas ressalvas de leitura. O dado cobre só o emprego com carteira assinada, o que exclui o profissional autônomo e o contrato de prestação de serviço, que são frequentes nessas funções. E a Firjan não publica abertamente a metodologia do mapeamento: o relatório completo exige cadastro, e o release não descreve o método de classificação das ocupações.

1,262 mi
Profissionais criativos com emprego formal no Brasil em 2023. Mais de 1 milhão deles em empresa de atividade principal não criativa.
Firjan, Mapeamento da Indústria Criativa 2025
0,714%
Parcela da receita líquida que a fabricação de produtos têxteis gastou com atividades inovativas em 2017, contra 1,952% do conjunto pesquisado.
IBGE, Pesquisa de Inovação, 2020
1,69%
Fatia das empresas de fabricação de móveis que lançaram produto novo para o mercado nacional no triênio 2015 a 2017.
IBGE, Pesquisa de Inovação, 2020

O que a estatística brasileira de inovação não olha

A Pesquisa de Inovação do IBGE cobre indústrias extrativas e de transformação, eletricidade e gás e uma lista curta de serviços selecionados. Agropecuária, saúde humana, educação, construção e serviços jurídicos ficam fora do universo. Boa parte dos setores que a discussão chama de tradicionais não é medida pela estatística que deveria descrevê-los.

Vale dimensionar o que fica de fora. O Cadastro Central de Empresas do IBGE registrou, em 2023, 65,96 milhões de pessoas ocupadas em 10,03 milhões de empresas e outras organizações no Brasil. A seção de artes, cultura, esporte e recreação, a mais próxima de um setor criativo declarado na classificação oficial, reunia 529.461 pessoas, 0,80% do total.

No mesmo cadastro, a indústria de transformação ocupava 8.888.363 pessoas, a saúde humana e os serviços sociais 4.561.195, as atividades profissionais, científicas e técnicas 2.637.849, e a agropecuária formal 1.176.365. A conta é simples e desconfortável: a criatividade é rara exatamente onde está a massa da economia formal brasileira.

Um dos poucos serviços de projeto que a Pintec alcança ajuda a fixar a ordem de grandeza. Entre as 3.753 empresas de serviços de arquitetura e engenharia pesquisadas, 21,18% implementaram alguma inovação no triênio, uma das taxas mais baixas do levantamento inteiro, e 3,06% chegaram a algo novo para o mercado nacional. O gasto inovativo sobre a receita ficou em 1,713%, abaixo da média geral. Onde o projeto é o próprio produto vendido, o indicador de novidade também é modesto.

Isso é uma afirmação sobre escassez, não sobre valor. Escassez de oferta e prêmio de preço são coisas diferentes, e a distância entre as duas é o assunto das próximas seções.

O setor que gasta acima da média e ainda assim não lança nada novo

A fabricação de móveis gastou 2,230% da receita líquida com atividades inovativas em 2017, acima da média de 1,952% do conjunto pesquisado. E 34,53% das empresas do ramo implementaram alguma inovação no triênio. Mesmo assim, apenas 87 empresas de móveis em todo o país, 1,69% do setor, lançaram produto novo para o mercado nacional.

O contraste desmonta uma leitura preguiçosa. O problema dos setores de consumo material brasileiros não é gastar pouco com inovação, é gastar em melhoria incremental. Inovar, na definição da pesquisa, inclui trocar uma máquina e ajustar um processo. Lançar algo inédito no mercado nacional é outra coisa, e quase ninguém faz.

Na confecção de vestuário, 4.969 das 14.365 empresas pesquisadas inovaram no triênio, e 176 delas, 1,23% do setor, chegaram a um produto novo para o mercado nacional. Na fabricação de produtos têxteis, o gasto inovativo foi de 0,714% da receita, o menor entre os grandes ramos de consumo, cinco vezes abaixo do 3,626% da indústria farmacêutica.

AtividadeEmpresasGasto inovativo sobre receitaInovaram no triênioProduto novo para o mercado nacional
Fabricação de móveis5.1412,230%34,53%1,69%
Confecção de vestuário e acessórios14.3651,411%34,59%1,23%
Fabricação de produtos têxteis3.3390,714%29,65%7,76%
Fabricação de produtos de madeira4.2061,577%21,85%1,90%
Fabricação de produtos farmacêuticos3943,626%40,86%18,53%
Universo total da pesquisa116.9621,952%33,63%4,79%

Fonte de todas as colunas: IBGE, Pesquisa de Inovação, tabelas 5453 e 5465, dados do triênio 2015 a 2017, divulgados em 2020.

