Malha de pontos ligados por linhas finas, com um adensamento colorido em uma das pontas
← artigos
curitiba & sul

a cena criativa de Curitiba, medida por densidade

Densa acima da média do país. Não acima do próprio tamanho.

por Marcus Yabe · publicado em · atualizado em · leitura de 10 minutos

Cena criativa é o conjunto de atividades de uma cidade cuja matéria-prima é projeto, e a única forma honesta de comparar uma cidade com outra é por densidade, não por volume. Em Curitiba, 58.906 pessoas estavam ocupadas nessas atividades em 2024, ou 46,7 a cada mil ocupados formais, contra 31,0 na média brasileira (IBGE, Cadastro Central de Empresas, 2024). É uma vez e meia o país. E é a sétima marca entre as 27 capitais.

A frase de que Curitiba é uma cidade criativa circula há uma década em apresentação institucional, em edital e em conversa de mesa. Quase nunca vem com número, e quando vem, o número é absoluto: tantos empregos, tantas empresas. Número absoluto não compara nada. Mede o tamanho da cidade, e o tamanho já se sabia.

A pergunta que interessa é mais difícil de responder com elogio. Curitiba tem mais trabalho criativo do que uma cidade do seu porte teria de qualquer maneira? A hipótese inicial deste texto era que sim. O dado devolve uma resposta parcial, e a parte que ele nega é a mais citada.

O que este artigo mede, e o que o artigo irmão já mediu

Este texto mede uma cidade, não um país. O artigo desta seção sobre as duas medidas da economia criativa brasileira comparou Firjan e IBGE em escala nacional. Aqui o recorte é municipal, a unidade é densidade de emprego formal e a pergunta é única: Curitiba está acima do que o próprio tamanho já explicaria?

A Firjan seria a fonte natural. O Mapeamento da Indústria Criativa no Brasil, na edição de 2025, com dados de 2023, é a série mais longa do assunto no país. Mas a relação de estudos publicados do Observatório Firjan traz um único recorte municipal aberto, o da cidade do Rio de Janeiro, e o relatório completo está atrás de cadastro sem descrição de método. Afirmar participação criativa de Curitiba com a marca da Firjan seria empréstimo de autoridade, não apuração.

A alternativa é o Cadastro Central de Empresas do IBGE, que publica pessoal ocupado por classe da CNAE 2.0 para cada município. A edição com dados de 2024 saiu em junho de 2026, e é a base mais recente com esse detalhe territorial.

O perímetro adotado aqui reúne vinte grupos e classes: edição de livros e periódicos, edição integrada à impressão, cinema, vídeo e programas de televisão, gravação de som, rádio, televisão, tecnologia da informação, tratamento de dados, outros serviços de informação, serviços de arquitetura, pesquisa e desenvolvimento em ciências físicas, naturais, sociais e humanas, publicidade, pesquisa de mercado, design e decoração de interiores, fotografia, artes e espetáculos, patrimônio cultural e ambiental, joalheria e instrumentos musicais. O denominador é o pessoal ocupado total do município. Quem trocar o perímetro troca o resultado, e por isso ele está escrito por extenso.

Curitiba tem uma vez e meia a densidade criativa do país

Na proporção, a cidade está claramente acima da média brasileira. São 46,7 ocupados em atividades criativas por mil ocupados formais em Curitiba, contra 31,0 no Brasil e 29,6 no conjunto do Paraná, pelo Cadastro Central de Empresas do IBGE de 2024. A cidade concentra 43,4% do trabalho criativo do estado tendo 27,5% do emprego formal paranaense.

Esse contraste com o próprio estado é a parte mais sólida da tese. Curitiba não é apenas maior que o resto do Paraná: é desproporcionalmente criativa dentro dele. Quem procura mão de obra de projeto no estado não tem escolha real de endereço.

A vantagem sobre o país sobrevive quando se retira a tecnologia da conta. Excluindo tecnologia da informação, tratamento de dados, outros serviços de informação e pesquisa e desenvolvimento, sobra um núcleo de edição, audiovisual, arquitetura, publicidade, design, fotografia, artes e patrimônio. Nele, Curitiba registra 18,2 por mil contra 13,1 do Brasil, ou 1,39 vez a média. Em 2022 eram 17,1 contra 12,4.

