Mesa posta para convidados no meio de um interior de obra bruta
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lançamento imobiliário como experiência

Vender ficou mais caro no alto padrão. Vender mais, não.

por Marcus Yabe · publicado em · atualizado em · leitura de 9 minutos

Lançamento imobiliário como experiência é o formato de comercialização que troca a visita espontânea ao stand por uma sequência de encontros fechados, com convidados escolhidos, antes da abertura ao público. É uma tese de mercado, não um indicador. O que existe de auditado é o custo: doze incorporadoras de médio e alto padrão registradas na CVM gastaram 8,87% da receita líquida para vender em 2025, contra 7,31% em 2024.

A frase que circula no setor é que o stand de vendas morreu. Ela é confortável e falsa. Stand de vendas continua sendo uma fase formal de projeto, declarada em apresentação a investidor, e continua sendo despesa contabilizada e auditada. O que mudou não foi a existência do formato. Foi a suficiência dele.

Este texto usa uma fonte que quase ninguém abre para falar de lançamento: a linha de despesas com vendas nas demonstrações financeiras padronizadas entregues à Comissão de Valores Mobiliários. É número auditado, comparável entre companhias e entre anos, e disponível em dados abertos. Ele não diz o que a incorporadora fez para vender. Diz quanto custou, e quanto o custo mudou.

Dois artigos da casa já ocuparam terreno vizinho. Um tratou da diferença entre evento, experiência e ocasião. Outro tratou do espaço comercial como canal e de como atribuir valor a ele. Este aqui fica no momento da venda: quem entra primeiro, o que a companhia declara ter gasto, e o que o balanço consegue provar.

O stand não morreu, ele parou de bastar

O stand segue nos documentos oficiais. Na apresentação institucional da Lavvi de junho de 2026, cinco empreendimentos aparecem com o status formal de stand de vendas, entre eles o Zen, lançado em novembro de 2025 e ainda com 47,4% das unidades vendidas. A EZ Tec, no factsheet de 2026, mantém lançamento como fase de estoque, com R$ 860 milhões.

Isso encerra a versão fácil da tese. Uma incorporadora paulista de alto padrão, em documento público de junho de 2026, usa a palavra stand como classificação contábil e operacional de cinco projetos ativos. Não é nostalgia de mercado. É o estágio em que o empreendimento se encontra.

A leitura honesta é outra. No segmento em que o comprador tem repertório, compara poucas opções muito caras e decide em prazo longo, o stand virou condição necessária e insuficiente. Ele resolve a demonstração do produto. Não resolve a construção da relação que antecede a decisão de gastar alguns milhões de reais.

Quanto custa vender, e por que a conta subiu só de um lado

Doze incorporadoras de médio e alto padrão registradas na CVM declararam R$ 2,16 bilhões em despesas com vendas em 2025, sobre receita líquida consolidada de R$ 24,40 bilhões. A proporção passou de 7,31% em 2024 para 8,87% em 2025. A despesa subiu 26,92% enquanto a receita subiu 4,64%.

O grupo é Cyrela, Even, EZ Tec, Helbor, Trisul, Lavvi, Mitre, Moura Dubeux, Melnick, Tegra, You Inc e Kallas. A classificação por segmento é nossa: a CVM não classifica companhia por faixa de renda do comprador, e a separação foi feita pelo produto declarado de cada uma. Isso precisa ser dito, porque muda a leitura de quem quiser refazer a conta.

O contraste é o que interessa. No mesmo período, quatro incorporadoras concentradas em habitação econômica, MRV, Direcional, Tenda e Cury, foram na direção oposta: de 9,01% em 2024 para 8,89% em 2025. Vender ficou mais caro no alto padrão e ligeiramente mais barato no popular.

8,87%
Quanto doze incorporadoras de médio e alto padrão gastaram para vender, em proporção da receita líquida de 2025. Em 2024 eram 7,31%.
CVM, DFP das companhias abertas, exercício 2025
33.624
Unidades de médio e alto padrão vendidas em 2025 pelas empresas associadas, contra 41.789 em 2024.
Abrainc e Fipe, séries históricas, 2026
15,86%
Razão entre unidades distratadas e vendidas no médio e alto padrão em 2025, contra 9,31% no Minha Casa Minha Vida.
Abrainc e Fipe, séries históricas, 2026

A divergência continuou em 2026. No primeiro trimestre, onze dessas incorporadoras de médio e alto padrão gastaram 10,58% da receita líquida com vendas. São onze, e não doze, porque uma delas não abre a linha de despesas com vendas no relatório trimestral. A proporção foi de 10,58% contra 9,34% no mesmo trimestre de 2025. As quatro do segmento econômico caíram de 9,54% para 8,51%. Somadas as dezesseis companhias, a despesa com vendas declarada em 2025 foi de R$ 4,37 bilhões.

A conversão não acompanhou o gasto

Esta é a parte da tese que o dado público desmente. Segundo Abrainc e Fipe, as unidades de médio e alto padrão vendidas caíram 19,54% em 2025, de 41.789 para 33.624. No mesmo ano, as vendas do Minha Casa Minha Vida subiram 11,02%, de 138.027 para 153.233 unidades. O segmento que gastou mais para vender vendeu menos.

