
Densa acima da média do país. Não acima do próprio tamanho.
Cena criativa é o conjunto de atividades de uma cidade cuja matéria-prima é projeto, e a única forma honesta de comparar uma cidade com outra é por densidade, não por volume. Em Curitiba, 58.906 pessoas estavam ocupadas nessas atividades em 2024, ou 46,7 a cada mil ocupados formais, contra 31,0 na média brasileira (IBGE, Cadastro Central de Empresas, 2024). É uma vez e meia o país. E é a sétima marca entre as 27 capitais.
A frase de que Curitiba é uma cidade criativa circula há uma década em apresentação institucional, em edital e em conversa de mesa. Quase nunca vem com número, e quando vem, o número é absoluto: tantos empregos, tantas empresas. Número absoluto não compara nada. Mede o tamanho da cidade, e o tamanho já se sabia.
A pergunta que interessa é mais difícil de responder com elogio. Curitiba tem mais trabalho criativo do que uma cidade do seu porte teria de qualquer maneira? A hipótese inicial deste texto era que sim. O dado devolve uma resposta parcial, e a parte que ele nega é a mais citada.
Este texto mede uma cidade, não um país. O artigo desta seção sobre as duas medidas da economia criativa brasileira comparou Firjan e IBGE em escala nacional. Aqui o recorte é municipal, a unidade é densidade de emprego formal e a pergunta é única: Curitiba está acima do que o próprio tamanho já explicaria?
A Firjan seria a fonte natural. O Mapeamento da Indústria Criativa no Brasil, na edição de 2025, com dados de 2023, é a série mais longa do assunto no país. Mas a relação de estudos publicados do Observatório Firjan traz um único recorte municipal aberto, o da cidade do Rio de Janeiro, e o relatório completo está atrás de cadastro sem descrição de método. Afirmar participação criativa de Curitiba com a marca da Firjan seria empréstimo de autoridade, não apuração.
A alternativa é o Cadastro Central de Empresas do IBGE, que publica pessoal ocupado por classe da CNAE 2.0 para cada município. A edição com dados de 2024 saiu em junho de 2026, e é a base mais recente com esse detalhe territorial.
O perímetro adotado aqui reúne vinte grupos e classes: edição de livros e periódicos, edição integrada à impressão, cinema, vídeo e programas de televisão, gravação de som, rádio, televisão, tecnologia da informação, tratamento de dados, outros serviços de informação, serviços de arquitetura, pesquisa e desenvolvimento em ciências físicas, naturais, sociais e humanas, publicidade, pesquisa de mercado, design e decoração de interiores, fotografia, artes e espetáculos, patrimônio cultural e ambiental, joalheria e instrumentos musicais. O denominador é o pessoal ocupado total do município. Quem trocar o perímetro troca o resultado, e por isso ele está escrito por extenso.
Na proporção, a cidade está claramente acima da média brasileira. São 46,7 ocupados em atividades criativas por mil ocupados formais em Curitiba, contra 31,0 no Brasil e 29,6 no conjunto do Paraná, pelo Cadastro Central de Empresas do IBGE de 2024. A cidade concentra 43,4% do trabalho criativo do estado tendo 27,5% do emprego formal paranaense.
Esse contraste com o próprio estado é a parte mais sólida da tese. Curitiba não é apenas maior que o resto do Paraná: é desproporcionalmente criativa dentro dele. Quem procura mão de obra de projeto no estado não tem escolha real de endereço.
A vantagem sobre o país sobrevive quando se retira a tecnologia da conta. Excluindo tecnologia da informação, tratamento de dados, outros serviços de informação e pesquisa e desenvolvimento, sobra um núcleo de edição, audiovisual, arquitetura, publicidade, design, fotografia, artes e patrimônio. Nele, Curitiba registra 18,2 por mil contra 13,1 do Brasil, ou 1,39 vez a média. Em 2022 eram 17,1 contra 12,4.