Por que a hipótese confortável pode estar invertida

"Ninguém oferece, logo quem oferecer cobra prêmio" é uma frase agradável para quem vende criatividade. A leitura contrária é igualmente compatível com os mesmos números: o setor investe pouco porque já tentou e o retorno foi pequeno. Nenhum dado público brasileiro escolhe entre as duas hipóteses.

Há um pedaço de evidência que contraria a versão pessimista. Entre as empresas de fabricação de móveis que inovaram em produto, 39,1% tiram mais de 40% das vendas internas justamente dos produtos novos. Na confecção de vestuário, essa fatia chega a 61,7%. Não é o retrato de um setor que tentou e não obteve retorno.

Só que a mesma estatística tem um problema óbvio. Na confecção, produto novo é a coleção. A pesquisa mede renovação de catálogo, não diferenciação de marca, e as duas coisas se confundem no formulário. O número prova que o setor vende o que acabou de fazer. Não prova que ele cobra mais por isso.

O agronegócio oferece o caso em que o número de retorno existe e é grande. O Balanço Social 2025 da Embrapa, sobre 166 soluções tecnológicas e 110 cultivares, calcula R$ 124,76 bilhões de lucro social e R$ 27,12 devolvidos à sociedade por real aplicado. Convém dizer quem produziu: é a Embrapa medindo a Embrapa, sem auditoria independente publicada junto.

Na contagem por campo tecnológico, o desequilíbrio se repete. Das 4.973 concessões de patente de invenção a residentes no Brasil em 2023, 96 couberam ao campo de móveis e jogos e 91 a outros bens de consumo, contra 264 em tecnologia médica e 252 em química de alimentos. Outras 1.014 concessões não foram classificadas por campo. Fonte: MCTI, Indicadores Nacionais de Ciência, Tecnologia e Inovação, edição 2025.

O que muda quando a criatividade entra por dentro, e o que não muda

Quem assina este texto vende consultoria e projeto criativo a empresas, inclusive de setores tradicionais. Isso torna a tese confortável demais para o autor, e é motivo para tratá-la com mais desconfiança, não com menos. O que segue é só o que o dado permite dizer.

O dado permite dizer que a criatividade dentro de setores não criativos é um fato de mercado de trabalho, não uma promessa. Mais de 1 milhão de pessoas já fazem esse trabalho no Brasil formal, e a estatística de setor não as enxerga. Uma empresa industrial que contrata projeto não está inaugurando categoria, está entrando numa fila longa.

O dado também permite dizer onde a diferenciação é estruturalmente rara: móveis, vestuário, madeira. Em três ramos de consumo material, menos de 2% das empresas chegam a um produto novo para o mercado nacional. Isso é uma medida de raridade limpa, e é diferente de uma medida de oportunidade.

O que o dado não permite dizer é que a raridade se converte em prêmio. O report de tendências desta casa ordena dez setores por oportunidade e coloca arquitetura e interiores e hospitalidade no topo, com mobiliário de autor abaixo deles. É leitura própria da casa, construída sobre crescimento e aderência a comportamento, e não sobre margem observada. Vale registrar que ela ordena mercados nos quais a casa atua.

Onde o entusiasmo do mercado é maior que o dado

O recorte setorial mais rico deste artigo vem de uma pesquisa que mede 2015 a 2017 e foi divulgada em 2020. Não existe edição posterior da Pintec com o mesmo detalhe por atividade. Qualquer afirmação sobre o comportamento atual dos setores é extrapolação, e deve ser lida como tal.

A segunda fragilidade é de escopo. Agro, saúde, direito e construção, os quatro setores que a conversa sobre criatividade em ambiente tradicional cita com mais frequência, estão fora do universo da Pintec. Sobre eles, este artigo consegue medir tamanho de emprego pelo Cadastro Central de Empresas e pouco mais.

A terceira é de fonte. A Firjan não publica método aberto, e o número de profissionais criativos fora dos setores criativos aparece arredondado por ela mesma como "mais de 1 milhão". O dado do agro vem da Embrapa sobre a própria Embrapa. O ordenamento de oportunidade vem desta casa, que vende serviço nos setores que ordena.