A série é produzida pela Fipe com dados de vinte empresas associadas à Abrainc, e não cobre o mercado inteiro. Ainda assim, é a única base pública que separa médio e alto padrão de habitação econômica em lançamento, venda, entrega, distrato e oferta, com histórico mensal desde 2014.

Há um atenuante importante, e ele é real. Os lançamentos de médio e alto padrão subiram 8,09% em 2025, para 27.106 unidades, e a oferta final de dezembro encolheu de 33.115 para 30.164 unidades. Vender menos com estoque menor é ritmo mais lento, não colapso de demanda. O que não se sustenta é a frase de que a conversão acompanhou o aumento de gasto.

Indicador, 2025Médio e alto padrãoHabitação econômica
Despesa com vendas sobre receita líquida8,87%8,89%
Mesma proporção em 20247,31%9,01%
Mesma proporção no 1º trimestre de 202610,58%8,51%
Unidades vendidas no ano33.624153.233
Variação sobre 2024menos 19,54%mais 11,02%
Distratos sobre vendas15,86%9,31%

As três primeiras linhas vêm da CVM e as três últimas de Abrainc e Fipe. São amostras diferentes, dezesseis companhias registradas contra vinte empresas associadas, e não devem ser lidas como o mesmo universo. A comparação vale pela direção, não pela soma.

Quem entra antes do público geral, e o que isso faz com o estoque

A pista mais concreta de que o alto padrão vende em ordem está na diferença entre unidades vendidas e valor vendido. No Soleil by Boca do Lobo, da Lavvi, lançado em abril de 2025, 64,1% das unidades estavam vendidas em junho de 2026, mas apenas 33,9% do valor geral de vendas. As unidades caras são as que sobram.

O padrão se repete na mesma carteira. No Saffire Elie Saab, lançado em maio de 2023, 85,0% das unidades e 67,5% do valor. No Heaven by Yoo, de outubro de 2024, 93,1% das unidades e 74,9% do valor. No Petra by Boca do Lobo, de setembro de 2024, 85,0% das unidades e 63,6% do valor.

Isso diz duas coisas operacionais. A primeira: a parte de baixo da tabela de preços de um empreendimento assinado escoa rápido, porque a assinatura funciona como argumento de entrada. A segunda: as coberturas e os apartamentos de maior metragem exigem um processo de venda próprio, individual, longo, que não é o mesmo processo do restante do prédio.

O report Anatomia do Luxo Brasileiro, da amano, sustenta essa leitura por outro caminho. Ele mostra que o um por cento mais rico do país não é um público: se divide em faixas com comportamento incomparável, e o zero vírgula um por cento concentra 12,4% de toda a renda nacional. Um lançamento que trata essas faixas como uma audiência única está desenhando o convite errado.

A mesma apresentação da Lavvi traz um segundo índice pouco comentado: a proporção do valor já vendido por ano de entrega. Nos empreendimentos com entrega prevista para 2025 e 2026, 89% e 85% do valor estavam vendidos. Para 2028 e 2029, 75% e 68%. A distância entre o momento da venda e o momento da chave é o que a temporada de lançamento tenta encurtar, e é exatamente onde a evidência some.

O stand é um edifício construído para ser demolido. O custo médio de construção no Brasil era de R$ 1.976,37 por metro quadrado em junho de 2026, com alta de 7,26% em doze meses. Fonte: IBGE, Sinapi, junho de 2026.

O que nenhuma série pública mede

Não existe base pública brasileira que relacione formato de lançamento a taxa de conversão. Nenhum órgão coleta se a venda veio de jantar fechado, pré-venda por convite, visita guiada de obra ou plantão de fim de semana. Os balanços registram despesa comercial agregada e não abrem o que foi contratado dentro dela.

É uma ausência estrutural, não um descuido. A linha de despesas com vendas comporta comissão de corretagem, publicidade, construção e operação de stand, apartamento decorado, material de venda e equipe. Só duas das doze companhias analisadas abrem qualquer subconta, e nenhuma delas separa evento de mídia ou de corretagem.

Portanto: quem afirmar em número que a temporada de eventos converte mais que o stand está afirmando sem base pública. Pode ter razão. Não tem prova disponível. Este artigo prefere registrar a lacuna a preencher com estimativa.

Onde o entusiasmo do mercado é maior que o dado

Três ressalvas derrubam parte do discurso corrente. A despesa comercial subiu, mas ninguém sabe para onde. A venda de alto padrão caiu, mas a oferta caiu junto. E o desempenho por companhia contradiz o agregado, o que impede transformar tendência de setor em receita de operação.

A terceira merece detalhe. A EZ Tec registra velocidade de vendas líquida de 32,3% em 2023, 38,7% em 2024, 40,4% em 2025 e 42,0% no primeiro trimestre de 2026, uma trajetória de melhora contínua. A Lavvi reporta 54% nos doze meses até o primeiro trimestre de 2026. Duas companhias do mesmo segmento e da mesma praça, com números que não descrevem a mesma realidade.