Comparada com o Brasil inteiro, Curitiba se destaca. Comparada com outras capitais, não. Seis capitais ficam à frente na densidade criativa, e três delas têm mercado de trabalho formal menor que o curitibano: Florianópolis, Porto Alegre e Vitória. Porto Alegre tem 71% do mercado formal de Curitiba e 30% mais densidade criativa.
| Capital | Ocupados formais | Criativos por mil | Núcleo sem tecnologia | População 2024 |
|---|---|---|---|---|
| Florianópolis | 411.224 | 77,1 | 22,6 | 576.361 |
| São Paulo | 6.822.182 | 72,9 | 29,5 | 11.895.578 |
| Porto Alegre | 892.726 | 60,6 | 21,5 | 1.389.322 |
| Fortaleza | 1.025.173 | 51,9 | 15,6 | 2.574.412 |
| Rio de Janeiro | 2.997.653 | 49,8 | 25,4 | 6.729.894 |
| Vitória | 276.540 | 48,1 | 15,7 | 342.800 |
| Curitiba | 1.262.165 | 46,7 | 18,2 | 1.829.225 |
| Belo Horizonte | 1.730.476 | 43,5 | 13,1 | 2.416.339 |
| Brasília | 1.833.502 | 39,6 | 12,2 | 2.982.818 |
| Recife | 829.869 | 37,5 | 14,1 | 1.587.707 |
| Goiânia | 859.452 | 30,6 | 15,3 | 1.494.599 |
| Brasil | 68.039.600 | 31,0 | 13,1 | 212,6 milhões |
Fontes da tabela: IBGE, Cadastro Central de Empresas e estimativas da população, 2024. A coluna do núcleo exclui tecnologia da informação, tratamento de dados, outros serviços de informação e pesquisa e desenvolvimento.
A hipótese original deste artigo era que Curitiba tem densidade criativa acima do que o seu tamanho explicaria. Ela se confirma no sinal e não na magnitude. Numa regressão da densidade das 27 capitais contra o logaritmo natural do pessoal ocupado total, que explica 49,0% da variação, Curitiba fica 3,00 pontos acima da linha prevista, contra 21,94 de Porto Alegre e 49,68 de Florianópolis.
O resultado depende da forma que se dá à conta. Quatro especificações sobre os mesmos dados:
O sinal sobrevive às quatro. A magnitude não: entre +0,60 e +12,14 está a diferença entre encostar na linha e ficar confortavelmente acima dela. A leitura defensável é a modesta. Curitiba fica um pouco acima do que o tamanho do mercado prevê, e bem abaixo do que Porto Alegre e Florianópolis fazem com mercados menores.
A trajetória recente reforça a ressalva. A densidade criativa curitibana era de 47,5 por mil em 2022, caiu para 46,1 em 2023 e voltou a 46,7 em 2024. No mesmo intervalo, o Brasil foi de 30,0 para 31,0 e Porto Alegre subiu de 56,8 para 60,6. A distância para a média nacional caiu de 1,58 vez para 1,51 vez. A cidade não perde trabalho criativo em número absoluto: cresce mais devagar que o resto da própria economia.
A parte específica de Curitiba aparece quando se abre o perímetro por atividade. A cidade tem densidade 2,35 vezes a nacional em edição de livros, jornais e revistas, 2,06 vezes em design de interiores, 1,72 vez em arquitetura e 1,46 vez em publicidade, pelo Cadastro Central de Empresas do IBGE de 2024. Nenhuma dessas quatro é arte.
Em números diretos, são 1.876 pessoas em edição, 865 em design de interiores, 2.089 em arquitetura e 10.515 em publicidade. A publicidade é a maior atividade criativa da cidade fora da tecnologia e cresceu 22,3% entre 2022 e 2024, junto com design de interiores, também 22,3%, e arquitetura, 20,9%, contra 4,1% da tecnologia da informação.
Em edição, Curitiba tem a segunda maior densidade entre as capitais, atrás apenas de São Paulo. Fora do perímetro adotado aqui, mas na mesma direção, a impressão ocupa 2.832 pessoas na cidade, com densidade 1,47 vez a nacional. Curitiba é praça de papel, de gráfica e de edição antes de ser qualquer outra coisa no campo criativo, e isso raramente aparece no discurso institucional sobre a cidade.
