
Não falta presença. Falta processo, e falta dado brasileiro.
Family office é a estrutura que administra o patrimônio de uma única família ou de um pequeno grupo delas, e no Brasil ela não tem definição legal, cadastro obrigatório nem censo. O que existe é estatística de private banking: R$ 2.554,8 bilhões distribuídos entre 69.457 grupos econômicos em novembro de 2025, segundo a Anbima. Family office não é isso, e a distância entre as duas coisas é o assunto deste texto.
A pauta original era outra. A hipótese dizia que o family office brasileiro cresceu, ficou discreto demais e, de tanta discrição, perdeu a próxima geração. É frase de painel de evento, e não sobreviveu à apuração.
Não sobreviveu por dois motivos. O primeiro é que não existe dado público brasileiro sobre comunicação, sucessão ou envolvimento geracional em family office. Nenhum. O segundo é que a única medida internacional comparável aponta para o lado contrário: entre os escritórios latino-americanos ouvidos pelo UBS em 2026, a fatia cuja próxima geração tem idade para participar e não participa é de 4%, contra 21% na média global.
O que sobra é um artigo mais útil: o que se pode afirmar sobre patrimônio familiar no Brasil com fonte na mão, o que não se pode afirmar, e por que essa fronteira importa para quem constrói relação com esse público. Um texto irmão desta seção tratou de relacionamento como ativo gerenciável. Este trata do que quase não tem registro.
A Anbima publica todo mês o volume financeiro e o número de contas do segmento private. Em novembro de 2025 eram R$ 2.554,8 bilhões distribuídos entre 69.457 grupos econômicos e 757.348 contas. A associação avisa em nota de rodapé que conta não é CPF: quem aplica em cinco produtos aparece cinco vezes.
O corte que define quem entra nessa estatística não é da Anbima. A metodologia de envio diz que o volume mínimo de aplicação é definido por cada instituição, observando apenas que raramente fica abaixo de R$ 1 milhão. O mesmo vale para a unidade de contagem: grupo econômico, diz a nota da planilha, é definido conforme a classificação própria de cada instituição.
Isso não invalida a série. Torna-a medida de mercado, e não censo de famílias. Duas casas podem classificar a mesma família de formas diferentes, e ninguém audita a fronteira. Quem usa o 69.457 como contagem de famílias ricas do país extrapola o que a fonte autoriza.
Ao lado do private existe uma segunda estatística, a de gestores de patrimônio, a que mais se aproxima do que o mercado chama de multi family office. A Anbima informou R$ 542,3 bilhões administrados ao fim de 2025, alta de 7,45% no ano, e 153 gestores em dezembro de 2024, cinco a mais que no ano anterior. É pouco mais de um quinto do volume do private.
Nenhuma das duas mede family office. Não há, no Brasil, categoria regulatória com esse nome, cadastro obrigatório ou lista pública. Existe escritório que se apresenta assim e não aparece em série alguma.
| O que se mede | Quem publica | Último dado aberto | O que ele não diz |
|---|---|---|---|
| Volume e contas do private banking | Anbima | R$ 2.554,8 bilhões e 69.457 grupos econômicos, novembro de 2025 | Quantas famílias são: o corte de entrada e a definição de grupo econômico são de cada casa |
| Volume dos gestores de patrimônio | Anbima | R$ 542,3 bilhões, dezembro de 2025 | Quantas famílias atende, e se serve a uma família só ou a várias |
| Sucessão e próxima geração em family office | UBS | 307 escritórios em mais de 30 mercados, campo entre janeiro e março de 2026 | Qualquer recorte só do Brasil: o menor bloco é América Latina |
| Comunicação do patrimônio dentro da família | UBS | Mais de 170 respostas de herdeiros, pesquisas de 2025 e 2026 | Comportamento: é tudo declaração, de um grupo autosselecionado |
| Censo de family offices no Brasil | Não existe | Não existe | Tudo |
Entre dezembro de 2016 e novembro de 2025, o volume do private banking brasileiro passou de R$ 831,6 bilhões para R$ 2.554,8 bilhões. Descontada a inflação medida pelo IPCA no período, de 54,51%, o crescimento real é de 98,8%. O número de grupos econômicos subiu bem menos no mesmo intervalo: 28,4%.
Os dois números saem da mesma série e contam histórias diferentes. O dinheiro quase dobrou em termos reais; a quantidade de famílias atendidas cresceu pouco mais de um quarto. O patrimônio médio por grupo econômico saiu de R$ 15,37 milhões em dezembro de 2016 para R$ 36,78 milhões em novembro de 2025, alta real de 54,9%.
A leitura mais simples é a mais provável: o segmento ganhou profundidade antes de largura. As famílias que já estavam ficaram maiores, ou passaram a concentrar nas casas que reportam à Anbima mais do que concentravam.