46,7
Ocupados em atividades criativas por mil ocupados formais em Curitiba, contra 31,0 na média brasileira e 29,6 no Paraná.
IBGE, Cadastro Central de Empresas, 2024, cálculo próprio sobre a tabela 9528
Posição de Curitiba entre as 27 capitais nessa densidade. A cidade é a 5ª em tamanho de mercado formal e a 8ª em população.
IBGE, Cadastro Central de Empresas e Estimativas da População, 2024
2,35×
Quantas vezes a densidade de ocupação em edição de livros, jornais e revistas de Curitiba supera a média nacional. É a segunda maior entre as capitais.
IBGE, Cadastro Central de Empresas, 2024

Ao lado de capitais do mesmo porte, a vantagem encolhe

Comparada com o Brasil inteiro, Curitiba se destaca. Comparada com outras capitais, não. Seis capitais ficam à frente na densidade criativa, e três delas têm mercado de trabalho formal menor que o curitibano: Florianópolis, Porto Alegre e Vitória. Porto Alegre tem 71% do mercado formal de Curitiba e 30% mais densidade criativa.

CapitalOcupados formaisCriativos por milNúcleo sem tecnologiaPopulação 2024
Florianópolis411.22477,122,6576.361
São Paulo6.822.18272,929,511.895.578
Porto Alegre892.72660,621,51.389.322
Fortaleza1.025.17351,915,62.574.412
Rio de Janeiro2.997.65349,825,46.729.894
Vitória276.54048,115,7342.800
Curitiba1.262.16546,718,21.829.225
Belo Horizonte1.730.47643,513,12.416.339
Brasília1.833.50239,612,22.982.818
Recife829.86937,514,11.587.707
Goiânia859.45230,615,31.494.599
Brasil68.039.60031,013,1212,6 milhões

Fontes da tabela: IBGE, Cadastro Central de Empresas e estimativas da população, 2024. A coluna do núcleo exclui tecnologia da informação, tratamento de dados, outros serviços de informação e pesquisa e desenvolvimento.

A hipótese original deste artigo era que Curitiba tem densidade criativa acima do que o seu tamanho explicaria. Ela se confirma no sinal e não na magnitude. Numa regressão da densidade das 27 capitais contra o logaritmo natural do pessoal ocupado total, que explica 49,0% da variação, Curitiba fica 3,00 pontos acima da linha prevista, contra 21,94 de Porto Alegre e 49,68 de Florianópolis.

O resultado depende da forma que se dá à conta. Quatro especificações sobre os mesmos dados:

  1. Densidade contra o logaritmo do tamanho, a usada acima: Curitiba +3,00, Porto Alegre +21,94, Vitória +26,47, Florianópolis +49,68.
  2. Densidade contra o tamanho em nível, sem logaritmo: Curitiba +12,14, Porto Alegre +29,21, Vitória +22,02, Florianópolis +49,83. Aqui Vitória e Porto Alegre trocam de posição.
  3. Perímetro do núcleo, sem tecnologia, na forma logarítmica: Curitiba +0,60, praticamente em cima da linha.
  4. Excluindo as seis capitais com cinco ou mais classes suprimidas por sigilo: Curitiba +2,26.

O sinal sobrevive às quatro. A magnitude não: entre +0,60 e +12,14 está a diferença entre encostar na linha e ficar confortavelmente acima dela. A leitura defensável é a modesta. Curitiba fica um pouco acima do que o tamanho do mercado prevê, e bem abaixo do que Porto Alegre e Florianópolis fazem com mercados menores.

A trajetória recente reforça a ressalva. A densidade criativa curitibana era de 47,5 por mil em 2022, caiu para 46,1 em 2023 e voltou a 46,7 em 2024. No mesmo intervalo, o Brasil foi de 30,0 para 31,0 e Porto Alegre subiu de 56,8 para 60,6. A distância para a média nacional caiu de 1,58 vez para 1,51 vez. A cidade não perde trabalho criativo em número absoluto: cresce mais devagar que o resto da própria economia.

O que distingue a cidade não é o tamanho da cena, é a composição

A parte específica de Curitiba aparece quando se abre o perímetro por atividade. A cidade tem densidade 2,35 vezes a nacional em edição de livros, jornais e revistas, 2,06 vezes em design de interiores, 1,72 vez em arquitetura e 1,46 vez em publicidade, pelo Cadastro Central de Empresas do IBGE de 2024. Nenhuma dessas quatro é arte.

Em números diretos, são 1.876 pessoas em edição, 865 em design de interiores, 2.089 em arquitetura e 10.515 em publicidade. A publicidade é a maior atividade criativa da cidade fora da tecnologia e cresceu 22,3% entre 2022 e 2024, junto com design de interiores, também 22,3%, e arquitetura, 20,9%, contra 4,1% da tecnologia da informação.

Em edição, Curitiba tem a segunda maior densidade entre as capitais, atrás apenas de São Paulo. Fora do perímetro adotado aqui, mas na mesma direção, a impressão ocupa 2.832 pessoas na cidade, com densidade 1,47 vez a nacional. Curitiba é praça de papel, de gráfica e de edição antes de ser qualquer outra coisa no campo criativo, e isso raramente aparece no discurso institucional sobre a cidade.