O perímetro criativo usado neste artigo reúne vinte grupos e classes da CNAE 2.0 e conta apenas empresas e organizações formalizadas com unidade local no município. Ele não alcança quem trabalha sem CNPJ, não mede faturamento nem qualidade, e não inclui a atividade de impressão, citada à parte. No cruzamento das 27 capitais por 20 classes, 76 células estão suprimidas por sigilo estatístico e entram como zero: nenhuma delas em Curitiba, Brasil, Paraná, Porto Alegre, São Paulo ou Rio de Janeiro, mas quinze das vinte classes de Boa Vista, por exemplo, estão nessa condição. Fonte: IBGE, Cadastro Central de Empresas, dados de 2024.
O outro lado da composição é menos confortável. Curitiba é cidade criativa da UNESCO no campo do design desde 1 de dezembro de 2014, quando 28 cidades de 19 países entraram na rede. A designação tem lastro parcial: design de interiores e arquitetura estão de fato bem acima da média nacional. Mas o campo propriamente cultural não acompanha. Em atividades artísticas, criativas e de espetáculos, Curitiba registra densidade 1,22 vez a nacional e aparece só em décimo lugar entre as capitais, atrás de Rio de Janeiro, Goiânia, Manaus, Porto Alegre, São Paulo, Salvador, Aracaju, Belo Horizonte e Fortaleza. Em atividades ligadas ao patrimônio cultural e ambiental, a cidade tem 134 pessoas ocupadas e densidade de 0,48 vez a média brasileira.
Parte disso é artefato de classificação: museu e teatro públicos entram na administração pública, não nessas classes. Ainda assim, o contraste é forte demais para ser ruído. A cena criativa curitibana é de encomenda, não de repertório. Vive de cliente que paga projeto, não de público que paga ingresso.
Curitiba tinha 22.065 unidades locais criativas em 2024, ou 91,1 a cada mil unidades da cidade, contra 55,0 na média brasileira. A densidade de empresas criativas é maior que a de pessoas, e a diferença diz o essencial: as empresas são pequenas. A média é de 2,67 pessoas por unidade, contra 3,23 no Brasil.
O dado de vínculo confirma o desenho. Apenas 50,3% das pessoas ocupadas em atividades criativas em Curitiba são assalariadas. Na economia da cidade como um todo, a proporção é de 75,3%. No setor criativo brasileiro, 59,3%. Metade da cena criativa curitibana é sócio, titular ou proprietário sem salário registrado.
Em algumas atividades o quadro é extremo. Nos serviços de arquitetura da cidade, só 7,2% das pessoas ocupadas são assalariadas. Em design e decoração de interiores, 11,6%. São setores compostos quase inteiramente por escritórios de uma pessoa com CNPJ próprio, e isso limita a capacidade de absorver um projeto grande.
O report anatomia do luxo brasileiro, da amano, registra 77.383 empregos formais na economia criativa do Paraná ao fim de 2025 e 57.019 empregos em atividades de alta intensidade tecnológica em Curitiba, atribuídos ao Ipardes, e conclui que a cidade já tem massa crítica formada. Os perímetros não coincidem com o deste artigo, e a leitura do report merece um ajuste: a massa existe, mas está pulverizada em milhares de unidades muito pequenas. Massa crítica de gente não é capacidade instalada de execução.
Quatro ressalvas honestas, e a primeira é a que mais pesa. O perímetro criativo usado aqui é uma escolha deste artigo, não uma definição oficial. Trocar quatro classes muda a posição de Curitiba no ranking das capitais. Toda comparação de cena criativa entre cidades carrega essa arbitrariedade, e quase nenhuma a declara.
A segunda é de cobertura. O Cadastro conta unidades locais formalizadas. O fotógrafo sem CNPJ, o ilustrador que emite recibo, o músico que toca por cachê e o redator que trabalha por projeto não aparecem. Num setor onde metade dos ocupados formais já não é assalariada, a informalidade deve ser alta, e nada nesta base a mede.