A geografia reforça o quadro. São Paulo responde por 56,1% do volume do private em novembro de 2025, e o Sul inteiro soma R$ 404,5 bilhões, ou 15,8%. No report Anatomia do luxo brasileiro, a amano registrou que São Paulo concentra ao menos 42% dos milionários do país e que Curitiba aparece em quarto lugar na demanda por imóvel de alto padrão, à frente do Rio de Janeiro. As duas medidas não coincidem, e não deveriam: uma diz onde o dinheiro está aplicado, a outra onde ele é gasto.
O cálculo real usa o número-índice do IPCA do IBGE, 4.775,70 em dezembro de 2016 e 7.378,94 em novembro de 2025, o que dá 54,51% de inflação acumulada. A série da Anbima é nominal e não separa valorização de carteira de entrada de recurso novo: parte da alta é preço de ativo, não captação. Fonte: IBGE, Sidra, tabela 1737, e Anbima, Estatísticas de Private.
A mesma planilha da Anbima traz um número que quase ninguém cita. Em novembro de 2025, o segmento private brasileiro declarava 2.417 profissionais de atendimento, dos quais 903 bankers. Para 69.457 grupos econômicos, isso dá 28,7 grupos por profissional de atendimento e 76,9 grupos por banker.
O total se divide em 903 bankers, 896 assistentes, 214 investors e advisors e 404 classificados como outros. A certificação CFP aparece em 1.156 deles, pouco menos da metade, e a planilha esclarece que esse subtotal está contido no total.
Uma relação de 76,9 grupos econômicos por banker não é julgamento, é restrição. Ela define quanto tempo cabe em cada relação e por que boa parte da conversa sobre patrimônio acontece em canal padronizado. Explica também por que o encontro presencial, caro e de baixíssima escala, segue fazendo sentido aqui: é o único formato em que a relação sobrevive à razão de carteira.
O UBS projeta que mais de US$ 83 trilhões mudem de mãos nos próximos 20 a 25 anos, sendo US$ 74 trilhões entre gerações e US$ 9 trilhões entre cônjuges. O Brasil aparece em segundo lugar no volume esperado, com quase US$ 9 trilhões, atrás dos Estados Unidos e à frente da China continental.
Este é o número mais frágil do artigo, e por isso fica no parágrafo e não no quadro de estatísticas. É estimativa de modelo do próprio banco, sem metodologia publicada, e não soma de inventários nem série fiscal. A posição do Brasil acima da China continental, cuja riqueza acumulada é muito maior, já pediria explicação. Some-se uma coincidência incômoda: na mesma frase do comunicado, US$ 9 trilhões aparece duas vezes, uma como transferência do Brasil, outra como total global entre cônjuges.
Vale registrar de onde vem a edição. A projeção está no Global Wealth Report de 2025 e não no de 2026, publicado em 30 de junho: a edição nova não repete o exercício de transferência. O próprio UBS remete a 2025 ao citar os US$ 83 trilhões no relatório de family offices de maio de 2026.
Serve para dimensionar uma ordem de grandeza, e só. Um país no pódio de uma transferência dessa escala tem muita conversa familiar por acontecer.
É aí que o dado brasileiro para. Nenhuma instituição publica, em série aberta, medida nacional de preparo de sucessão, de envolvimento de herdeiros ou de comunicação familiar sobre patrimônio. Publica-se volume aplicado e número de conta.
A tese que este artigo testou dizia que a discrição do family office brasileiro afasta a próxima geração. Um resultado do UBS vai na direção oposta. A pesquisa mede quantos escritórios têm próxima geração em idade de participar e sem nenhum envolvimento: são 21% na média global, 31% na Europa fora da Suíça e 4% na América Latina.
Nos Estados Unidos são 29%. Dos oito recortes publicados, o latino-americano é o que menos deixa herdeiro adulto de fora, e por uma distância que nenhum outro chega perto de cobrir. Se existe problema de porta fechada em family office, ele não é daqui. Uma explicação plausível está na amostra: 77% das famílias ouvidas ainda têm negócio operacional ativo, e negócio em operação puxa filho para dentro antes de carteira de investimento.
Vale dizer por que só esse contraste entra aqui. A mesma pergunta mostra 15% de próxima geração plenamente envolvida na América Latina e 41% parcialmente envolvida, contra 13% e 32% no mundo. Com cerca de quarenta respostas, a margem de erro do recorte é da ordem de quinze pontos: essas duas diferenças cabem dentro do ruído e não sustentam afirmação. A de 4% contra 21% não cabe.
Se a próxima geração latino-americana já está na sala, o problema é outro. No conjunto global, só 27% dos family offices mantêm processo organizado para preparar a próxima geração para seus papéis futuros, e só 35% têm plano de sucessão para o próprio escritório. Plano de sucessão patrimonial para os membros da família existe em 57%.