O perímetro criativo usado neste artigo reúne vinte grupos e classes da CNAE 2.0 e conta apenas empresas e organizações formalizadas com unidade local no município. Ele não alcança quem trabalha sem CNPJ, não mede faturamento nem qualidade, e não inclui a atividade de impressão, citada à parte. No cruzamento das 27 capitais por 20 classes, 76 células estão suprimidas por sigilo estatístico e entram como zero: nenhuma delas em Curitiba, Brasil, Paraná, Porto Alegre, São Paulo ou Rio de Janeiro, mas quinze das vinte classes de Boa Vista, por exemplo, estão nessa condição. Fonte: IBGE, Cadastro Central de Empresas, dados de 2024.

O outro lado da composição é menos confortável. Curitiba é cidade criativa da UNESCO no campo do design desde 1 de dezembro de 2014, quando 28 cidades de 19 países entraram na rede. A designação tem lastro parcial: design de interiores e arquitetura estão de fato bem acima da média nacional. Mas o campo propriamente cultural não acompanha. Em atividades artísticas, criativas e de espetáculos, Curitiba registra densidade 1,22 vez a nacional e aparece só em décimo lugar entre as capitais, atrás de Rio de Janeiro, Goiânia, Manaus, Porto Alegre, São Paulo, Salvador, Aracaju, Belo Horizonte e Fortaleza. Em atividades ligadas ao patrimônio cultural e ambiental, a cidade tem 134 pessoas ocupadas e densidade de 0,48 vez a média brasileira.

Parte disso é artefato de classificação: museu e teatro públicos entram na administração pública, não nessas classes. Ainda assim, o contraste é forte demais para ser ruído. A cena criativa curitibana é de encomenda, não de repertório. Vive de cliente que paga projeto, não de público que paga ingresso.

A cena é feita de empresas de duas pessoas e meia

Curitiba tinha 22.065 unidades locais criativas em 2024, ou 91,1 a cada mil unidades da cidade, contra 55,0 na média brasileira. A densidade de empresas criativas é maior que a de pessoas, e a diferença diz o essencial: as empresas são pequenas. A média é de 2,67 pessoas por unidade, contra 3,23 no Brasil.

O dado de vínculo confirma o desenho. Apenas 50,3% das pessoas ocupadas em atividades criativas em Curitiba são assalariadas. Na economia da cidade como um todo, a proporção é de 75,3%. No setor criativo brasileiro, 59,3%. Metade da cena criativa curitibana é sócio, titular ou proprietário sem salário registrado.

Em algumas atividades o quadro é extremo. Nos serviços de arquitetura da cidade, só 7,2% das pessoas ocupadas são assalariadas. Em design e decoração de interiores, 11,6%. São setores compostos quase inteiramente por escritórios de uma pessoa com CNPJ próprio, e isso limita a capacidade de absorver um projeto grande.

O report anatomia do luxo brasileiro, da amano, registra 77.383 empregos formais na economia criativa do Paraná ao fim de 2025 e 57.019 empregos em atividades de alta intensidade tecnológica em Curitiba, atribuídos ao Ipardes, e conclui que a cidade já tem massa crítica formada. Os perímetros não coincidem com o deste artigo, e a leitura do report merece um ajuste: a massa existe, mas está pulverizada em milhares de unidades muito pequenas. Massa crítica de gente não é capacidade instalada de execução.

Onde este número é frágil

Quatro ressalvas honestas, e a primeira é a que mais pesa. O perímetro criativo usado aqui é uma escolha deste artigo, não uma definição oficial. Trocar quatro classes muda a posição de Curitiba no ranking das capitais. Toda comparação de cena criativa entre cidades carrega essa arbitrariedade, e quase nenhuma a declara.

A segunda é de cobertura. O Cadastro conta unidades locais formalizadas. O fotógrafo sem CNPJ, o ilustrador que emite recibo, o músico que toca por cachê e o redator que trabalha por projeto não aparecem. Num setor onde metade dos ocupados formais já não é assalariada, a informalidade deve ser alta, e nada nesta base a mede.

A terceira é de fronteira municipal. O Cadastro registra a unidade local onde ela está inscrita, não onde o trabalho acontece. Empresa com sede em Curitiba e produção em São José dos Pinhais conta para Curitiba. Cidade polo de região metropolitana tende a ser superestimada assim, e Curitiba é uma delas.

A quarta é de conteúdo. Densidade mede quantas pessoas, não o que elas fazem nem quanto isso vale. Uma cidade pode ter alta densidade criativa executando trabalho barato em volume, que é o pior motivo para aparecer bem no indicador. O Cadastro publica salários, mas comparar salário médio entre municípios com metade dos ocupados sem vínculo assalariado produz mais ruído que informação.