Há ainda um limite de definição. Velocidade de vendas não tem norma contábil: cada companhia calcula sobre uma base de oferta que ela mesma define. Comparar o percentual de uma com o da outra é comparar duas contas parecidas, não a mesma conta. O mesmo vale para a razão entre distratos e vendas de um período, já que o distrato se refere a contratos assinados antes.

O que uma incorporadora consegue medir de fato

Sobram quatro medidas com rastro verificável e uma quinta que depende de sistema interno. Nenhuma delas prova que evento converte mais que stand. Todas permitem descobrir, dentro de uma mesma companhia, se a mudança de formato mudou alguma coisa. É menos ambicioso e mais útil.

  1. Despesa comercial por empreendimento. A companhia já apura por obra para fins de resultado. Publicar internamente o valor por lançamento transforma uma linha agregada em comparação entre projetos.
  2. Velocidade de vendas sobre oferta declarada. Só serve se a base de cálculo for fixa por vários trimestres. Base móvel produz melhora aparente sem venda adicional.
  3. Distância entre percentual de unidades e percentual de valor vendido. É o indicador mais direto de que o produto caro está parado enquanto o resto anda.
  4. Distrato por safra de contrato. Medir distrato pelo mês em que o contrato foi assinado, não pelo mês em que caiu, é o que revela se a venda foi mal originada.
  5. Origem declarada do comprador na assinatura. Campo simples, preenchido pelo corretor no fechamento. É a única forma de saber quem veio de convite e quem veio de anúncio, e nenhuma norma obriga ninguém a coletar.

A conclusão que o dado permite é modesta e desconfortável. Entre 2024 e o primeiro trimestre de 2026, o alto padrão brasileiro passou a gastar mais para vender, enquanto o segmento econômico gastava menos, e vendeu menos unidades no processo. Alguma coisa mudou no momento da venda, e essa mudança tem preço declarado em balanço.

O que não existe é evidência pública de que ela tenha se pago. Quem trocar o stand pela temporada de eventos está fazendo uma aposta de posicionamento, não seguindo um indicador. A aposta pode ser correta. Ela ainda não é um número.

perguntas frequentes

o stand de vendas acabou no mercado de alto padrão?

Não. Na apresentação institucional da Lavvi de junho de 2026, cinco empreendimentos aparecem com o status formal de stand de vendas, um deles lançado em novembro de 2025. A EZ Tec separa o estoque por fase e mantém a categoria lançamento. O stand deixou de bastar sozinho, não deixou de existir.

quanto uma incorporadora gasta para vender um apartamento de alto padrão?

A linha auditada é despesas com vendas. Em 2025, doze incorporadoras de médio e alto padrão registradas na CVM declararam R$ 2,16 bilhões nessa linha, equivalentes a 8,87% da receita líquida consolidada. Em 2024 eram 7,31%. No primeiro trimestre de 2026 a proporção chegou a 10,58%.

existe dado público de conversão por formato de lançamento?

Não existe. Nenhuma série pública brasileira relaciona formato de lançamento, jantar fechado, pré-venda por convite ou visita guiada, a taxa de conversão. Balanços registram despesa comercial agregada, sem abrir o que foi contratado. Qualquer número de conversão por formato circula sem fonte primária verificável.

vender mais devagar no alto padrão é sinal de crise?

Não necessariamente. Segundo Abrainc e Fipe, as unidades de médio e alto padrão vendidas caíram de 41.789 em 2024 para 33.624 em 2025, mas os lançamentos subiram para 27.106 e a oferta final encolheu para 30.164 unidades. Menos venda com menos estoque é ritmo, não ruptura.

o que a incorporadora consegue medir de fato num lançamento?

Quatro coisas com rastro contábil ou registral: despesa comercial por empreendimento, velocidade de vendas sobre oferta, proporção entre unidades vendidas e valor geral de vendas realizado, e distrato por safra de contrato. O resto depende de sistema interno de relacionamento, que nenhuma norma obriga a divulgar.

Retrato de Marcus Yabe
sobre o autor

Marcus Yabe

sócio-fundador · estratégia e criatividade

Trabalha no encontro entre estratégia, comunicação, negócios, conteúdo e relações. Foi CEO do LIDE Paraná, diretor executivo da Paraná Business e publisher da TOPVIEW.

fontes
  1. Comissão de Valores Mobiliários. Dados abertos, DFP das companhias abertas, exercício 2025, 2026.
  2. Comissão de Valores Mobiliários. Dados abertos, ITR das companhias abertas, 2026, 2026.
  3. Abrainc e Fipe. Indicadores Abrainc-Fipe, séries históricas, série encerrada em janeiro de 2026, 2026.
  4. Abrainc. Dados de mercado, indicadores e publicações, 2026.
  5. Lavvi Empreendimentos Imobiliários. Apresentação institucional, junho de 2026, 2026.
  6. EZ Tec Empreendimentos e Participações. Factsheet 2026, 2026.
  7. IBGE. Sinapi, custo médio por metro quadrado, junho de 2026, 2026.
  8. amano casa criativa. Anatomia do Luxo Brasileiro, 2026.
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