A lista de práticas levantada pelo UBS mostra onde a profissionalização parou. Medição de performance financeira aparece em 68% dos escritórios, comitê de investimento em 60%, orçamento anual em 58%. Governança com conselho de supervisão cai para 49%, manual de estratégia ou de operação para 37%. Preparo da próxima geração, 27%, é o último item.
Há também um dado sobre onde esse trabalho é feito. Do total de escritórios, 64% mantêm o preparo da próxima geração dentro de casa, 14% terceirizam e 22% não oferecem o serviço. Entre os que oferecem, a internalização é de 82%, contra 23% dos serviços jurídicos. Ninguém contrata alguém de fora para explicar a própria família.
Do lado dos herdeiros, o UBS ouviu mais de 170 pessoas em duas pesquisas, a primeira em maio de 2025, e publicou o resultado em 2026. É o mais próximo de uma medida de comunicação do patrimônio em fonte aberta. Cinco achados merecem registro.
Quatro ressalvas pesam sobre tudo o que está acima, e nenhuma é pequena. A primeira é de amostra: os 307 escritórios ouvidos pelo UBS são clientes do próprio banco, não amostra aleatória do universo de family offices, e o banco vende serviço para esse público. Quem publicou o número tem interesse comercial no resultado.
A segunda é de recorte. O menor bloco geográfico publicado é América Latina, com 13% da amostra, cerca de quarenta respostas para um continente inteiro. Não existe recorte Brasil. Tratar o resultado latino-americano como brasileiro é escolha de leitura, não achado, e quem fizer isso precisa dizer que está fazendo.
A terceira é de natureza do dado. Os dois relatórios do UBS medem declaração, não comportamento. Quando um escritório responde que a próxima geração está parcialmente envolvida, ninguém verifica o que parcialmente quer dizer. A pesquisa com herdeiros é mais frágil ainda: pouco mais de 170 respostas, colhidas entre membros de uma organização internacional de jovens investidores, grupo por definição já engajado com o tema.
A quarta é de projeção, e já foi tratada acima: os quase US$ 9 trilhões atribuídos ao Brasil saem de um modelo sem metodologia publicada, e o mesmo valor aparece com dois significados na mesma frase da fonte.
Some-se o lado brasileiro. A série da Anbima é nominal, mistura valorização de carteira com captação nova, e sua unidade de contagem é definida por cada instituição que reporta, o que impede comparação limpa entre casas.
Fica então a afirmação que o dado sustenta, e apenas ela. O patrimônio familiar brasileiro está mais profundo e mais concentrado do que há dez anos, é atendido por pouco mais de dois mil profissionais e não é medido em nada que diga respeito a como as famílias conversam sobre ele. A próxima geração não está do lado de fora da porta. Falta o processo que a receba do lado de dentro, e uma estatística brasileira que registre qualquer uma das duas coisas.
Não se sabe. Não há categoria regulatória, cadastro obrigatório nem lista pública com esse nome no país. O que existe é estatística de segmentos vizinhos: a Anbima informou R$ 2.554,8 bilhões e 69.457 grupos econômicos no private banking em novembro de 2025, e 153 gestores de patrimônio em dezembro de 2024.
O UBS projeta quase US$ 9 trilhões nos próximos 20 a 25 anos, o segundo maior volume do mundo, atrás dos Estados Unidos e à frente da China continental. É estimativa de modelo do próprio banco, publicada no Global Wealth Report de 2025, sem metodologia aberta. Serve para dimensionar, não para calcular.
Mais do que na média global, e o contraste que resiste à margem de erro é um só. Entre os escritórios latino-americanos ouvidos pelo UBS em 2026, a fatia com herdeiro em idade de participar e sem nenhum envolvimento é de 4%, contra 21% na média global, 29% nos Estados Unidos e 31% na Europa fora da Suíça.
A comunicação. Na pesquisa do UBS com mais de 170 herdeiros, publicada em 2026, a resposta mais frequente é nenhum conflito perceptível, com 41%. A causa de tensão mais citada é a falha de comunicação, apontada por 33% do total, à frente de divergência sobre estilo de vida e gastos, com 27%, e de percepção de justiça, com 24%.
Os próprios herdeiros dizem que mais cedo do que aconteceu com eles. Na pesquisa do UBS de 2026, 56% apontam antes dos 20 anos como idade ideal, sendo 40% na faixa de 13 a 19 anos. Na prática, 44% tiveram a primeira conversa já na vida adulta jovem e apenas 17% na infância.

Trabalha no encontro entre estratégia, comunicação, negócios, conteúdo e relações. Foi CEO do LIDE Paraná, diretor executivo da Paraná Business e publisher da TOPVIEW.
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