O que o dado permite dizer sobre Curitiba

Curitiba é uma praça criativa densa e especializada, e não é uma praça criativa excepcional. A densidade de 46,7 por mil é uma vez e meia a média brasileira e a sétima entre as 27 capitais, com Porto Alegre e Florianópolis à frente com mercados menores. Quem quiser vender a cidade como polo criativo do país precisa de outro argumento.

O argumento existe, e é mais interessante que o superlativo. Curitiba é a capital com a segunda maior concentração de trabalho em edição do país, tem o dobro da média nacional em design de interiores, quase o dobro em arquitetura e um dos maiores contingentes de publicidade fora de São Paulo. As quatro competências se somam em uma coisa só: a cidade sabe fazer projeto para terceiros. É vocação de fornecedor qualificado, não de cena artística.

Para quem constrói marca, isso muda a leitura em dois pontos. O primeiro é de contratação: existe mão de obra de projeto disponível na cidade, barata de encontrar e cara de coordenar, porque está pulverizada em unidades de duas ou três pessoas. O segundo é de posicionamento: Curitiba tem selo da UNESCO no design e ocupa em patrimônio menos da metade da proporção nacional. O selo descreve uma intenção de política pública. O dado descreve um mercado.

A cidade tem densidade criativa acima do país e dentro do que o próprio tamanho já previa. O que ela tem de fora da curva não é a quantidade de gente criativa: é o tipo de trabalho que essa gente faz.

perguntas frequentes

Curitiba é uma cidade criativa de verdade ou isso é discurso?

É verificável. Em 2024, 58.906 pessoas trabalhavam em atividades criativas formais na cidade, ou 46,7 a cada mil ocupados, contra 31,0 na média brasileira, segundo o Cadastro Central de Empresas do IBGE. A densidade é uma vez e meia a nacional. Entre as 27 capitais, porém, Curitiba aparece em sétimo lugar.

Qual capital brasileira tem a maior densidade de trabalho criativo?

Florianópolis, com 77,1 ocupados em atividades criativas por mil ocupados formais em 2024, seguida por São Paulo, com 72,9, e Porto Alegre, com 60,6, pelo Cadastro Central de Empresas do IBGE. Curitiba registra 46,7. Como Florianópolis tem mercado formal três vezes menor, o número absoluto inverteria essa ordem.

Por que medir densidade em vez do total de ocupados em atividades criativas?

Porque o número absoluto responde ao tamanho da cidade e não à vocação dela. São Paulo tem 497.002 ocupados em atividades criativas e Curitiba tem 58.906, pelo IBGE em 2024. A proporção sobre o total de ocupados de cada município é o que permite comparar cidades de portes diferentes sem enganar ninguém.

Em que atividades criativas Curitiba se destaca de fato?

Em edição de livros, jornais e revistas, com densidade 2,35 vezes a média nacional, a segunda maior entre as capitais depois de São Paulo. Também em design e decoração de interiores, 2,06 vezes, em serviços de arquitetura, 1,72 vez, e em publicidade, 1,46 vez, todos pelo Cadastro Central de Empresas do IBGE de 2024.

Curitiba é cidade criativa da UNESCO em que área?

Design. A designação saiu em 1 de dezembro de 2014, quando a UNESCO admitiu 28 cidades de 19 países na Rede de Cidades Criativas. Curitiba entrou pelo campo do design, ao lado de Bilbao, Dundee, Helsinque e Turim. Florianópolis entrou na mesma leva, pelo campo da gastronomia.

Retrato de Marcus Yabe
sobre o autor

Marcus Yabe

sócio-fundador · estratégia e criatividade

Trabalha no encontro entre estratégia, comunicação, negócios, conteúdo e relações. Foi CEO do LIDE Paraná, diretor executivo da Paraná Business e publisher da TOPVIEW.

fontes
  1. IBGE. Cadastro Central de Empresas, tabela 9528: unidades locais, pessoal ocupado e salários por classe da CNAE 2.0, dados de 2024, divulgados em 2026.
  2. IBGE. Estimativas da População residente nos municípios brasileiros, tabela 6579, 2024.
  3. UNESCO. 28 cities join the UNESCO Creative Cities Network, 1 de dezembro de 2014.
  4. Firjan. Mapeamento da Indústria Criativa no Brasil, edição de 2025, com dados de 2023.
  5. Firjan. Observatório, inteligência competitiva: relação de estudos publicados, 2026.
  6. amano casa criativa. Anatomia do luxo brasileiro, 2026.
  7. amano casa criativa. Economia criativa no Brasil: duas medidas que discordam, 2026.
continue

O tema não termina aqui.

report · o retorno ao campo

O deslocamento do valor para fora das capitais e o que ele muda no atendimento.

pilar do tema

economia criativa no Brasil, duas medidas

A medida nacional, e por que as duas fontes discordam entre si.

artigo

report · latin america in focus

Design latino-americano, tradução cultural e percepção de valor no mercado internacional.

report
conhecer a frente OFÍCIO