A terceira é de fronteira municipal. O Cadastro registra a unidade local onde ela está inscrita, não onde o trabalho acontece. Empresa com sede em Curitiba e produção em São José dos Pinhais conta para Curitiba. Cidade polo de região metropolitana tende a ser superestimada assim, e Curitiba é uma delas.
A quarta é de conteúdo. Densidade mede quantas pessoas, não o que elas fazem nem quanto isso vale. Uma cidade pode ter alta densidade criativa executando trabalho barato em volume, que é o pior motivo para aparecer bem no indicador. O Cadastro publica salários, mas comparar salário médio entre municípios com metade dos ocupados sem vínculo assalariado produz mais ruído que informação.
Curitiba é uma praça criativa densa e especializada, e não é uma praça criativa excepcional. A densidade de 46,7 por mil é uma vez e meia a média brasileira e a sétima entre as 27 capitais, com Porto Alegre e Florianópolis à frente com mercados menores. Quem quiser vender a cidade como polo criativo do país precisa de outro argumento.
O argumento existe, e é mais interessante que o superlativo. Curitiba é a capital com a segunda maior concentração de trabalho em edição do país, tem o dobro da média nacional em design de interiores, quase o dobro em arquitetura e um dos maiores contingentes de publicidade fora de São Paulo. As quatro competências se somam em uma coisa só: a cidade sabe fazer projeto para terceiros. É vocação de fornecedor qualificado, não de cena artística.
Para quem constrói marca, isso muda a leitura em dois pontos. O primeiro é de contratação: existe mão de obra de projeto disponível na cidade, barata de encontrar e cara de coordenar, porque está pulverizada em unidades de duas ou três pessoas. O segundo é de posicionamento: Curitiba tem selo da UNESCO no design e ocupa em patrimônio menos da metade da proporção nacional. O selo descreve uma intenção de política pública. O dado descreve um mercado.
A cidade tem densidade criativa acima do país e dentro do que o próprio tamanho já previa. O que ela tem de fora da curva não é a quantidade de gente criativa: é o tipo de trabalho que essa gente faz.
É verificável. Em 2024, 58.906 pessoas trabalhavam em atividades criativas formais na cidade, ou 46,7 a cada mil ocupados, contra 31,0 na média brasileira, segundo o Cadastro Central de Empresas do IBGE. A densidade é uma vez e meia a nacional. Entre as 27 capitais, porém, Curitiba aparece em sétimo lugar.
Florianópolis, com 77,1 ocupados em atividades criativas por mil ocupados formais em 2024, seguida por São Paulo, com 72,9, e Porto Alegre, com 60,6, pelo Cadastro Central de Empresas do IBGE. Curitiba registra 46,7. Como Florianópolis tem mercado formal três vezes menor, o número absoluto inverteria essa ordem.
Porque o número absoluto responde ao tamanho da cidade e não à vocação dela. São Paulo tem 497.002 ocupados em atividades criativas e Curitiba tem 58.906, pelo IBGE em 2024. A proporção sobre o total de ocupados de cada município é o que permite comparar cidades de portes diferentes sem enganar ninguém.
Em edição de livros, jornais e revistas, com densidade 2,35 vezes a média nacional, a segunda maior entre as capitais depois de São Paulo. Também em design e decoração de interiores, 2,06 vezes, em serviços de arquitetura, 1,72 vez, e em publicidade, 1,46 vez, todos pelo Cadastro Central de Empresas do IBGE de 2024.
Design. A designação saiu em 1 de dezembro de 2014, quando a UNESCO admitiu 28 cidades de 19 países na Rede de Cidades Criativas. Curitiba entrou pelo campo do design, ao lado de Bilbao, Dundee, Helsinque e Turim. Florianópolis entrou na mesma leva, pelo campo da gastronomia.

Trabalha no encontro entre estratégia, comunicação, negócios, conteúdo e relações. Foi CEO do LIDE Paraná, diretor executivo da Paraná Business e publisher da TOPVIEW.
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