A quarta é a mais importante, e não se resolve com mais pesquisa de campo: não há estatística oficial brasileira que ligue investimento em criatividade a margem por atividade econômica. Sem isso, prêmio por diferenciação é hipótese, e quem afirmar o contrário está vendendo, não medindo.

O que dá para afirmar sem exagerar

A criatividade é rara nos setores tradicionais brasileiros, e a raridade é grande, medida e verificável. O prêmio que ela produziria não é nada disso. Quem decidir investir em projeto dentro de uma indústria está tomando uma decisão razoável sobre um mercado pouco disputado, não colhendo um retorno já demonstrado.

A distinção não é retórica. Ela muda o que se pede da decisão. Uma aposta sobre mercado pouco disputado exige teste, prazo e critério de saída. Um retorno demonstrado exigiria só execução. Confundir as duas coisas é o erro mais caro que se comete nessa conversa, e é o erro que interessa a quem vende.

Mais de 1 milhão de profissionais criativos já trabalham em empresas que não se chamam criativas. O que falta ao Brasil não é criatividade dentro da indústria: é medida do que ela faz lá dentro.

perguntas frequentes

o que significa criatividade em setores tradicionais?

É o trabalho de projeto, autoria e diferenciação exercido dentro de empresas que não declaram atividade principal criativa: indústria, agropecuária, construção, saúde, serviços profissionais. A Firjan chama isso de ótica do mercado de trabalho, e mede o profissional criativo onde quer que ele esteja empregado, e não onde a empresa está classificada.

quantos profissionais criativos brasileiros trabalham fora dos setores criativos?

Mais de 1 milhão, dentro de um total de 1,262 milhão de profissionais criativos com emprego formal em 2023, segundo o Mapeamento da Indústria Criativa 2025 da Firjan, elaborado sobre a Rais. Desse conjunto, 17,5%, ou 221,38 mil pessoas, estavam na indústria de transformação.

setores tradicionais pagam mais por diferenciação porque ela é rara?

Não há dado público brasileiro que sustente essa afirmação. A raridade é mensurável, o prêmio não. Os mesmos números aceitam a leitura contrária, de que o setor investe pouco porque o retorno obtido foi pequeno. Nenhuma estatística oficial liga criatividade a margem por atividade econômica.

a Pesquisa de Inovação do IBGE cobre agro, saúde e direito?

Não. A Pintec cobre indústrias extrativas e de transformação, eletricidade e gás e uma lista curta de serviços selecionados. Agropecuária, saúde humana, educação, construção e serviços jurídicos ficam fora do universo pesquisado. Boa parte dos setores chamados de tradicionais não aparece na principal estatística brasileira de inovação.

qual setor industrial brasileiro menos lança produto novo para o mercado nacional?

Entre os grandes ramos de consumo, a confecção de vestuário. No triênio 2015 a 2017, 176 das 14.365 empresas pesquisadas, ou 1,23%, lançaram produto novo para o mercado nacional. Na fabricação de móveis foram 87 empresas, 1,69% do total. Fonte: IBGE, Pesquisa de Inovação.

Retrato de Marcus Yabe
sobre o autor

Marcus Yabe

sócio-fundador · estratégia e criatividade

Trabalha no encontro entre estratégia, comunicação, negócios, conteúdo e relações. Foi CEO do LIDE Paraná, diretor executivo da Paraná Business e publisher da TOPVIEW.

fontes
  1. Firjan. Mapeamento da Indústria Criativa 2025, release geral, 2025.
  2. IBGE. Pesquisa de Inovação, tabela 5453, empresas que implementaram inovações por atividade, 2020.
  3. IBGE. Pesquisa de Inovação, tabela 5465, dispêndios com atividades inovativas por atividade, 2020.
  4. IBGE. Pesquisa de Inovação, tabela 5618, participação dos produtos novos nas vendas internas, 2020.
  5. IBGE. Cadastro Central de Empresas, tabela 9418, 2025.
  6. MCTI. Indicadores Nacionais de Ciência, Tecnologia e Inovação, edição 2025, 2025.
  7. Embrapa. Balanço Social 2025, 2026.
  8. amano casa criativa. Tendências da cultura material 2026, 2026.
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